Judaísmo e Cristianismo – Parte 18: O Messianismo

18 – O Messianismo

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Através da expressão ‘messianismo’, com o sufixo ‘ismo’, de modernidade, se articula uma visão grandiosa, uma visão grandiosa e que parece ter sido uma das maiores criações do profetismo. Por que afinal lutar pela justiça? Por que ter que lutar contra os cultos sanguinários? Para construir um mundo melhor. Essa realidade de uma humanidade reunida na fé de Abraão, na lei de Moisés, seria o melhor atributo que se poderia dar aos profetas.  Essa utopia foi antes de tudo, de não esquecer a independência de Israel sobre sua terra, independência política e econômica, tudo isso porque o Messias (machiah = ungido) era o grande pai e o grande rei. A função do messias não seria de transfigurar a realidade, mas de manter ou de restaurar a soberania de Israel sobre a sua terra, a fim de que Israel cumprisse a sua vocação sacerdotal.

No fundo será que o vai expressar Maimônides, esse grande mestre do Século XII. Alguns séculos antes, rabbi Akiba apoiou a revolta de Bar Kohba contra Roma (em torno de 135 depois de Jesus Cristo – d. J. C.) não porque este apresentasse grandes sinais de piedade, mas porque ele combatia pela independência nacional. Podemos até adiantar que foi o que também pode ser creditado a Jesus aos olhos de seus contemporâneos, que foi o seu nacionalismo. E também podemos compreender o que a maioria do povo judeu em nossos dias percebeu intuitivamente em relação ao sionismo como uma forma de messianismo sem messias.

Nesse sentido a felicidade era para os profetas uma felicidade terrestre, nunca descrita por eles como as felicidades eternas, para um além-distante. A humanidade realizada era um mundo normal, um mundo tal como as crianças poderiam sonhar. Numa famosa visão o profeta Zacarias (capítulo 7 do livro de Zacarias) descreve a futura Jerusalém reconstruída: os idosos sentados, as crianças brincando, a justiça e a paz reinando serenamente em seus muros. Essa visão relembra à própria experiência humana, revelando as esperanças naturais de uma velhice bela e de uma honrosa descendência.

Na verdade, no plano de uma fé pura, essa relação bem mais parece as grandes utopias que podem existir, parecem fazer crer num paraíso celeste. Mas incentivar uma felicidade em outra dimensão, não seria já desesperar do homem criado à imagem de Deus? Não parece anunciar que o projeto divino falhou? Os profetas anunciam a fé num Deus otimista em sua própria criação, otimista com relação à humanidade, aqui embaixo, na História, o sucesso é possível. Apesar da violência, apesar das guerras, apesar das loucuras bárbaras, a verdade germinará um dia na terra. O judaísmo autêntico nunca se afastou dessa visão, mesmo se a religião popular tivesse necessidade de um inferno e de um paraíso. Finalmente, essa religião “encarnada” dos profetas foi altamente espiritual. Ela se opunha à fatalidade e ao acaso, ela exigia continuamente e incansavelmente uma vigilância permanente, e o esforço heroico do cumprimento das virtudes.

O sucesso de Israel  seria a humanidade toda convocada a viver esses “últimos dias” na paz e na igualdade. A religião universal se expressaria, por exemplo, na proposta de Isaías (capítulo 11,9) que diz: “a terra será cheia do conhecimento do Eterno, como o fundo do mar pelas águas que o recobrem”. Iluminados por esse espírito de justiça, os povos compreenderão então os sofrimentos que passou Israel, comparado ao Servo Sofredor (Isaías capítulo 40). “Depois de tudo isso, derramarei o meu espírito sobre todos os viventes, E então, todos os vossos filhos e filhas falarão como profetas” (Profeta Joel 3,1). A violência desaparecerá da terra e o lobo dormirá com o cordeiro (Cf. Isaías capítulo 51,6). Enfim, os conflitos entre as gerações de pais e filhos, entre os antigos e os modernos, tudo será resolvido pela vinda de Elias, que anunciará o grande e memorável dia, “o dia do Eterno!” (Profeta Malaquias, capítulo 3,23).

O Messias é uma personagem emblemática para os profetas? Sim, o Messias permanecia sendo um homem de carne e de sangue, um descendente de Davi, uma “semente” (Profeta Zacarias 3,8). Mas segundo a leitura conjunta dos profetas, sua figura permanece secundária dentro da realidade de uma humanidade transfigurada. O verdadeiro sucesso da História se dá na capacidade das pessoas assumirem a fraternidade, que condiciona então a vinda do broto de Davi.

Utopia sim dizíamos antes! É preciso acreditar para além das dificuldades do presente, no Deus Criador do ser humano, que a imagem divina colocada na criação triunfará sobre o mal. É preciso crer que a vida será mais que a morte e que a sabedoria se imporá sobre a loucura. Para os profetas a confiança em Deus estava sempre andando junto com a confiança no ser humano, pois significam para o Hebreu as duas vertentes da mesma fé. As promessas não eram sonhos de crianças, mas um mundo visto como uma escada da esperança do próprio Deus. Tal foi a mensagem desses homens de Deus transmitida à humanidade, antes do exílio das pessoas, e “do exílio da Palavra”.

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1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross, www.judaismoecristianismo.org

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