Judaísmo e Cristianismo – Parte 38: O século das Luzes – O Iluminismo

38 – O século das Luzes – O Iluminismo

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

O século XVIII marca uma reviravolta para a Europa Ocidental e para as comunidades judaicas. Um discurso de tolerância e igualdade jorrava sob a pluma dos intelectuais e dos filósofos. Para as Luzes, o pensamento universal e a razão eram incompatíveis com o ódio racial e o antissemitismo. A era do absolutismo mercantilista, que fazia do comercio e da troca um fator primordial de sucesso econômico e de felicidade social, iria permitir uma reconsideração do estatuto de alguns judeus, neste caso, que tivessem os meios de participar da vida do Estado. Uma elite financeira e intelectual saiu pouco a pouco do gueto, ajudando os seus irmãos (a família Rothschild, por exemplo) e outros assegurando a sua própria ascensão social.

Esta efervescência social, cultural e econômica foi a origem da Haskala, o movimento iluminista que nasceu na Alemanha. Por mimetismo e por oportunidade, ele propôs repensar a relação da identidade judaica com a religião, com a sociedade ao seu redor. Abriram-se também mostras e exposições estendidas às mulheres judias, e uma nova literatura se fez conhecer. Um dos pais desse movimento, um judeu ortodoxo, erudito na Bíblia e no Talmud, formado no espírito filosófico e aberto ao seu tempo, Moisés Mendelssohn (1729-1786) comparado à Moisés Maimônides, permitiu a elaboração de um discurso coerente sobre a integração dos judeus na modernidade.[2]

Ninguém antes dele, havia posto com tanta força a definição da identidade judaica, o sentido da prática e a relação com o universal. Os judeus viviam piedosamente a sua fé, rezavam três vezes por dia, comiam uma comida Kasher (segundo as normas religiosas do judaísmo), repeitavam o Shabat e as Festas, sem se preocuparem com esse tipo de questão. Mesmo Maimônides, portanto aberto à cultura grega e muçulmana, não trata do assunto, sua preocupação filosófica era extirpar da religião a idolatria e a superstição a fim de alcançar as verdades eternas. Mendelssohn foi, portanto um precursor. Após o pedido deste último, o conselheiro de Estado da Prússia Wilhelm Christian Dohm publicou em 1781 um texto decisivo: Sobre o aperfeiçoamento cívico dos Judeus.

Joseph II, tirano iluminista, foi sensível a esse discurso. À frente do Império dos Habsbourg, que protegia a maior comunidade judaica da época, decretou a abolição do sinal distintivo dos judeus (1781) e abrandou o seu fardo fiscal no ano seguinte. Depois os encorajou a sair do seu quarteirão para aprender novos ofícios, ele os autorizou a empregar servidores cristãos e a frequentar as escolas públicas ou as Universidades e permitiu aos mais ricos de se integrarem na sociedade e na vida econômica.

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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org

[2] Cf. Haddad, Philippe. Pour expliquer le judaïsme a mes amis. Paris: Editions in Press, 2013. p. 82.

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