A Profecia de Dom Orlando Brandes

Por Hermes de Abreu Fernandes

É de conhecimento geral da Igreja no Brasil que na celebração de Nossa Senhora Aparecida ocorrida no dia 12, próximo passado, o Arcebispo da Igreja Particular de Aparecida, Dom Orlando Brandes, em sua homilia, exortou à Comunidade Católica, assim como a toda sociedade, a se voltar aos valores do Evangelho. Vivemos tempos obscuros. A homilia do arcebispo não poderia se furtar a eles. O anúncio do Evangelho deve ser sempre a partir da realidade em que vivemos. A Palavra de Deus deve transformar nossas vidas e, neste sentido, deve estar concomitante aos fatos que nos cercam.

Assistindo à supracitada homilia episcopal, nada podemos encontrar que fira aos axiomas primários da teologia, ou mesmo, ao Magistério da Igreja. O que percebemos é, como bem nos instrui seus Documentos, “a Igreja reivindica sempre a liberdade a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem” (cf. Gaudium et Spes, 76). Sob esta inspiração, certamente, se fundamentou toda palavra proferida por Dom Orlando. Pelo Bem Comum do Povo Brasileiro e fidelidade à Palavra de Deus. Esta que nos provoca à profecia, sempre que a Vida e os Valores do Evangelho se façam ameaçados.

A homilia de Dom Orlando Brandes foi lindamente profética. Não poderia ser diferente, advinda de pessoa com irrefutáveis valores humanos e evangélicos.

No dia 14 de outubro, na tribuna da ALSP, o Deputado Estadual Frederico D’Ávila, em total ausência de respeito humano, fez discurso odioso, onde atacava o referido Arcebispo de Aparecida, à CNBB e, (pasme-se!), ao Papa Francisco. Com palavras de baixo calão, acusações morais infundadas, feriu à dignidade não só do alvo de suas ignominias palavras, mas a toda Igreja. Como não poderia deixar de ser, a comoção foi geral. E é a este fato que se dedica nossa reflexão.

Vivemos tempos de divisão em nossa Igreja. É lamentável que assim o seja.

Algo que pudemos perceber desde o último pleito à Presidência da República, ou pouco antes, quando do impeachment de Dilma Roulsseff, foi a clara divisão da sociedade em dois blocos. Os que estavam ao lado da Direita e os que ainda permaneciam fiéis ao que se chama Esquerda Política. Este fenômeno histórico foi marcado pelas campanhas de ódio de ambas as partes. Não se restringindo às rodas de conversa política, estas campanhas chegaram às rodas eclesiais. E o Povo de Deus se fez dividido. Havia grupos que bradavam: “Fora, Dilma!”, enquanto se respondia em réplica: “Não vai haver golpe!”. Entre os que ideariamente querelavam, estavam os católicos. Esquecendo-se que nossa fé nos impele à comunhão, à partilha, ao bem-querer.

Dilma foi tirada do poder. O processo de impeachment resultou em sua saída. Assumiu Michel Temer. Mesmo com seu breve governo, este conseguiu – ainda mais – dividir a sociedade e, consequentemente, a Igreja. Havia os católicos a favor da Reforma da Previdência e os contra. Mesmo que a CNBB tivesse sua clara posição, cada católico se via como especialista em sociologia, economia, ciências políticas. E na rinha das redes sociais, as brigas se faziam cada vez mais fervorosas.

Com o fim do mandato de Temer por vir, a campanha eleitoral de 2018 foi marcada pelos que eram favoráveis ao “messias político” e os que queriam o PT de volta. Nunca tivemos uma eleição tão marcada por discursos de ódio. “Metralhar a Petralhada” era gritado aos brados. Entre estes que gritavam, também estavam católicos. Vivemos para ver católicos abandonando o sinal da Cruz, pelo sinal das armas.

Caminhamos para o último ano de governo de Jair Messias Bolsonaro. No saldo de seu governo, temos mais de 600 mil mortos por Covid-19, sucateamento da Educação, negociatas na saúde, entra-e-sai de ministros, filhos do presidente afrontando o poder judiciário, tentativa de manipular as polícias e, no balanço de atos de governo, nenhum projeto realizado. Um sequer para celebrar a história! A única coisa que Jair Bolsonaro deixou à história foi sua agressividade para com as críticas, seu deboche diante da morte de seu povo, sua incapacidade para a diplomacia e ausência total de autocrítica.  Enquanto isso, alguns católicos bradam: “mito, mito, mito!”

Veio o dia de Nossa Senhora Aparecida, em 2021. Como dissemos acima, a homilia de Dom Orlando Brandes trouxe estas e outras chagas de nossas sociedade. Não poderia deixar de ser. Os filhos choram às mães seus prantos. Ao colo da Mãe Aparecida foram colocados o luto e a nênia do povo brasileiro.

A agressão do Deputado Estadual Frederico D’Ávila foi sinal da chaga que sangrava em nossos corações e nos negávamos a aceitar. O caos em que vivemos foi traduzido nas palavras do supracitado deputado. Assim estavam a pensar nossa sociedade e alguns de nossa Igreja: “Ninguém que discorde de minhas ideias merece respeito.” Nem mesmo o Papa.

A agressão ao Papa Francisco fez sangrar nossos corações. Que mundo é esse em que vivemos, ou permitimos? Sim, permitimos! Os sinais de que as coisas não caminhavam bem já nos saltavam aos olhos. Negamo-nos a acreditar. Foi preciso uma homilia de nosso amado arcebispo de Aparecida para que fôssemos chamados à razão. Mais que o conteúdo das palavras de Dom Orlando, suas consequências, nos ensinaram. Impeliram-nos à conversão. Nossa desunião foi-nos jogada às faces. Nossa comunhão eclesial falha foi denunciada. Somos irmãos? Se o fôssemos, um presidente da república não abalaria nosso bem-querer, nosso bem-viver a fé.

Em reposta à lastimável desunião que nos enfraqueceu, a Igreja do Brasil se vê juntando seus pedaços. Conservadores e progressistas, juntos, empunhando uma mesma bandeira: a defesa do Papa, de Dom Orlando, da CNBB. Movimentos Católicos que eram vistos como aliados da Extrema Direita Política, foram às vias de se manifestar fiéis ao Papa Francisco, em comunhão com os bispos do Brasil. Poucos foram os que, sem razão, justificaram as agressões à Igreja. O que vimos foi a profecia de Isaías se cumprindo. Inimigos ideológicos de antes, partilhando o mesmo pão, a mesma história, a mesma vida (cf. Is 65,25). Sim, foi a atualização de uma profecia de mais de dois mil anos. Fora preciso que um arcebispo, por sua coragem, nos mostrasse. Que, mais que suas palavras, as consequências delas, nos lembrasse que somos todos Povo de Deus. Que uma só é nossa fé, um só o nosso batismo (cf. Ef 4,5).

Obrigado, Dom Orlando! O senhor foi ofendido, acharcado, humilhado. Seu sofrimento não foi em vão. Chamou-nos à realidade. Iluminou nossa treva interior. Sua profecia é maior que a denúncia social que fez. Ensinou-nos que somos cristãos e, como tal, precisamos voltar para a Casa. A Casa de Deus, a Comunidade dos Discípulos de Jesus, onde todos vivem em comum, dividindo a Palavra, o Pão e o Amor Fraterno (cf. At 2,42). Suas Palavras, pai querido, nos serviu de advertência: Somos a Igreja de Jesus e o único Reino ao qual servimos é ao Reino de Deus! Este, não se divide!

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Colaborou Karina Moreti – pesquisa e jornalismo

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