Judaísmo e Cristianismo – Parte 19: Partir ou Permanecer?

19 – Partir ou Permanecer?

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

A Religião Mosaica teria desaparecido como aconteceu dois séculos antes com as dez tribos do Norte. Todos os ingredientes de fato estavam reunidos para isso: os exilados tinham perdido contato com o hebraico e a prática regular dos ritos, os casamentos com estrangeiros eram muitíssimos; além de que o Templo, lugar de reunião três vezes ao ano, não podia ser construído fora de Jerusalém; somente alguns eruditos procurava manter a pequena chama acesa.

Mas como somente na história judaica acontece, outra série de acontecimentos permitiram novamente que nascesse o judaísmo, enquanto desaparecia o hebraísmo. Em primeiro lugar, a Babilônia foi vencida pela Pérsia. Ciro para mostrar o seu poderio autorizou os judeus a retornar para a sua terra ancestral (Edito de 538 a. J. C.). Esse gesto foi bem acolhido pelos profetas que falavam de Ciro como uma espécie de messias. O ungido do Eterno (Isaías, capítulo 45,1). Mais de 50 000 pessoas iniciaram o caminho de retorno com Zorobabel da Casa de Davi e o Sumo Sacerdote Josué. E debaixo das palavras encorajadoras dos últimos profetas Zacarias e Malaquias, o Templo, bem mais modesto que aquele primeiro de Salomão, ergue-se do chão, apesar da hostilidade dos Samaritanos, população instalada por Nabucodonosor e que sentia a sua independência diminuída. No entanto, apesar do edito real, nem todos os judeus deixaram a ex-Babilônia, mas somente os mais pobres, aqueles que na verdade não abandonavam nada e aqueles tinham mantido a fé no retorno, decidiram de recuperar a terra prometida.[1]

Entramos dentro de um dos aspectos essenciais da história judaica, que é a dialética entre Israel e Diáspora. Essa rejeição ao retorno escolhida mais ou menos de forma deliberada pela elite intelectual, religiosa e por boa parte dos judeus que tinham enriquecido na Babilônia, foi a origem dessa divisão, sem dúvida, para sempre irreversível. “O termo diáspora (galout em hebraico), vem da palavra grega diáspora (dispersão), significa toda região fora da terra de Israel, onde vivem os judeus, sem levar em conta como eles ali chegaram”[2]. Como poderíamos explicar essa atitude? O sentimento nacional tinha ido embora após uma ou duas gerações? Os sábios teriam ali encontrado na sinagoga e na casa de estudo da Torah uma forma de substituição ao culto em Jerusalém? Seriam essas as causas dessa ruptura?

Certamente o judaísmo da Pérsia era ainda frágil, mas havia aqueles que de boa fé estavam convencidos de permanecerem judeus fora agora da Judéia. Essa mesma atitude do judaísmo da Babilônia foi também assumido depois em ambientes piedosos desde o Século XVIII até aos nossos dias, de permanecerem fiéis à oração e ao estudo, quaisquer que fossem as mudanças sociológicas e culturais. Essa conduta de fidelidade religiosa, separada das aspirações nacionais, vai gerar, pouco a pouco, a nova concepção de um Messias milagroso, que como Moisés, produzirá grandes feitos para salvar Israel.

Na Babilônia, a noção de nação caminha silenciosamente em direção de uma comunidade. O poder persa se dá conta desse interesse econômico que ele poderia tirar proveito desse desenvolvimento comunitário no conjunto do seu reino e por isso incentivou os judeus a conservar suas instituições e o seu culto. Alguns ocuparam cargos importantes como Daniel que como José, se tornou um sábio conselheiro da corte. O texto de Ester é composto igualmente nesse mesmo período, e pode-se compreender então como a opulência desses judaítas “estrangeiros” pudesse suscitar o ciúme de altos dignitários como Amã.

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1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Grosswww.judaismoecristianismo.org

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