É Necessário Manter Viva a Esperança, o Amor e a Fé.

Por Glaudemir da Silva – AMMC

1Cor. 13,1-13 – Carta ao Amor

O Apostolo Paulo é um incansável mensageiro da esperança. Ao lermos suas epístolas, vamos nos deparar com mensagens repletas de esperança, fé e amor. Cabe- nos assumir essa proposta como um apelo de Deus para nossa vida!

“A mensagem cristã tem obrigação de ser uma mensagem de esperança, sobretudo para os pobres”. Claro, que anunciar a esperança, não é negar a realidade; mas mostrar que a esperança tem a última palavra no coração dos crentes.

Em momentos de crises, devemos nos refugiar na esperança. Em meio à desesperança dos oprimidos, Jesus chega como sinal de esperança. Por isso, ele é chamado de profeta da esperança e da misericórdia do Pai.

Só quem tem fé pode de acreditar na esperança, mesmo, em meio às desesperanças que vão surgindo durante a caminhada. Quando perdemos a esperança nas pessoas e na transformação da realidade (por mais difícil que seja); é sinal de que nos afastamos da essência cristã. Que é: Fé, Esperança e Amor/Caridade.

Não é possível ser seguidora, seguidor de Jesus de Nazaré, sem ter a esperança como base da nossa fé. Jesus em suas palavras e atos, sempre despertou a esperança do povo. Nós, temos tido esta mesma atitude?

A esperança nasce quando aprendemos a agir e reagir em meio às crises. Por isso, é que somos convidados e convidadas a fazer como Maria, que sabia guardar no coração todas as palavras de esperança transmitidas por seu filho (cf. Lc 2, 19.51); mesmo quando não as entendia.

Em meio a nossa crise pessoal e as crises sócias, políticas e religiosas que atravessamos, precisamos manter viva dentro do nosso coração a mensagem de Jesus (cf. Jo 16,33).

O medo que sentimos é algo normal; o anormal é permitirmos que ele abafe a esperança e mate a confiança em um mundo mais fraterno e humano. O teólogo espanhol, Antonio Pagola faz uma interessante reflexão sobre este tema. Vejamos:

Quando o nosso coração não está habitado por um amor forte
ou uma fé firme, facilmente a nossa vida fica à mercê dos nossos medos. Às vezes é o medo de perder prestígio,
segurança, conforto ou bem-estar o que nos trava de tomar as
decisões. Não nos atrevemos a arriscar a nossa posição social, o nosso dinheiro ou a nossa pequena felicidade… Não vemos
claro o nosso caminho. Não temos segurança em nada.
Talvez não confiemos em ninguém… Pelo contrário, é a fé em Deus que enche o seu coração de força para viver com mais generosidade e de forma mais arriscada. É a confiança viva no Pai que ajuda a superar covardias e medos para defender com mais audácia e liberdade o reino de Deus e a sua justiça. A fé não cria homens covardes, mas pessoas resolutas e audazes. Não fecha os crentes em si mesmos, mas abre-os mais à vida problemática e conflitiva de cada dia.
Não os envolve na preguiça e na comodidade, mas anima-os para o compromisso. Quando um crente escuta verdadeiramente no seu coração as palavras de Jesus: “Não tenham medo”, não se sente convidado a fugir de seus compromissos, mas alentado pela força de Deus a enfrentá- los. (Fonte: Instituto Humanitas, 23/06/2017).

A esperança é uma disposição interior, nós devemos alimentá-la por meio da intimidade com o Senhor (oração), e pelo contato constante com sua Palavra. Se ela não for alimentada morrerá!

A esperança é uma das três virtudes teologias, ao lado da fé e do amor. Esperança rima com confiança, termo que deriva da fé. Quem acredita, espera; e quem espera, acredita. Esperar é confiar. Na carta aos Romanos, Paulo deixa bem claro este ponto de vista (cf. Rm 5,1-11). A esperança cristã, não teme as coisas negativas, nem o fracasso. É uma esperança crucificada, que se abre à esperança da ressurreição (cf. Rm 8,24).
AMOR

Não há outra maneira de amar verdadeiramente a Deus, que não seja amando o próximo. O reino de Deus é a atuação de amor. Amor esse que tem por objeto o outro. O diferente, o oprimido, o rejeitado, o excluído, o pobre.

Paulo radicalizar essa proposta de amor ao outro, quando na sua carta ele afirma:

“Mesmo que eu fale a língua dos homens e a dos anjos, mas, se não tivesse amor; eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine” (cf, 1o Cor, 13,1).

Há uma só maneira de amar a Deus que é amando ao próximo. Amar é dar vida, ou, pelo menos ajudar a ter mais vida, já que Deus é o único Senhor e Criador. Amar é fazer com que o outro que não é visto seja; que aquele que estava rejeitado seja acolhido; aquele que estava excluído seja incluído. Permita-me citar aqui um exemplo: Pe. Júlio Lancellotti, em sua profética missão é um testemunho para todos nós que desejamos viver esse amor na esperança, sem desesperar. O amor se concretiza na doação da própria vida! Isso, ele tem feito muito bem! Servi como inspiração para nós cristãos e cristãs!

O hino ao amor leva-nos a fazer uma boa avaliação quanto a nossa capacidade de amar. Essa provocação vem como questionamento em relação as nossas “boas obras”. “Se eu gastasse todos os meus bens no sustendo dos pobres e até entregasse meu corpo para me gloriar, mas, se não tiver amor, de nada me adiantaria” (cf. 1o Cor, 13,3).

O amor é dom de Deus, e esse dom é oferecido a todos. Nem todos o aceitam porque muitos têm medo. Têm medo de perder a sua vida dando vida a outros. Certa vez Jesus disse: “Quem ama a sua vida, perde-a; mas quem se desapega de sua vida neste mundo, há de guardá-la para a vida eterna” (cf. Jo 12,25).
A Esperança

Para o saudoso teólogo José Comblin, “a esperança será a força que animará os discípulos na sua missão de fazer um mundo diferente. Ele também afirma que seria uma ilusão crer que a esperança é espontânea no ser humano. Espontâneos são os desejos, os sonhos, as projeções tecnológicas, não, a esperança”. Podemos dizer que esta terá que ser cultivada. Uma forma de cultivar a esperança é o contato com os mais pobres e excluídos, excluídas da sociedade. Por quê? Porque elas, eles são os verdadeiros portadores da esperança. Aliás, vivem da esperança depositada em Deus.

Outro caminho, para alimentar a esperança é a oração. A verdadeira oração nos encaminha para uma fé adulta, uma esperança viva real e teologal.

“A esperança não é desejar; é obedecer aos caminhos de Deus”. Muitas de nossas ansiedades têm seu início, exatamente, em não sabermos esperar os planos de Deus em nossa vida. Esperar com esperança é próprio de quem se faz pequeno diante da grandeza e amorosidade de nosso Deus.

Diz um poeta nordestino:

Se avexe não. Amanha pode acontecer tudo, inclusive nada. Se avexe não. A lagarta rasteja até o dia em que cria asas. Se avexe não. Que a burrinha da felicidade nunca se atrasa. Se avexe não. Amanhã ela para na porta da sua casa. Se avexe não. Toda caminhada começa no primeiro passo. A natureza não tem pressa segue seu compasso. Inexoravelmente chega lá. Se avexe não. Observe quem vai subindo a ladeira. Seja princesa, ou seja, lavadeira. Para ir mais alto, vai ter que suar. (ACIOLY NETO, 2007):


Esta canção popular, com sua bela poesia, retrata bem o que é esperança para opovo dos pobres. Eles esperam a cada dia, sem jamais desesperar. A fé exige exatamente isto de nós: que tenhamos uma espera esperançosa. Ansiedade e fé não têm como caminharem juntas! A esperança é paciente. Ela vai aprendendo que as mudanças são lentas, parciais, localizadas. O reino de Deus começa em realizações pequenas, em tímidas conquistas em singelas transformações.

Os pobres fazem a experiência de se alegrar com as pequenas coisas e conquistas de cada dia. Vou aqui relatar um fato que presenciei: fui a uma pequena, loja dessas que vendem de tudo (própria das periferias). Fui comprar uma máscara. Lá também estava comprando máscaras uma família bem humilde. O que chamou a minha atenção foi à festa que esse povo fez, ao colocar as máscaras no rosto das crianças. Podemos nos perguntar: como pode se alegrar com tão pouco? Os pobres são nossos mestres, que sabem fazer da vida, (mesmo em meio à dor), uma festa repleta de esperança! Oxalá que um dia, nós consigamos alcançar essa serenidade de espírito que é própria dos prediletos e prediletas do Pai!

Para puder manter a esperança, precisamos fixar o olhar em Jesus Cristo de Nazaré. É ele quem sustenta nossa esperança, (por muitas vezes fraca). Não estou aqui me referindo ao ir à missão ou a qualquer outra experiência de culto religioso. Afinal de contas, nesses tempos de pandemia, descobrimos que somos capazes de vivenciar nossa fé numa relação mais pessoal com o Senhor, sem ser através dos cultos e sacramentos. Embora não falte quem acredite na mágica dos sacramentos virtuais.

Ora, o amor que conservamos em nosso coração, só pode resistir às crises existenciais se for alimentado pela esperança. Vejamos o que diz Comblin:

O suporte do amor é a esperança. Se alguém entra no caminho de Jesus, porque é o caminho do amor, é porque tem uma imensa esperança. Tem a esperança de que o mundo atual pode mudar. Tem a esperança de que Deus o está mudando. Tem a esperança de que a ação dos pobres pode mudar a realidade de cada dia, apesar da incredulidade e do desespero das multidões. Espera contra toda esperança. (COMBLIN, 2004, p. 95-96).

A esperança é fruto da ação do Espírito Santo que age na vida de cada pessoa que se permite guiar por Ele. Que sejamos essas pessoas abertas à ação do Espírito! “Eis o mistério da Fé”. É sobre isto que falaremos agora.

A Fé


O que significa ter fé? A fé é a expressão de um encontro com Deus que envolve toda a vida: o sentimento, o coração, a inteligência e a vontade. Comblin no seu livro ‘O Caminho’, diz que primeiramente é preciso ter uma experiência com Deus. Somente depois vem à fé. A fé não é em primeiro lugar uma adesão a uma doutrina. A fé só tem sentido e é verdadeira quando significa resposta à experiência de Deus, feita pessoalmente e comunitariamente.

Ensinava-se que a fé consiste em acreditar em toda a doutrina proposta pelo magistério eclesiástico. Insistia-se muito no caráter misterioso da fé.

Para Comblin, a fé tem a seguinte definição:


A fé era justamente crer no inacreditável. Já faz tempo que os teólogos

procuraram mudar essa longa prática catequética. A fé não é ato intelectual. A fé consiste em entregar a vida a Jesus. Ele proclama uma nova vida, um novo mundo e convida a trabalhar com ele nessa tarefa. A fé consiste em nos entregar a Jesus sem saber por onde passará o caminho pelo qual nos conduz. É ato de confiança e ato que compromete a vida toda. Pois, a fé é entrar num caminho novo, desconhecido. A fé abre novos horizontes para a vida. Não é um sacrifício: é um imenso benefício. (COMBLIN, 2004, p.86)

Ainda analisando a reflexão de Comblin, sobre este mesmo tema. Vejamos o que ele diz: “Ter fé em Jesus não é rende-lhe um culto. Ter fé em Jesus é entrar no seu caminho e perseverar”. Quem persevera no caminho de Jesus torna-se sensível ao clamor dos oprimidos, dos prediletos do Pai. O culto, nem sempre revela fé!

A fé é a porta de entrada na esperança, pois é com ela que o ser humano entra realmente na vida. Quem conserva a fé no seu coração, experimenta a esperança como resposta as suas dúvidas e questionamentos a respeito daquilo que foge do nosso controle.

Em uma das suas belas canções, Zélia Duncan, diz: “Nosso amor dormiu, mas acordou feliz”. Tem sentido esta afirmação; porque o amor verdadeiro nunca se acaba. Ele pode até adormecer, mas, acorda. Não importa o tempo que durma; certo é que ele acordará mais apaixonado e real do que nunca. Esse é o amor de Deus para conosco.

Quem não se lembra do episódio do mar bravo, quando os discípulos imaginaram que o Mestre dormia enquanto eles estavam à mercê da própria sorte? Os Evangelhos sinóticos narram com muita precisão essa passagem. (cf. Mt 8,23-27; Mc 4,35-40; Lc 8,22-25). A pergunta de Jesus é a mesma em todos os três Evangelhos:

“Por que vocês são tão francos na fé?” Que assumamos para nós esse questionamento de Jesus. E permitamos que o Espírito transforme nosso medo em Esperança, em Fé, em Amor e Compromisso com a causa do Reino de Deus e sua Justiça!

Para ajudar a refletir:

Para mim o que é ter esperança?
Em quem, ou em que coloco a minha esperança?
Como compreender a presença do Amor em um mundo tão dividido? Tenho feito experiências de amor fraterno? Onde? Como?

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Referencias:

COMBLIN, José. O Caminho – Ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus, 2004.
BÍBLIA SAGRADA – Tradução Oficial da CNBB – 2a Ed.- 2019.
DUNCAN, Zélia. Dormiu, Mas, Acordou 2015.

NETO, Cavalcante, Accioly, José. A Natureza das Coisas: Elba Ramalho. Qual o assunto que mais lhe interessa? (Ramax), 2007, faixa 6.
PAGOLA, Antônio, José. Os nossos medos. Disponível em https://cebi.org.br/noticias/os-nossos-medos-jose-antonio-pagola/Acessado em: 07/05/2020.

In: Teologia Nordeste

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