Judaísmo e Cristianismo – Parte 61: Mestres exemplares: Hillel e Shamai

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Para demonstrar melhor o que a Mishná chama de “disputas em vista de cumprir a vontade dos Céus”, usaremos um exemplo do primeiro tratado do Talmud[2]. Duas escolas dos famosos mestres Hillel e Shamai, do primeiro século antes do cristianismo, discutindo sobre a atitude física no momento da recitação do Shemá Israel. Vejamos primeiro, o texto sobre o qual se fundamenta a discussão:

“Escuta Israel, o Eterno nosso Deus, o Eterno é Um. Tu amarás o Eterno teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todos os teus meios, Essas palavras que eu Te ordeno hoje estarão sobre o teu coração. Tu as ensinarás a teus filhos e falarás sentado na tua casa, e andando sobre o caminho, quando te deitares e quando levantares” (Deuteronômio, capítulo 6).

Antes de morrer, Moisés exorta os filhos de Israel a reconhecer a unidade divina e a amar o Eterno Deus, cada um segundo a sua capacidade máxima. Ele ressalta a obrigação dos pais de transmitir a palavra de Deus aos seus filhos, e relembra que em todo lugar e todo tempo é favorável ao ensinamento dessa palavra. Mesmo que não esteja dito claramente no texto, a tradição compreendeu a partir do último versículo citado a obrigação de rezar o Shemá Israel de manhã e ao anoitecer. Sobre esse ponto nenhuma escola divergiu. Essa afirmação faz parte do que chamamos de “memória religiosa”. Mas em compensação, o debate aconteceu sobre qual deveria ser a atitude corporal daquele que reza.

Para Shamai o homem deveria à noite adotar uma posição deitada para recitar o Shemá e de manhã se levantar, pois está dito “deitado, ou ao te levantares”. Hillel, no entanto, pensa que o homem é livre quanto a sua postura, pois está dito também “indo pelo caminho”, isto quer dizer, segundo a interpretação deste mestre, se adaptando na atitude daquele que está em viagem (de pé, se caminhando, sentado se estiver num veículo, deitado se estiver numa leito de viagem, ou mesmo trotando, se estiver a cavalo.

O Talmud concluirá dizendo: “Estes e aqueles são palavras do Deus Vivo, mas a lei está conforme Hillel”[3] . Esse último era sempre mais flexível e humilde e por isso a maioria dos sábios o seguia.

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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Tratado – Bênçãos – Berachot Cap 1.
[3] Tratado – Misturas – Erouvim 13b.

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