Judaísmo e Cristianismo – Parte 42: A Shoah e o período pós-guerra

42 – A Shoah e o período pós-guerra

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Os judeus, portanto, tinham necessidade de um Estado entre as duas grandes guerras, pois o céu da Alemanha se escureceu muito por causa das ideias assustadoras. A chegada do nazismo ao poder na Alemanha em 1933 trouxe o antissemitismo racial num grau de horror inimaginável. Alguns judeus percebendo o perigo avançaram em fuga para outros países da Europa ou em direção aos Estados Unidos. Em 1939, a armadilha foi armada, e durará até 1945, sobre a Europa. O judaísmo pagou por isso com 6 000 000 (seis milhões) de vidas de seus filhos por essa loucura sem nome e sem sentido.[2]

Após a descoberta dos campos de concentração e o horror que neles se passou, era preciso encontrar uma solução para os sobreviventes. Nesse momento na Palestina, as forças armadas judaicas (Hagana) ou clandestinas (Irgoun) combatiam contra os ingleses para conseguir a criação de uma pátria judaica. Somente com um voto histórico da ONU (Organização Mundial das Nações) em 14 de Maio de 1948 é que foi criado o Estado de Israel. Essa data marcou infelizmente o início de um conflito com os vizinhos árabes que até hoje ainda não se encontrou uma solução estável, mesmo se a paz pareça avançar.

O Estado de Israel criou, no entanto uma nova imagem que parece contrastar com a imagem do exílio. O judeu não está mais à mercê das nações. Ele desenvolveu uma agricultura de ponta, fez jorrar as verduras no meio do deserto (Kibboutz), e possui um exército poderoso. Produz tecnologia avançada, participa de pesquisas científicas internacionais, e agora o Israeliano se tornou um interlocutor importante onde quer que esteja. Os jovens no Ocidente se aproximam mais orgulhosamente da sua identidade, e se chamam “Judeus” e não “Israelianos” que eles consideram impróprios. Trazem alguns até uma estrela de Davi ao pescoço, algo que era sinal de opróbrio durante a última guerra. E se orgulham em dizer que até Spielberg é judeu.  No campo do diálogo inter-religioso, a Igreja, graças a precursores como Charles Péguy e o historiador Jules Isaac (1877-1963), criador da Associação Amigos Judeu-Cristãos, repensaram toda a teologia da substituição para um diálogo lento, mas irreversível que se desenvolve, sobretudo a partir do Papa João Paulo II, em Jerusalém, no ano 2000. O judaísmo pode agora se expressar livremente nas democracias, nas mais ortodoxas ou leigas, pelos meios de comunicação e no espaço público. Mas o antissemitismo, mesmo que ainda controlado por leis severas, não desapareceu de todos os espíritos, mesmo em teses defendidas por universitários. O judaísmo é uma janela de caminhos. Foi assim pela sua vocação monoteísta, depois foi assim com o Monte Sinai, e deve ser uma janela de caminhos abertos para as culturas, as filosofias e os debates. Existem desafios importantes abertos, conseguiremos abri-los?


Papa Francisco em 13 de junho de 2018 lembrou:

“A Shoah nunca deve ser esquecida: Deve ser um aviso de uma obrigação de reconciliação, de compreensão recíproca e amor para com nossos ‘irmãos mais velhos’, os judeus. A arrogância humana exposta durante o Shoah foi a ação de pessoas que se sentiam como deuses, e mostra a dimensão aberrante em que podemos cair se nos esquecemos de onde viemos e para onde estamos indo”.


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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Essa é a razão pela qual os judeus preferem falar de Shoa, termo hebraico que significa “destruição total”, mais do que “Holocausto”, que era um sacrifício feito com uma finalidade.

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