Às vezes esquecem que são seres humanos

Por Hermes A. Fernandes

Imagine que são 20:00h. Imagine, também, que seu corpo já apresenta sinais de fome. Já passa da hora do jantar. Nesse horário, um gostoso banho é bem vindo. Um jantar, mesmo que frugal, e – já vencido pelo cansaço – seu corpo pede uma cama. Repouso necessário para um novo dia de lutas. O amanhã sempre nos traz seus leões a enfrentar. Agora imagine todos estes apelos de seu corpo, suas necessidades básicas, e você não tem onde morar. Em consequência, não há um banho à sua espera, o jantar só acontecerá se alguém agir com misericórdia e seu repouso será nas calçadas, coretos das praças, sobre papelões e cobertores. Camas que pessoas em situação de rua improvisam. Os abrigos ou albergues não comportam a demanda, deixando a maioria destes irmãos e irmãs em situação de rua sem atendimento, deixados à própria sorte.

Em nosso cotidiano, é certo que veremos nas ruas pessoas em situação de rua. Para muitos é difícil entender como alguém consegue se sujeitar a essa vida. Como se fosse uma opção. Como se alguém amanhecesse, tivesse um lampejo de vontade e dissesse: “ah, vou ser mendigo, ser morador de rua”. Claro que não acontece assim.

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Segundo especialistas em psicologia e serviço social, grande parte das pessoas que estão em situação de rua, sofre alguma psicopatologia. Dependência química e etílica, por exemplo. Ao contrário do que muitas mentes moralistas postulam, estas fraturas da psique não estão associadas ao caráter ou à moral. Alcoolismo e dependência química são doenças. Graves e incuráveis. Sob as quais, sem ajuda profissional, não se pode obter uma superação. Aliás, superação aqui significa abstinência, não cura. Está provado que dependência química e alcoolismo não têm cura. Por isso, a volta ao uso, o que chamamos de recaída, é previsível e não condenável. Independe da vontade. Atente-se: usei a palavra condenável de propósito. A primeira disposição da sociedade em relação às pessoas nestas vulnerabilidades é a condenação. Por não compreender ou por ser ausente de qualquer empatia. Há quem tenha misericórdia para com gatinhos e cachorrinhos abandonados, mas repele e condena seres humanos abandonados. Pessoas com psicopatologias sociais não são mais senhores de sua história e precisam de ajuda. Só com nosso compromisso que estes terão uma chance diante do problema. Entretanto, a atitude mais comum é repelir estas pessoas. Querer que elas não existam. Há iniciativas do poder público que viabilizam a higienização social, autorizando as forças coercivas como a Polícia Militar e as Guardas Civis Municipais a expulsar pessoas em situação de rua dos locais onde se deixam estar. Sejam praças, parques, locais de utilização pública. Para onde iria alguém que não tem trabalho ou moradia? Os locais ditos públicos são seus refúgios, mas muitas administrações municipais negam que sejam as praças apropriadas para estar aqueles que não tem onde estar. E reprimem, agridem, humilham. Não é incomum ver pobres em situação de rua sob abordagem das polícias e GCMs. Como se o fato de ser pobre e em situação de rua, os relegasse à condição de suspeitos por criminalidade.

PORTAL DO CLERISTON SILVA - O portal de notícias de Serrinha e região:  Flagrante da Reportagem: mendigo dorme com cães na Praça Luiz Nogueira

Entre as pessoas em situação de rua, ainda há um outro grupo que sofreu uma fratura com a emancipação afetivo-psíquica. Um processo de depressão tão grande que faz com que a pessoa se negue à dignidade. Desistem de sonhar. Não chegando ao extremo de tirar a própria vida, por meio de suicídio, seguem seu viver, esperando a morte chegar. Pessoas sem sonhos, planos, metas. Desistem de viver e, assim, rompem com o sistema econômico, estrutura familiar, responsabilidades. Tornam-se pessoas em situação de rua, pois se fazem incapazes de emancipação psíquica, o que desfavorece todo e qualquer tipo de agir como sujeito de sua história. Não conservam trabalho, rompem com os laços familiares e, sem dinheiro, ficam sem moradia. Para restaurar a vida digna nestas pessoas, é preciso restaurar a pessoa. Oferecer ajuda psicológica para esta dor que corrói o interior, fazendo-lhe desistente do viver e do sonhar. Rotular estas pessoas como vagabundos, vadios – entre outros impropérios – de nada adianta. Chega a ser pecado. Estão doentes. Precisam de ajuda. Não de condenações moralistas.

Ainda podemos encontrar outros grupos de pessoas em situação de rua. Grupos no que definem os motivos do seu estar nesta situação. Iremos encontrar sempre um parâmetro relacionado à psique. Nunca será uma questão moral. É impossível conceber que alguém queira, de fato, viver sem sanar suas necessidades básicas de subsistência. Uma coisa é certa: precisam de ajuda! Não de juízos de valor e condenação.

Arquivos de mendigos - Fala! Universidades

A Igreja e a Sociedade são responsáveis por essas pessoas. O conceito de civilização nos impele em direção ao cuidado. Se nos detemos em reflexões sobre a preservação da natureza, como princípio de proteção da vida, mais apropriada e digna será a iniciativa de proteger a vida humana. Vida esta que é relegada ao abandono nas praças, nas periferias existenciais. O andarilho e o mendigo é humano, como todos nós o somos. Sua dignidade é ameaçada quando o ignoramos ou repelimos. E, muitas vezes, o humilhamos. Para a Igreja, a responsabilidade é estrutural. Impossível pensar em uma religião que exclua os miseráveis. A fé nos impele ao cuidado. Cada mendigo na praça deve ser visto como o próprio Cristo a sofrer sua Paixão. Ele mesmo o disse em seu Evangelho. Qualquer ato de misericórdia feito a um de seus pequeninos seria como se fosse feito a ele (cf. Mt, 25,40). Por isso a Igreja de Jesus deve ser, antes de tudo, samaritana.

Sigamos no sonho de Javé. Por um mundo onde não haja excluídos e excludentes. Oprimidos e opressores. Ricos opulões ou Lázaros miseráveis. A responsabilidade é de cada um de nós. Do nosso olhar. Como veremos nossos irmãos abandonados? Às vezes, nossa sociedade esquece que são seres humanos.

2 comentários Adicione o seu

  1. Frei Camilo Silva disse:

    Belo documentário! Parabéns, irmão! Como sempre, usado por Deus pra nos ensinar com suas palavras tão marcantes. Gratidão paz e bem abraços fraterno.

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    1. O Caminheiro do Reino disse:

      Meu caro irmão, Frei Camilo! Sou eu quem agradeço sua acolhida, amizade e testemunho. Paz e Bem!

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