Você pode discordar da Teologia da Libertação

Por Hermes A. Fernandes

Muitas admoestações contrárias à Teologia da Libertação podem ser vistas nas redes sociais. Alguns destes textos e reflexões se auto intitulam apologetas, em defesa da Sã Doutrina. Lendo de forma mais atenta, nada há de apologética. Pelo menos, em um conceito próprio à patrística. Que foi um momento lindo na Igreja! Este textos e vídeos contrários à Teologia da Libertação são mera implicância ou vaidade intelectual.

Excomungam teólogos, sem que o próprio Papa saiba destas excomunhões. Rotulam por comunista, algo que é pensamento teológico. Eis a primeira contradição. Mesmo que uma teologia se ocupe de problemas sociais, está longe de se equiparar às ciências políticas. Neste sentido, Teologia da Libertação não pode ser comunista, pois não se submete aos métodos de análise das ciências políticas. Para tanto, precisaria do objetivismo científico de Émile Durkheim. A Teologia se sustenta na revelação. Tem como alicerce a fé e, assim, não pode ser política, social ou econômica. Insistimos: pode se ocupar de temas e problemas sociais, políticos e econômicos; mas não perde a condicional da ótica do crente – isto é, a fé. Assim, não pode ser comunismo, socialismo, capitalismo, neoliberalismo; ou algo que o valha. Teologia se ocupa das coisas de Deus e do Povo de Deus. Sem o dado da fé, não se produz pensamento teológico. E, com este mesmo dado – a fé – ausenta-se o viés da sociologia e demais ciências políticas. Em síntese, atribuir o materialismo histórico à Teologia da Libertação é uma análise pueril, ausente do fundamento básico para a teologia. Neste primeiro pensar, podemos concluir que acusar de comunismo a Teologia da Libertação é forçar o argumento, no desejo torpe de defender interesses pessoais. Não doutrinais ou eclesiais. Quem ataca com estes argumentos a Teologia da Libertação, está defendendo ideologia pessoal. Não a Verdade referente à Doutrina da Igreja.

Um segundo dado a se levantar é a provocação teológica. Do que se ocupa a Teologia da Libertação? De uma reflexão sobre a Revelação centralizada na pessoa de Jesus, o Nazareno, enviado pelo Pai, sob a ação do Espírito Santo, a partir da ótica dos oprimidos (cf. Lc 4,16-30 – especialmente os vs. 18 e 19). A partir da realidade dos pobres. Inegavelmente, desde os tempos primeiros, temos desigualdades em todas as sociedades, as quais, chegam-nos noticias pela história. Ricos que buscam se tornar mais ricos, às custas de pobres, que se tornam – paulatinamente – mais pobres. Ademais, temos a marginalização das minorias, a negação da dignidade humana, entre outras mazelas de milenar existência. Neste contexto, temos os relatos bíblicos do Primeiro e Segundo Testamento, onde Javé ouve o clamor dos pobres e vem em seu socorro. Não precisamos enumerar citações bíblicas aqui para sustentar nosso pensamento. Vamos lembrar personagens. Moisés e o Faraó: opressão do povo hebreu, vocação de Moisés e a ação de Javé por sua libertação. Os profetas Isaías, Jeremias, Amós, Zacarias, entre outros; falam do identificar de Javé com os empobrecidos, exilados, explorados, marginalizados. Jesus, sobretudo na obra de Lucas, identifica-se como o Messias enviado a evangelizar os pobres. Atos dos Apóstolos narra a experiência de uma comunidade de seguidores de Jesus, o Messias de Nazaré, que vive em plena comunhão de bens, partilhando o pão e a palavra, sem haver necessitados entre eles. Além disso, esta comunidade de fiéis institui a diaconia, para acolher e amparar órfãos, viúvas, empobrecidos (cf. At 2,42-47). Nada mais libertador do que uma economia solidária! E como esquecer Ex 3,7-14? Não podemos negar: toda Bíblia está cheia de anseios de libertação. Por que não podemos ter uma Teologia da Libertação?

Há em todos os momentos da história da Igreja exageros. Quer seja na contrarreforma, onde o fechamento dogmático se fez presente em reposta ao protestantismo nascente. Houve, antes na Idade Média, movimentos espiritualistas que se afastaram tanto da vida humana e sua coerência histórica que incorreram na heresia. Em tempos do iluminismo, chegaram a dizer que o homem não precisava mais do conceito de Deus, pois a razão era resposta para todas questões do homem. A história é construída pela dinâmica humana. Este, o homem, é passivo de erro e desejoso do acertar. Falando em Teologia, sobretudo em um contexto pós Concílio Vaticano II, temos a Teologia da Libertação. Podemos até reconhecer algum exagero aqui, ou acolá; mas prendendo-nos à Verdade, esta teologia se faz benéfica, necessária. Sobretudo, em tempos de neoliberalismo, sistemas econômicos que privilegiam os detentores do poder pecuniário, ao detrimento e sofrimento dos trabalhadores e trabalhadoras. Em tempos de sucateamento de políticas públicas assistenciais, onde os miseráveis correm – a cada dia – o risco de ser deixados à própria sorte. Não podemos nos esquecer da Integridade da Criação. A natureza, a Casa Comum, também clama por justiça face às agressões que sofre em virtude da exploração desenfreada de seus recursos naturais, motivadas pela ambição humana. Sofre a Terra, sofrem todos os seres viventes. Estas preocupações também pululam a reflexão teológica. Uma Teologia que, assim como Javé no Primeiro Testamento, preocupa-se com o grito dos oprimidos e com o Direito e com a Justiça. Neotestamentariamente, Jesus sempre se ocupou em seu discurso e em seu agir, com o acolhimento, com a inclusão, com o “vem para o meio”, com a vida plena. Sem nos esquecer das comunidades de Jesus: paralelamente à preocupação com o anúncio da Boa Nova, estava o comprometimento com os empobrecidos, como podemos vislumbrar em Atos dos Apóstolos.

Você pode até discordar da Teologia da Libertação. O que não pode é negar que o Deus que você adora e serve é Javé: Deus dos Pobres e Sofredores. Que a Nova Aliança veio por Jesus, o Messias dos Pobres. E, por fim, tente negar que as primeiras comunidades viveram embaladas pelo sonho de Isaías: partilha do bem, da casa comum, da vida fraterna. Sem pobres, ou ricos. Sem judeus ou pagãos. Sem senhores ou escravos. Todos irmãos. A Bíblia que você lê e tem como sustentáculo à sua fé, exorta-lhe e impele aos pobres. Isto vem de Deus. E é, também, Teologia da Libertação.

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Imagem: Eduardo Lima

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