Judaísmo e Cristianismo – Parte 20: As Reformas de Esdras

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Apesar da prosperidade que teve na Pérsia [2], um homem foi comparado a Moisés no Talmud [3], que acreditava que o povo judeu devia reencontrar sua terra e seu Templo; seu nome? Esdras, o escriba.

Esdras



Enviado por Artaxerxes I, que lhe deu grandes poderes, Esdras chegou em Jerusalém em torno de 458 a. J. C, firmemente decidido em levantar o nível religioso dos seus correligionários. O livro de Esdras nas Sagradas Escrituras, nos descreve a situação do local na sua chegada: uma comunidade inexistente, uma economia em estado de desolação, e a religião mosaica tinha se tornado uma piedosa lembrança. E em 444 a. J. C., junto com Neemias, um notável judeu ligado ao serviço de Artaxerxes, Esdras leu, em pleno Ano Novo judaico, trechos da Torah, na presença de tradutores profissionais, pois os habitantes da Judéia não compreendiam mais o hebraico. Depois dessa cerimônia, os representantes do povo se comprometeram a cumprir os mandamentos divinos, sobretudo o Shabat, e a não mais se casarem com estrangeiras. Desse modo, fortalecido, Esdras pôde começar sua reforma.

A sociedade hebraica repousava sobre quatro poderes: a Monarquia, ou o espaço político, o Sinédrio ou o espaço legislativo, o Templo ou o espaço religioso e o Profetismo ou o espaço da memória[4]. Esdras optou por uma mudança no sistema. Ele recusa antes de tudo a monarquia. Tentou até uma espécie de aliança com Zorobabel, mas ela foi em vão. O Sinédrio mudou de nome e foi rebatizado de “A Grande Assembléia”. Em seguida Esdras descentraliza o espaço do culto. De fato, ao lado do Santuário de Jerusalém, a sinagoga, herança do judaísmo na Babilônia, reunia os fiéis pelo Shabat (Sábado) e pelas festas para a leitura da Torah traduzida e comentada pelos escribas[5].

Por esses feitos, as imagens do profeta e do sacerdote diminuem progressivamente para fazer aparecer a imagem do Sábio, ao ponto do Talmud afirmar alguns séculos mais tarde: “O Sábio é superior ao profeta”[6].

O povo começou a ser ensinado, as escolas voltaram a ser abertas em toda a região, os mestres atraíam mais e mais alunos. Esdras foi bem sucedido onde os profetas tinham falhado. Sem dúvida a nação tinha mais necessidade de uma atenção particular do que exortações severas. *

Se o princípio de uma tradição oral remontava a Moisés, com Esdras a interpretação se tornou uma instituição. Vejamos um texto introdutório ao tratado do Talmud chamado, Avoth, “Pais”:

“Moisés recebeu a Torah no Sinai e a transmitiu a Josué, Josué aos Anciãos, os Anciãos aos Profetas, os Profetas aos homens da Grande Assembleia. Esses últimos diziam: Sejam vigilantes no julgamento, formem numerosos discípulos, construam um muro em torno da Torah”.

Os mestres, portanto, não são simples elos de transmissão, eles tomam iniciativas para a perpetuação do judaísmo. A lei do Talião que era fonte de discussões e de erros estava definitivamente em ruptura do seu sentido óbvio, para ser substituída como restituição em prata. O Shabat entendido por alguns como um dia em que é proibido de sair de sua própria casa, se tornou o tempo onde se deveria ir ao ofício. A exigência de duas testemunhas tradicionais para confirmar qualquer ato civil ou religioso foi facilitado no caso, por exemplo, de um marido que tivesse desaparecido, por uma só testemunha que se pronunciasse como prova suficiente para liberar a mulher de seu laço conjugal.

Essa reforma, portanto trouxe também uma democratização do estudo. “Existem três coroas: a coroa do sacerdócio, a coroa da realeza, a coroa da Torah”[7].

Se as duas primeiras coroas eram uma herança exclusiva da Casa de Davi e da Casa de Judá, a terceira coroa oferece-se a todos os que desejam recebê-la. Essa revolução foi tão profunda, que ela permitiu ao judaísmo de sobreviver até aos nossos dias. Certamente, a Judéia era colônia da Pérsia, mas ele constituiu também um pequeno Estado onde o estudo e a prática religiosa traduziam um tamanho fervor que nem o profeta Elias ou o profeta Jeremias não chegaram a ter a felicidade de conhecer em suas épocas.

[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross, in: www.judaismoecristianismo.org.
[2] Cf. Wiggoder, Geofffrey. Galout. In: Dictionnaire Encyclopédique du Judaïsme. Paris: Robert Laffont, 1996. p.383.
[3] Tratado do Grande Tribunal – Sanhédrin 21a.
[4] Haddad, Philippe. Op. cit. p. 47.
[5] Essa leitura se fazia no espaço comum do local, nas segundas e quintas. Essa prática é conservada até hoje nas sinagogas.
[6] Tratado Última Porta – Baba Batra 12b.
[7] Tratado Avoth – Pais, Capítulo IV.

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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross

In https://www.judaismoecristianismo.org/

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