Judaísmo e Cristianismo – Parte 47: O Mundo Futuro

47 – O Mundo Futuro

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

O fato de que a Bíblia não fale nada sobre o mundo futuro, nem sobre o mundo das almas, nem sobre Paraíso ou Inferno não interfere me nada para o Hebreu, pelo contrário, o ajuda. Saber que existe um universo paralelo seria contrário ao seu serviço divino. Em nenhum momento, os profetas avançaram o tema falando de uma retribuição ou punição no outro mundo, pois para eles, já tendo contribuído para a construção da morada divina sobre a terra, não esperaram outra sequer recompensa, por menor que ela fosse. “A retribuição da boa ação é a boa ação ela mesma”, ressoará no Talmud. Quanto ao mundo futuro, Moisés já tinha proibido toda especulação sobre, esses segredos pertencem a Deus (Deuteronômio 29, 28) e o Sheol permanecia o lugar aberto para essa “questão”.

o mundo futuro 2

À luz da arqueologia, pode-se até mesmo dizer que o Hebreu quis romper com o Egito e a sua religião. Aprofundando o conhecimento dessa grande civilização, percebe-se a quão longe a Torah quis verdadeiramente convidar o Hebreu “a sair do Egito”. Essa foi a intuição de Maimônides que pensou que todo decreto bíblico (hok) não justificado por um acontecimento histórico, nada mais era que o oposto de uma regra religiosa egípcia, e mais ainda pagã (o Egito era considerado o arquétipo do paganismo). As proibições de misturar numa mesma roupa lã e linho, de não cozinhar o cabrito no leite de sua mãe, ou os sacrifícios, revelam uma preocupação de servir a Deus aqui e agora sem outra alegria ou bem-aventurança do que aquela produzida deste cumprimento. Alguns documentos descobertos em Ougarit (Líbano) fazem menção de um rito de sacrifício à deusa Tanith, que consistia em cozinhar um cabrito no leite de sua mãe[2].

Para o Egito, a vida autêntica era a vida após a morte ao lado de Osíris. E é por isso que mumificavam os corpos, para impedir a putrefação, embelezavam as sepulturas, construindo câmaras mortuárias adequadas e suntuosas. O Hebreu, por sua longa servidão e pelos seus contínuos sofrimentos, tinha já entendido que primeiro é preciso se ocupar da realidade terrestre, aliviar o fardo do pobre, amar seu próximo e aquele “seu distante” como a si mesmo, e construir sim uma cidade de justiça e de igualdade neste mundo. Sem dúvida, essas construções fantasmagóricas de um paraíso luxuosíssimo ou de inferno em chamas teriam feito sorrir os autênticos filhos de Abraão. Mesmo que a questão da imortalidade da alma entendida no seu sentido teológico não tivesse sido abordada pelo Hebreu, este, no entanto estava convencido de que Deus realizará o milagre da ressurreição dos mortos. Tal seria  a maneira de afirma a vitória da vida e do seu triunfo do bem sobre o mal.


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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Cf. Haddad, Philippe. Pour expliquer le judaïsme a mes amis. Paris: Editions in Press, 2013. p. 107.

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