Judaísmo e Cristianismo – Parte 35: O Judaísmo na Europa (Askenazi) e a atitude da Igreja na Idade Média

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

A presença de comunidades judaicas na Gália já é comprovada a partir do século IV. Após as perseguições das legiões romanas, algumas famílias conseguiram viajar para o nordeste da Europa e chegarem até à Alemanha. Mesmo sendo inimigos de Roma em Jerusalém, no Império, os judeus conseguiam obter o estatuto de judeu-romanos e se beneficiarem de alguns favores legais.

A expansão do cristianismo vai minando pouco a pouco essa condição. Com a teologia dos Padres da Igreja, o diálogo de igual para igual se desbota, sobretudo por causa da teologia da substituição. A Igreja se auto-proclamava o novo Israel, verdadeiro Israel, e o povo judeu era acusado de estar sempre vagando por causa do deicídio (morte de Deus). Isso não significa que os descendentes dos habitantes da Judéia tivessem que ser destruídos, pelo contrário, deveriam eles permanecer vivos, mas num estado de inferioridade social e de humilhação, a fim de serem a prova viva da veracidade da mensagem cristã. A Igreja de Roma em seguida radicalizou e retirou os direitos e os privilégios da comunidade judaica. Na Gália, os Francos e os Carolíngios foram mais brandos, pois sabiam eles que os judeus tinham boas relações econômicas com outras comunidades da diáspora, e representavam uma espécie de fermento para o sucesso econômico. Carlos Magno, por exemplo, soube tirar proveito disso no império que ele planejava construir, apesar do conselho desfavorável do clero. É nessa época que data o nascimento do Judaísmo Ashkenazi que quer dizer literalmente “Alemanha”. Diferente do Judaísmo Espanhol, diferente do seu ambiente cultural, o mundo Ashkenazi se estendeu do norte da França até à Iugoslávia atual.[2]

Essa importância do ambiente cultural é preciso ressaltar, pois ela constitui uma constante sociológica da História Judaica. Depois do exílio, os judeus sempre tiveram vivido numa espécie de simbiose, uma associação íntima, com os nativos do local, no país ou onde estivessem. A Bíblia já nos fala de que José no Egito tinha assumido o nome egípcio de Tsafat Paneah, e que ele vestia a túnica local, e mesmo os rabinos do Talmud usavam o nome de Alexandre. A assimilação na cultura ambiente local não implicava necessariamente numa desjudaização.  Digamos que o meio ambiente influenciava de alguma forma a sua mentalidade. Portanto, o judaísmo sempre poderia acrescentar qualquer nome depois dele, um “judeu alguma coisa”, que iria se expressar num novo dialeto (judeu-espanhol ou ladino; judeu-alemão ou yidiche, judeu-árabe etc.). Cada comunidade possuía a sua linguagem, sua arte culinária ou decorativa, sua moda, sua liturgia específica, seu tipo de pensamento. Conta-se uma anedota judaica que quando dois judeus se encontram, cada um analisa a cultura não judaica do outro. Não estamos muito longe da verdade.

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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org

[2] Cf. Haddad, Philippe. Pour expliquer le judaïsme a mes amis. Paris: Editions in Press, 2013. p. 76.

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