Primeiro Domingo do Advento: “Ele dirige os humildes na justiça, e aos pobres ele ensina o seu caminho” (Sl 24)

Por Karina Moreti

Estamos no Primeiro Domingo do Advento. A esperança se renova. Preparamo-nos para viver o Ciclo Litúrgico do Natal do Senhor. O nascimento de Jesus, anunciado pelos profetas, foi para o Povo Judeu – consequentemente para nós – a realização da Aliança definitiva entre Javé e a humanidade. Tanto Israel nos tempos do anúncio da vinda do Messias, quanto nós – em nosso tempo – aguardamos libertação. Não uma liberdade de algo, mas para algo. Para a vida plena do Reino de Deus. Os tempos que precederam Jesus foram marcados pela Primeira Aliança e as necessidades em que vivia Israel. Javé, pela Primeira Aliança, faz de Israel – e consequentemente de toda a humanidade – seu povo. Com Jesus, a relação entre Criador e Criatura seria transmutada em Pai e filhos. Jesus nos eleva à condição de coparticipantes de seu Reino. O Reino de Deus. Da servidão, à condição de filhos. De Criatura à partícipes. São Paulo Apóstolo nos diz em sua Epístola aos Gálatas: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, afim de que recebêssemos adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama Abba Pai! De modo que não é mais escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro. Graças a Deus.” (Gl 4,4-7). O Advento é a espera de celebrar na Liturgia e na Vida este Mistério. Nossa participação no Reino. Libertos de todas as escravidões, pela plenitude que vem de Jesus.

Na Liturgia da Palavra deste Primeiro Domingo do Advento, abrimos o beber das fontes dos textos sagrados com o Livro de Jeremias (Jr 33,14-16). No trecho que nos sugere a Liturgia, temos sinal claro de exortação à esperança. Esta que advém da justiça de Deus. A propósito, a Justiça sempre esteve intimamente ligada à ação de Javé. Bem o sabemos por muitos livros do Antigo/Primeiro Testamento. O Livro da Sabedoria, por exemplo, tem como tema a Justiça. Poderia ser chamado A Justiça é Imortal. Nos livros históricos, os que compõem o Pentateuco, a Justiça de Javé sempre é pano de fundo da ação divina. A Justiça de Javé está presente na história da constituição de seu povo. É inegável que a ação libertadora dele se fundamenta na Justiça. Só para exemplificarmos, lembremos da vocação de Moisés. “…e os israelitas, gemendo sob o peso da servidão, gritaram; e do fundo da servidão, seu clamor subiu até Deus. E Deus ouviu os seus gemidos; Deus lembrou-se da Aliança com Abraão, Isaac e Jacó.” (Ex 2,23b-25). Aos israelitas sob o jugo do Egito, Javé envia Moisés, para que se faça justiça. Nenhum homem ou mulher pode ser escravizado! Libertação é consequência da Justiça de Javé. Por isso, a promessa de Deus para seu Povo em Jr 33,14-17, é de Justiça. Por ela, a plenitude do sonho de Javé se fará realidade na Encarnação do Verbo. Jesus é a plenificação da Justiça de Deus. No Filho, as realidades de opressão, marginalização, toda forma de cativeiro; serão transformadas com Ano da Graça do Senhor (cf. Is 61,1-3 || Lc,418-19), onde a Justiça e a Paz abraçarão a humanidade (Sl 85/84). Como um abraço caloroso do Pai, na pessoa do Filho.

Na Segunda Leitura temos 1Ts 3,12-4,2. Nesta, Paulo se dirige à comunidade dos cristãos em Tessalônica. Durante sua segunda viagem missionária, Paulo e Silvano fundaram essa comunidade. Os frutos da atividade missionária foram a conversão de muitos pagãos, e aos poucos a comunidade se tornou numerosa e entusiasta. Isso provocou reações adversas da parte de alguns judeus, que fizeram fortes acusações contra Paulo, forçando-o a deixar seu trabalho missionário nessa comunidade.

De Corinto, comprometido com o anseio de manter as comunidades vivas e vivificantes, Paulo envia Timóteo para obter notícias da comunidade de Tessalônica e animar pastoralmente a Igreja de Jesus lá presente. Para alegria de Paulo, o Espírito de Deus agiu fortemente nessa comunidade, fecundando e gerando lindos frutos, dando a se reconhecer que esta, a Igreja em Tessalônica, era exemplar para os seguidores de Jesus. Entre os maiores testemunhos dados por esta comunidade, podemos destacar a vivência da caridade fraterna.

O trabalho missionário de Paulo em Tessalônica nos mostra que a caminhada cristã nunca é um processo acabado. O processo catequético de evangelização é contínuo, e o Espírito Santo é o protagonista da missão. O cristão não é alguém perfeito, mas alguém que, a cada dia, procura se aproximar sempre mais de Deus.

Coroando a Liturgia da Palavra deste Primeiro Domingo do Advento, temos o Evangelho de Lc 21,25-28.34-36. O Capítulo 21 deste Evangelho é marcado pelo discurso escatológico. Ao contrário do entendimento de muitos teólogos ou pregadores, a escatologia não é anúncio de desgraças ou está revestida de uma pedagogia do medo. Ao contrário, a escatologia é para as Comunidades de Jesus sinal de esperança. É aqui que podemos casar os textos da primeira e segunda leituras da Liturgia deste domingo. A esperança de novos tempos, transformados pela justiça de Javé que nos foi anunciada por Jeremias, também a esperança de que a ação missionária pode resultar em frutos de amor fraterno e justiça evangélica; como bem pôde se alegrar Paulo com a Comunidade Cristã em Tessalônica e, no Evangelho, a plenitude do Sonho de Javé para seu Povo: o Reino de Deus!

O texto deste domingo está situado na última parte do Evangelho de Lucas. Jesus percorreu o caminho para Jerusalém alinhavando seu ensinamento, aprofundando sua catequese. No cenário deste capítulo 21, ele está agora nesta cidade. São os últimos ensinamentos antes de sua paixão, morte e ressurreição. Tais versículos marcam o fim do seu discurso sobre a destruição de Jerusalém e a vinda do Filho do Homem. Jesus, durante a subida para Jerusalém com seus discípulos, já havia ensinado sobre esses acontecimentos futuros.

Sob a pedagogia do discurso escatológico, ele descreve aos discípulos os sinais cósmicos que irão anteceder a chegada do Filho do Homem, isto é, o ressurgimento do Messias. O sol, a lua e as estrelas vão se escurecer, e as pessoas serão tomadas de angústia. A difícil situação deixa sem alento todos aqueles que esperam pelo enviado de Deus. Sua chegada, porém, irá trazer a libertação aos discípulos. Os sinais cósmicos se apresentarão como catástrofes na terra, mas a conclusão do ensinamento assegura a aparição gloriosa do Filho do Homem, fazendo alusão à glória da ressurreição que acontecerá em Jerusalém.

Ainda sob o prisma da esperança que consolida a Liturgia da Palavra deste Primeiro Domingo do Advento, as palavras de Jesus exortam que os discípulos não devem esperar com temor, mas com esta esperança. Os sinais cósmicos não apontam para o fim do mundo, mas para a mudança que a ressurreição de Jesus vai realizar nos corações e na comunidade. Os discípulos devem reconhecer os sinais que precedem a redenção que o Filho do Homem traz ao mundo. Por isso, Jesus faz essas recomendações aos seus discípulos, para que esperem com confiança e resistam na hora de seu sofrimento na cruz.

A Liturgia de hoje, assim como todo o Tempo do Advento, nos ajudará a revisitar a dinâmica libertadora de Javé. Desde os patriarcas, ele tem transformado a história dos homens e mulheres. Sinal de esperança que advém da justiça. Uma relação de amor incondicional entre Pai e filhos. Amor este que chegará à plenitude pela encarnação do Verbo. A vinda do Messias é sinal de esperança inabalável. A fé em Jesus Cristo nos ajuda a ter presente que o novo mundo oferecido por Deus está permanentemente em construção e depende de nosso testemunho, de nossas ações a favor do Reino que ele veio instaurar. É sempre tempo de renovar o coração e nos prepararmos bem para um Santo Natal, na oração e na ação solidária e caritativa.

Ao longo do Advento, somos convidados a refletir sobre a realidade da vida humana, a rezar pelas muitas situações de sofrimento de nosso tempo. Assim como os discípulos do Evangelho, presenciamos sinais catastróficos de destruição da natureza, de tantos irmãos e irmãs vivendo em situações desumanas. A preparação do Natal nos convida a abrir o coração às obras de caridade e viver a misericórdia. Milhões de pessoas diariamente são assoladas pela violência da guerra, da fome, da doença. A Palavra de Deus nos convida a perseverar na esperança; também a nós, Jesus assegura que a libertação está à porta. Ele nos ensinou o caminho para uma vida fraterna e solidária. Sigamos neste caminho, como comunidades missionarias, anunciando o evangelho e preparando o Reino de Deus.

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Karina Moreti é Jornalista, bacharel em Comunicação Social pela Universidade Sagrado Coração (hoje UNISAGRADO-Bauru, SP), Bacharelanda em Teologia pela UCDB, animadora Litúrgica na Diocese de Lins, SP.

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