A Cruz de Todos os Povos no Brasil e seu simbolismo

Por Frei Jacir de Freitas Faria [1]

A cruz que está sendo construída em Divinópolis não será grandiosa por causa da imponência de sua altura, 74 metros, mas pelo simbolismo que ela representa. A cruz, por causa de suas hastes vertical e horizontal, céu e terra, muito antes do cristianismo, já fazia parte do imaginário de povos. 

Os primeiros cristãos não a tinham como símbolo do cristianismo, mas o peixe, utilizado nas celebrações eucarísticas. Foi somente a partir do século segundo é a cruz foi identificada com os cristãos, os quais passaram a ser chamados de “os devotos da Cruz”. Com isso, a cruz passou a simbolizar a fé na morte e na ressurreição de Jesus, o perdão dos pecados, a salvação, o sofrimento de Jesus e do ser humano na labuta da vida. 

Mais tarde, a cruz feita na testa aparece como sinal de acolhimento do cristão na comunidade, mas também de proteção contra o demônio e risco de vida. Por isso, diante de um perigo, há quem faz o sinal da cruz na testa e exclama: “Cruz Credo”, ou seja, “Creio na cruz que me salva”. 

Na Idade Média, os portugueses que chegaram ao Brasil, assim como os espanhóis na América Latina, trouxeram nos navios a cruz e a espada. Em nome da cruz da catequese, eles mataram à espada os indígenas que não aceitavam a fé. Nos outeiros, nos montes, por onde passavam, os portugueses fincavam cruzes para simbolizar a posse, a conquista da terra para Cristo, isto é, para o império. 

Também de Portugal veio o costume de colocar nas estradas, no local onde morria uma pessoa, uma cruz para defender a alma do falecido das garras Capeta, que poderia levá-la para o Inferno. E é dessa tradição é que vem o ditado popular: “quem me deve foge de mim, como o diabo foge da cruz”. Esse costume de erguer cruzes à beira dos caminhos também servia para lembrar o sofrimento de almas penadas e errantes, saídas do Purgatório procurando encontrar os viandantes para lhes transmitir mensagens do Além. 

Com o morro da Gurita, onde sendo construída a Cruz de Todos os Povos, não foi diferente. Por ele passaram, no século XVIII, bandeirantes, tropeiros, escravos e missionários. Nele uma cruz foi erguida, simbolizando que ali é um lugar de devoção e de presença de Cristo. 

Em pleno século XXI, erguer, novamente, nesse morro uma cruz, não mais de madeira, mas de ferro e aço, significa eternizar, na parede da memória, a cruz como sinal de união dos povos, respeitando as religiões e os vários modos de crer, não mais com a espada medieval. Significa acreditar que, desde o Centro-Oeste das Minas Gerais, da terra do Divino Espírito Santo, da Divina polis, da cidade de Divinópolis, que do seu traçado topográfico original em formato de uma pomba, a cruz do Divino alçará o voo do Espírito, que é originário da cruz do Pai, nas terras do Oriente, no Líbano, e que guiou o Filho até a morte de Cruz, símbolo de sofrimento de tantos povos, assim como os que vivem no México. Essa união encerra o triângulo equilátero de iguais medidas e de esperanças renovadas no Pai, no Filho e no Espírito Santo, nas terras de todos os povos.  

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[1] Doutor em Teologia Bíblica pela Faje (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apocrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ 

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