Judaísmo e Cristianismo – Parte 28: O Sentido Positivo do Exílio

28 – O sentido positivo do Exílio

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

A tradição tentou apesar de tudo, oferecer um sentido positivo, talvez até místico, a essa tragédia. Os acontecimentos tenebrosos de 586 a. J. C. e sobretudo os de 70 deveriam provocar a perceber também os aspectos positivos segundo as palavras otimistas do Rabi Akiba, que diante do pranto dos seus discípulos frente ao Templo destruído, anunciou: “Se as profecias das desgraças se realizaram, as outras profecias de felicidade se realizarão também” (Tratado Makot 24b).

Os dois santuários destruídos na mesma data hebraica provocaram uma situação de exílio, galout em hebraico, que se tornou um componente da identidade judaica. Essa dimensão de exílio já tinha aparecido na Bíblia quando Deus tinha anunciado a Abraão“Fica sabendo que tua descendência viverá como estrangeiros numa terra que não lhes pertence” (Gênesis 15,13).

Para esses mestres, se Israel teve que ser castigado, isso significava que Deus esperava por um engajamento melhor de seu povo, isso significa ainda que a Providência continuava a funcionar para eles. Mesmo partindo para o exílio, os judeus partiam também junto com o seu Deus. A Presença Divina, a Shekiná, os acompanhava. Assim como também tinha acompanhado seu antepassado Jacó no Egito.[2] Essa Presença Divina iria sofrer junto o sofrimento do povo, ia viver o seu martírio e esperar a esperança deles. A Glória do Altíssimo não preenche os céus e a terra? Não tinha a Presença Divina descido para se revelar a Moisés numa sarça ardente que significava que Deus estava próximo daqueles que estavam mergulhados na miséria? Distante de seu território, das questões políticas, militares e sociais: Israel poderia então plenamente agora se consagrar a sua vocação inicial: levar a mensagem de Deus a todas as nações, e até mesmo trazer de volta aquelas “almas sob as asas da Presença Divina”.[3]

Mas essa situação não devia ser questionada pelos homens. Essa situação deveria durar, no espírito dos rabinos, pelo tempo que fosse da vontade de Deus. Deus tinha dispersado, Deus devia reunir novamente. Numa famosa passagem de um dos tratados do Talmud chamado Ketouba (página 111 a – frente), fala-se sobre o tratado dos “contratos”: Deus tinha justamente estabelecido um contrato com Israel e as nações, que estipulava que Israel não devia subir à força para sua terra, e que as nações não deviam igualmente oprimir com ferocidade a Israel.

Esse período de anormalidade de um povo sem terra, de um povo submetido a estar espalhado entre as nações, pelos quatro cantos do planeta, reforça por consequência, a esperança da Redenção final e da reunião dos exilados. A vocação sacerdotal dos descendentes de Abraão, que tiveram eficácia somente a partir da influência espiritual em Jerusalém, foi relatada numa profecia do final dos tempos, quando os filhos das nações segurando as franjas de uma vestimenta judaica, pedirão o conhecimento da doutrina divina (Profecia do livro de Zacarias, capítulo 8, 23).

O judaísmo mantendo intacto seu desejo de retornar a Sião, expressou nas três orações diárias, e manifestou isso na famosa frase da noite de Páscoa a ser rezada todos os anos: “no próximo ano na Jerusalém reconstruída”, transformou-se na religião da diáspora.

Jerusalém, Tiberíades, Beer Sheva, repousaram sempre nas lembranças. O Templo estava erguido no coração. Os judeus da Babilônia que não tinham seguido com Esdras, que conheceram somente a Casa de Estudo e a Sinagoga permitiriam ao judaísmo de sobreviver? Contudo para os sábios que se encontravam ainda na Palestina, um novo espírito de conquista germinou, não mais aquele de Josué na terra de Canaã, mas de um pergaminho, o espírito de uma palavra, o espírito de um Livro oferecido com inúmeros comentários. Era preciso olhar um pouco mais para o versículo inteiro da promessa divina feita a Abraão: “Vai em direção à terra que eu te indicarei”, para agora valorizar mais o final do versículo: “e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”.[4}



[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Tratado – Rolo de Ester – Meguilá 29a.
[3] Cf. Haddad, Philippe. Op. Cit. p. 61.
[4] Livro do Gênesis 12,1-3.

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