Judaísmo e Cristianismo – Parte 55: A Vocalização

55 – A Vocalização

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

O alfabeto hebraico se formou originalmente de vinte e duas consoantes, sem nenhuma vogal; o pergaminho do Pentateuco, portanto, não foi nunca escrito vocalizado. Essa particularidade permite ler uma palavra de diferentes maneiras. Se essa característica é considerada uma bênção para alguns, para outros pode ser fonte de erro na leitura em público. Esse foi o mérito dos chamados Massoretas em resolver essa delicada questão.

Quem foram os Massoretas? Da raiz massor “transmitir” (de onde vem a palavra emissário), eles designam as escolas de escribas que vocalizaram o texto bíblico. Se os escribas na época de Esdras, como funcionários conscientes, contaram o número de letras da Bíblia, identificando as palavras desaparecidas ou os grafismos particulares (algumas letras são propositalmente escritas maiores do que outras, ou menores do que outras), os Massoretas inventaram como colocar as vogais nas palavras. Esse trabalho exigiu paciência, inteligência e bom senso, porque dependendo da vocalização é que se dependia todo o sentido do versículo e portanto toda a mensagem bíblica. Esses massoretas eram na verdade eruditos judeus que, na Idade Média, se dedicaram à tarefa de estabelecer a forma do texto da Bíblia Hebraica e transmitir esse texto do modo mais exato possível, vocalizando um texto consonantal (o acréscimo de sinais vocálicos).[2]

Vejamos como exemplo o versículo dois do Capítulo II do livro do Eclesiastes, os Massoretas vocalizaram a palavra méhollal “insensato” contrariamente ao Talmud (Tratado Shabat 30b) que lia méhoullal “louvável”[3]. Para poderem ter tanta autonomia e liberdade e serem respeitados pelos talmudistas, isso nos forçaria a admitir que os Massoretas estavam muito próximos ao período de encerramento do Talmud, podendo até mesmo serem contemporâneos a ele.

As escolas dos Massoretas se desenvolveram sobretudo em Tiberíades em torno do século X e XII. Os mais famosos dos Vocalizadores foi Aarão Ben Moisés Ben –Acher que viveu em torno do ano 1000. Ele ofereceu a versão vocalizada oficial do texto bíblico, e recebeu mais tarde a aprovação total de Maimônides (1135-1204).

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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Fischer, Alexander Achilles. O texto do Antigo Testamento. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013. p.15.
[3] Estes escribas são chamados de Baalé nikoud  “os Vocalizadores”, os “Pontuadores”.

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