Mais de 600 mil estrelinhas no céu

Por Hermes de Abreu Fernandes

Quando em tempos de nossa infância, para nos ajudar a lidar com o luto, nossos pais e familiares próximos faziam uso de analogias para se referir à morte ou aos falecidos. Ao perdermos um ente querido, quando este fazia sua Páscoa, diziam: “virou estrelinha no céu”. Não podemos negar a sensibilidade deste gesto. Lidar com a morte é sempre uma fratura interior. Algo difícil durante a infância. Neste gesto de nossos pais, havia uma amenização do pesar.

No atual contexto de Covid-19, amenizar a dor não se faz mais possível. Mesmo porque, ao depararmo-nos com os noticiários, vemos a provocação, o agravante ao nosso luto. O atual governo nos leva ao desespero, negando-nos qualquer sinal mais tênue de esperança. Não obstante as manifestações claras de periculosidade em relação ao Coronavírus, o governo federal insiste em suas políticas negacionistas. A irresponsabilidade de Jair Bolsonaro é declarado descaso pela dor do povo brasileiro. Agressivo com os jornalistas que o questionam sobre a incompetente administração; sua negligência para com os que são obrigados a conviver com ele, enquanto se nega a ser vacinado; seu discurso vitimizado, no qual, nega assumir qualquer responsabilidade sobre o caos em que vivemos; são alguns dos sinais de sua ineficiência e incongruência enquanto chefe de estado. Não é sua culpa? Quem se referiu ao Coronavírus como gripezinha? Quem retardou, o quanto pôde, as tratativas para se providenciar a vacina e, assim, iniciar a imunização da população brasileira? Quem insistiu em sugerir e promover o tratamento do Covid-19 por alternativas sem eficácia comprovada, como o tratamento preventivo por cloroquina, fadando muitos à morte?

Ainda há mais: Bolsonaro passa seu tempo de governo de polêmica em polêmica, de escândalo em escândalo; sem – de fato – governar o país. Devemos nos perguntar – munidos de real sinceridade – o que fez Bolsonaro pelo Brasil neste seu tempo de governo? Quais programas implantou pelo bem da Nação? Não há o que relatar. A história atesta contra seu governo. Nada temos para apresentar como sinal de sua eficiência administrativa. Ao contrário, somos confrontados todos os dias por sinais tangíveis do apocalipse de nosso País. Os quase semanais aumentos de combustível, o crescimento do desemprego, a castração das políticas públicas de saúde e assistência social, ineficiência enquanto liderança. Bolsonaro relaciona-se com seus seguidores, em símile idolatria, afrontando os que o questionam, desprovido de qualquer sentido de autocrítica. Posa-se como um deus, incapaz de reconhecer sua passividade ao erro. Um governo insensível à dor de seu povo. Este povo que, desgraçadamente, se vê obrigado a buscar alimento no lixo.

VÍDEO: Pessoas procuram comida em caminhão de lixo em bairro nobre de  Fortaleza - Metro - Diário do Nordeste
Pessoas buscam comida no lixo em Fortaleza, CE (Imagem: Diário do Nordeste)

Como amenizar a dor de nossos tempos? Faz-se impossível! Oxalá, no próximo pleito, o povo brasileiro aprenda que não vivemos em um conto de fadas. Esta é a vida real. Por isso, mitos não são vias de construção para uma realidade melhor. Não podemos engrandecer o nome da Pátria e da Família afirmando que conseguimos lutar contra o comunismo. Ora, esta nunca foi uma ameaça à Nação. Bolsonaro induziu o povo brasileiro a viver como Dom Quixote de la Mancha, personagem de Miguel de Cervantes. A ameaça do comunismo sobre o Brasil é tão ilusória, quanto os moinhos de vento eram os inimigos de Dom Quixote.

É preciso atingir à maturidade. Um dia, tivemos que entender a dor e o luto, advindos da morte. Hoje, somos confrontados a reconhecer: o Brasil tem um presidente que simboliza todo o mal possível a um povo. Ou damos este passo rumo à razão madura, ou – também nós e nossos entes que ainda vivem – seremos mais estrelinhas no céu. Com Bolsonaro, nosso destino é mais luto, mais morte!

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