A Porta Estreita, o Reino de Deus e nosso Viver Cristão

Por Hermes de Abreu Fernandes

Assim como em Marcos, o Evangelho de Lucas faz o Caminho de Jesus para Jerusalém. O relato de Lc 13,22-30 continua inserido neste contexto do caminhar de Jesus com os discípulos para Jerusalém, onde haverá de se cumprir a Paixão. Esse caminho é, antes de tudo, um itinerário teológico e catequético. Por isso, enquanto caminha, Jesus é interrompido diversas vezes por várias categorias de interlocutores, que lhe fazem perguntas relevantes sobre a Lei, o Reino de Deus, as condições para o discipulado e questões do cotidiano.

No trecho do Evangelho que desejamos refletir, temos de início uma contextualização. “Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém.” (Lc 13,22). Neste caminhar, neste dividir coisas do coração, se faz oportuna a catequese, a reflexão sobre as coisas do Reino de Deus. É nesta necessidade de se falar de coração para o coração que alguém questiona Jesus: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” (13,23b). É em uma concepção de pequenez do Reino de Deus que se suscita a pergunta sobre o número dos que se salvam. Aqui, no contexto do caminho de Jerusalém, se infere o sentido de que poucos passarão à nova era, o Reino de Deus. Como se fosse desvinculada a realidade em que vivem, com a realidade do Reino. Um sentimento alienador de realidades. Um desejo de se romper com o mundo, contrário à necessidade de transformá-lo. Em um texto anterior, Lucas refere-se ao Reino de Deus como grão de mostarda e fermento na massa (cf. Lc 13,18-21). Quer o grão de mostarda, quer o fermento na massa; se não se inserem, de nada servem. Toda semente deve ser plantada no seio da terra, assim o é com o grão de mostarda. O fermento deve ser misturado à massa, para que essa se levede. Neste sentido, a pergunta sobre quantos serão os que se salvam, que passarão ao Reino de Deus; se faz contraditória dentro da pregação de Jesus naquele momento preparatório de sua Paixão, o Caminho de Jerusalém. Pode transparecer um desejo sectário de se aprovar alguns e excluir os demais. Quem serão os merecedores do Reino? A quem são destinadas as delícias da promessa? Analisando a essência dos Evangelhos de Marcos e Lucas, fica-nos claro o desejo de Jesus: incluir sempre, acolher sempre, integrar a todos. Nunca marginalizar, excluir, sectarizar. Por isso, por que a dúvida de se serão poucos ou muitos os que entrarão no Reino de Deus? Quiçá sejam todos, pois tamanha é a misericórdia do Pai!

E Jesus começa a desenvolver sua reposta. Atentemo-nos:

“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’.

“Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’ Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos.” (Lc 13,24-30)

Jesus começa a falar de uma porta estreita (v. 24). Mesmo que seja estreita, é uma porta. Portas existem para se entrar e sair de algum lugar. A lógica da expressão já nos oferece campo de reflexão. Não se deve postular, pela estreiteza da porta, a capacidade ou incapacidade de se entrar nela e, sim, a dificuldade. Mais que dificuldade, poderíamos dizer, a serenidade ao adentrar-se. Quando uma porta é estreita, nada mais eficaz do que se entrar um de cada vez. Sem atropelos, sem pisar uns sobre os outros. Assim, individualmente, com serenidade e respeito mútuo, podem entrar todos ao rescindo, um a um, sem se obstruir a porta por meio de algum tumulto. O Reino de Deus pode ter esta mesma lógica. Não se pode entrar por instituições, ideais e ideologias. Por mérito de castas. Não há bagagem bem vinda no Reino de Deus! Nem mesmo títulos de nobreza que se tem na existência presente. Para atravessar a porta do Reino, é preciso um coração limpo, vazio de toda mesquinhez e arrogância desse mundo. Sem meritocracias, sem protecionismos. Essa constatação nos é oferecida nos versículos 25 a 27. Não importa com quem comeu ou bebeu. Quais rodas da sociedade ou relações eclesiais constituiu. É o bem viver que importa. E viver bem é a partir da justiça, da fraternidade, do amor fraterno. As portas do Reino são os corações sinceros e amorosos, que se deixaram tocar pela mensagem evangélica e, por ela, pautam suas vidas.

Por fim, Jesus vem falar de primeiros e últimos (Vs. 29-30). É claro que temos que entender esse texto por uma ótica escatológica! Para tanto, lembremo-nos da imagem da porta de entrada que o dono da casa controla. Nesta parábola de Jesus podemos recordar a cena de Gn 19,1-11, onde o serviço e a acolhida se fazem primordiais no trato entre os homens e o céu. Daí podemos perceber que para Jesus não bastava ter convivido pessoalmente com ele. Mesmo que essa convivência fosse revestida de tolerância e cortesia. Era preciso tomar partido, optar pelo Reino (Lc 12,8-9), assim como o fez Ló, arriscando a própria vida em proteção aos anjos de Deus. Muitos foram os que conviveram com Jesus, porém, o discipulado foi algo que só alguns se dispuseram. O comprometimento foi de poucos. A decisão firme de segui-lo foi algo próprio àqueles que, após sua ascensão, deram continuidade ao anúncio do Reino de Deus. A estes é destinado o banquete. A estes pertence o Reino de Deus. E, mesmo que tenham sido chamados primeiro, só os que – de fato – aderiram às realidades do Reino, dele participarão. Nesta lógica, os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos. Não importa o tempo ou o lugar. Importa o “Sim” definitivo. O comprometimento com Jesus, fazendo de sua mensagem carne em sua própria carne. Até às últimas consequências.

Ainda mais: A quem de fato pertence o Reino de Deus? Não podemos nos esquecer do discurso das Bem Aventuranças (cf. Mt 5,1-12a; Lc 6,20-49). Nestes textos, encontramos a predileção de Deus pelos menos favorecidos, sofredores, injustiçados, esquecidos, injuriados, excluídos, marginalizados. Todo aquele que só pode ter em Deus sua esperança, tem – correspondentemente – dele um amor e zelo especial. Javé é Deus dos pobres, do povo sofredor! É concomitante a isso que o sim dado ao Projeto de Jesus deve ser vivenciado concretamente por um compromisso com os pequenos, com os marginalizados. É no amor ao próximo que se concretiza o amor a Deus e o seguimento ao seu Filho, Jesus (cf. 1Jo 4,12-21).

Podemos ainda nos preocupar com a porta estreita. Ora, que porta é essa? Ela é o amor. Seguir Jesus acolhendo sempre, amando sempre e estando sempre ao lado dos pequenos. Com estes valores do Evangelho, passaremos por esta porta. Adentraremos no banquete do Senhor e cearemos com ele. Como bem nos ensinou São Francisco de Assis, sacrificando-nos pelos outros, morrendo pelos outros, viveremos para a Vida Eterna.

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