Judaísmo e Cristianismo – Parte 59: A Mishná

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

59 – A Mishná

As agitações políticas e a ocupação romana forçaram essa atitude de por escrito” os ensinamentos orais. Esse trabalho não foi resultado de uma única geração, mas uma lenta compilação de comentários que eram divulgados há séculos. Esse período de efervescência intensa intelectual começou com o retorno da Babilônia (em torno de 500 a. J. C.)

O primeiro período que estendeu por cento e cincoenta anos foi o período dos soferim ou “escribas”, que foram os intermediários entre os profetas e os doutores da lei propriamente ditos. O último personagem conhecido dessa série foi o grande sacerdote Simão, o Justo, contemporâneo de Alexandre, o Grande.[2] Esse sábio abriu a era dos Doutores que, julgando a Bíblia definitivamente acabada e completa na sua forma, nela viram perfeitamente um campo de investigação religiosa vastíssimo e substituíram o título de soferim por outro mais modesto: chonim “professores” ou “choné halakha” “professores da lei” ou então conhecidos na sua fórmula “tanaim“[3].

Se os escribas eram de certa forma os continuadores da Bíblia, os doutores foram os seus comentadores, um pouco parecidos com os sábios anciãos dos gregos que depois de Pitágoras se tornaram os amantes das sabedoria. Os doutores eles mesmos passaram dos conhecidos hakhamim “sábios” para serem agora os “talmidé hakhamim“, os “alunos dos sábios”.

A raiz shoné (sheni = dois) significa “repetir” e por extensão “repassar um texto, aprofundar”, de onde veio a palavra Mishná que será a primeira compilação da tradição oral. Esse conjunto de doutrinas, de interpretações rituais, que se baseavam na Bíblia, serviu mais tarde de referência para o desenvolvimento do Talmud.

As fundações dessa obra foram erguidas pelo célebre Hillel, chamado “o Ancião” ou o “Babilônio”, patriarca e presidente do grande tribunal rabínico de Jerusalém, mais ou menos trinta anos antes do cristianismo surgir. Precursor da exegese do Talmud, autor das primeiras regras de interpretação bíblica, ele mereceu ser chamado de o Segundo Esdras e de Restaurador da Torah. Essa Mishná de Hillel foi depois enriquecida pelo Rabbi Akiba. Entre os seus discípulos, citamos Rabbi Meir que fundou uma famosa escola em Tiberíades e a quem se atribui a maioria dos textos anônimos da Mishná.

A redação definitiva da Mishná é atribuída a Rabbi Juda o Príncipe (Yehouda HaNassi), chamado também de “nosso santo Rabbi” ou somente de Rabbi, por excelência, mas muitos consideram que essa compilação se estendeu até à metade do século III. A divisão da Mishná se dá em seis partes, ou ordens, assim divididas:

1 – As Sementes: as leis religiosas e sociais ligadas à Terra de Israel (10 tratados);

2 – Os Compromissos: as festas (12 tratados).

3 – As Mulheres: a legislação da família (casamento, divórcio, herança – 7 tratados).

4 – Danos: a responsabilidade civil, os tribunais, os testemunhos, as penas e condenações (10 tratados).

5 – Sobre as coisas sagradas: as leis do Templo e dos sacrifícios (11 tratados)

6 – Purezas: as leis sobre o puro e o impuro (12 tratados).

O conjunto dos tratados da Mishná se apresenta como uma série de pequenos textos, distribuídos em capítulos que vão desenvolvendo sobre as diferentes interpretações dos mestres. A apresentação é breve e transparece sempre o desejo de ir logo ao essencial, como que a análise estivesse sob alguma espécie de pressão da situação econômica e religiosa.


[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[1] Cf. Haddad, Philippe. Pour expliquer le judaïsme a mes amis. Paris: Éditions In Press, 2013. p. 110.
[2] A palavra tanaim é uma forma híbrida dos caldeus e judeus, pois em caldeu se diz tanaé.

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