Igreja de Jesus, ou a minha Igreja?

“Na Casa de meu Pai há muitas moradas.” (Jo 14,2a)

Por Hermes A. Fernandes

Fico pensando em muitas manifestações presentes nas redes sociais. Há católicos que se sentem traídos pela Igreja. Em vários aspectos, sob vários prismas. Frases como: “Não fui eu quem me desviei da Igreja, foi a Igreja que se desviou do cristianismo, apoiando torturadores, com revólver e fuzil nas mãos”. Há também quem diga: “Não estou em comunhão com essa Igreja que está claramente contaminada pelo comunismo”. Claro que os dois exemplos são de grupos ideologicamente opostos. E ambos estão errados. Primeiramente, porque nossa identificação por um grupo dentro da Igreja não pode ameaçar a integridade, o todo dela. A Igreja é de Jesus, seus sacramentos são ministrados em nome da Santíssima Trindade, seu líder maior é um único Sumo Pontífice. Se refletirmos pelas raízes de nossa teologia, nada encontraremos que justifique divisões entre nós.

Mircea Eliade (1907-1986), filósofo especialista em religiões, nos esclarece que a religião é fruto do grupo humano. Um fenômeno antropológico, não ipsissimamente sagrado. Diversidades são naturais e previsíveis, dada a riqueza da condição humana. Advimos de regiões diferentes, somos de povos diferentes, muitas vezes, até falamos línguas diferentes. Nada mais presumível do que pensarmos diferente. Rezamos ao mesmo Deus de forma diferente, partilhando com ele nossos sonhos humanos de forma diversa. Mesmo assim, quem vê pensamentos religiosos diferentes dentro de uma única Igreja, sente-se traído. Traído por quem? Pela Igreja, ou por seu ensimesmamento, sob o qual, pensa ser dono da Palavra certa, teologia certa, Igreja certa?

Não foi raro em meu caminhar ouvir irmãos e irmãs que relataram ter se afastado do caminhar em sua Igreja Particular (diocese ou arquidiocese) quando se mudou o bispo. “O bispo atual me não me representa”, alega o cristão, ou a cristã católicos. Claro que o bispo não lhe representa! Certo ou errado, ele deve representar Jesus, não a você ou a mim. O Autor da Graça e, assim, a Cabeça da Igreja, a Fonte e o Cume da Revelação e do Culto é o Cristo (cf. Cl 1,15-20; CIC 1066-1068). Quer teologizando, quer celebrando, o eixo central sempre será o Cristo, não nossas opiniões pessoais, nossos anseios. São Bento de Núrsia (480-547) nos ensina que nada devemos antepor ao amor de Cristo. Nem mesmo, nossas ideias ou ideologias.

Voltemos a citar as dicotomias. Para bem entender, bem refletir. Há quem diga que a CNBB é Comunista. E, assim, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se perdeu. Nada mais estapafúrdio do que isso. Primeiramente, porque nenhum pensamento comunista, marxista, leninista; poderia ser difundido dentro da Igreja, sem atentar contra a fé. O materialismo histórico, nega a transcendência religiosa. Seria o mesmo que ensinar português, com álgebra. Os pensadores socialistas tiveram razão em muitas coisas. Claro que há teólogos que reconheçam isso, mas o autor da Revelação sempre será Yahweh. A Graça sempre estará em nós pelo Cristo, sob a ação do Espírito Santo. A hipótese de que o marxismo influenciou a Doutrina Social da Igreja é tão estapafúrdia quanto pensar que quando Jesus mandou anunciar o Evangelho a todas as nações, ele estaria defendendo o neoliberalismo e a globalização. A DSI (Doutrina Social da Igreja) nasce da fidelidade à Revelação, através da Palavra de Deus. Tanto a Tradição Veterotestamentária, quanto a Neotestamentária nos impelirá à Justiça, ao Direito e à Misericórdia. Quem discorda de que Justiça Social deve estar no discurso da Igreja, afirma que devemos escrever uma nova Bíblia, pois – de capa à capa – encontraremos textos que poderiam ser classificados como subversivos. Aqui, faço uma clara apologia à DSI, aos Movimentos Populares e às lutas em defesa dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana. Também deixo minha total adesão aos grupos que, genuinamente, prezam por esses ideais. Porém, queria estender o viés dessa reflexão. Continuo.

Há, contrário aos grupos que acusam a CNBB, um outro que acusa os mais afeitos à tradição, ou mesmo os movimentos de espiritualidade carismática. Não são raros os depoimentos: “os padres de hoje ressuscitaram aqueles paramentos ridículos, as rendas, os brocados, fugiram do essencial ao Evangelho”. Ainda: “cresce o número de padres de batina…” “Os padres abandonaram as reflexões do Concílio Vaticano II, vestiram suas batinas pretas, e se afastaram do povo”. Estas acusações também estão erradas. Primeiro que o Concílio Vaticano II nunca aboliu as vestes sacerdotais. Há até um documento que prima pela necessidade de seu uso. No Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros, nº 61, há uma clara exortação para que os ministros ordenados façam uso de um hábito talar (batina ou hábito religioso), ou uma veste que os distingue dos ministros não ordenados (esta veste podemos entender como a camisa clerical). Assim, acusar de retrógrados os que voltaram ao uso da batina, é defender uma ideologia particular, não a fidelidade à Igreja. Estes padres de batina estão amparados pelos documentos da Igreja. As críticas a eles, atentam contra a unidade. E, vamos ser realistas: qual o problema de usar batina ou camisa clerical? Dom Helder Câmara foi um exemplo de compromisso social e de comunhão com os mais pobres e nunca encontrei uma foto dele sem batina. Ser progressista, não significa ser protestante. Viver a esbravejar contra tudo aquilo que reflita uma identidade católica. Aqui, os conservadores tem minha defesa. Suas batinas não me incomodam. Estão amparadas pelo Magistério da Igreja. E, meu pensar e agir, se deixam guiar por esse caminho condutor: o Magistério.

Agora gostaria de falar sobre os movimentos mais espiritualistas na Igreja. E não tomem qualquer palavra minha como preconceituosa. Não pretendo isso. A Renovação Carismática Católica vive a trocar farpas com os ditos progressistas. Como nos parágrafos anteriores, aqui também gostaria de desmitificar alguns preconceitos. Alguns equívocos. Acima eu disse que os progressistas, as lutas sociais e uma teologia comprometida com os problemas temporais do homem e da mulher, assim como, problemas ambientais; tem razão de ser e existir. Disse também que, se procurarmos comunismo dentro da Igreja, vamos encontrar até mesmo na Bíblia. Aliás, nossos sentidos sempre acompanham nosso coração. Quem busca o mal, irá defrontá-lo. Quem vive pela pedagogia do ódio, só encontrará guerras em sua vida. E aqui eu gostaria de dizer uma palavra em favor da Renovação Carismática Católica. Serei muito sincero. Não tenho a mesma hermenêutica teológica. Não tenho a mesma espiritualidade. Entretanto, não posso admitir que sejam relegados à marginalidade por alguns de nossos irmãos e irmãs. Na Igreja de Jesus, há espaço para todos os carismas (cf. Jo 14,2a). Por isso, também me posto ao lado da RCC, como seu irmão. O que me preocupa são alguns grupos, comunidades de vida, que atentam contra a unidade eclesial. Com espírito apologético, agridem ministros ordenados, teólogos, bispos. Aqui faço uma exortação direta à Comunidade Canção Nova: sua pedagogia de formação do povo de Deus está gerando confusões. Suscitando espíritos revoltosos, em nome de uma apologética da Sã Doutrina. Gostaria, como seu irmão em Cristo, de lhe pedir séria reflexão sobre sua pedagogia. Nós, da Igreja fora das mídias, estamos vendo os desastrosos resultados de seu ensinamento. Seu trabalho é primoroso, louvável, enquanto pesquisa, estudo, dedicação. Entretanto, sua forma de lidar com o diferente, tem marginalizado os que pensam diferente dos senhores e senhoras. Assim, põe a perder todo um lindo esforço. Não adianta esmero na Doutrina, sem Caridade Fraterna. Isso o próprio Jesus exortou aos Fariseus e aos Doutores da Lei. Ensine o Povo. Seu chamado é lindo! Mas não difunda divisões. Para ser católico, não é preciso estar no mesmo grupo que o outro. Não é preciso ser da RCC para ser católico verdadeiro. Nem mesmo membro colaborador da Canção Nova. A Igreja não pode ter um discurso sectário, partidário. Deve primar pela Unidade. Neste sentido, chega de divisões! De discursos separatistas. Cheios de ódio. Chega de procurar heresias e hereges. Procuremos a maior das doutrinas: o Amor. Vivamos como irmãos e irmãs.

Por fim, gostaria de voltar ao ponto inicial desta minha reflexão. Muitos são os que se sentem traídos pela Igreja quando essa não corresponde às expectativas pessoais. Em verdade, esse é um sentimento ou afirmação enganosa. Alguém na Igreja pensa como você. Há pessoas com todos os dons e carismas dentro da Igreja. Há quem prime pelo social, há quem se sinta chamado à contemplação. Há estudiosos. Há pastoralistas. Há missionários. Algum lugar, é o seu lugar. O nosso erro é querer que a Igreja seja como aquele brinquedo de nossa infância, o Playmobil. Onde todos os personagens, tinham a mesma face. O mesmo formato. Pela graça de Deus, somos diferentes. Nossa íris diz isso, nossas digitais concordam. Cada ser humano tem uma íris diferente para ver Deus e os homens com seu próprio olhar. Cada ser humano tem uma particular digital, para dar ao mundo um toque único. Por isso, faremos sempre – cada um de nós – uma experiência única de Deus. Foi a criatividade divina que primou pela diversidade. Não queiramos ensinar Deus a ser Deus. Não queiramos uma Igreja ao nosso modo. A Igreja é de Jesus. Nela, há lugar para todos. Nossos conflitos por doutrina ou ideologias, só nos provam que ainda não entendemos nada. Se não entendemos o amor, o que mais sobrevive em nossa fé? Lembremos das palavras de Jesus: “sejam misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Misericórdia não se resume à esmola ou assistência aos empobrecidos. Vai além! É preservar o coração do outro de mágoas. Respeitar sua identidade. Promover alegria e acolher o diferente. Na Igreja de Jesus, somos todos membros de um só corpo (cf. Cl 1,18), onde Cristo é a cabeça. Não desapropriemos Jesus do que é dele. A Igreja é dele, vivamos como hóspedes dóceis em sua Casa.

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