Judaísmo e Cristianismo – Parte 16: O Fanatismo

17 – O Fanatismo

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Por vezes os profetas são apresentados como homens fanáticos ou místicos iluminados, que usavam meios estranhos e chocantes para ir de encontro aos seus contemporâneos. Os profetas viveram num mundo onde a violência era uma herança da sociedade antiga. As guerras, as conquistas, o espírito de vingança, as intrigas da corte, tudo isso era uma realidade permanente. E eles não podiam estar isentos disso tudo.

Para eles os sacrifícios de centenas de crianças inocentes oferecidas com grande pompa ao deus Molok, ou nos lugares altos ao deus Baal, ou a prostituição sagrada, desviavam o povo da sua antiga fé, não eram somente uma infidelidade ao Deus de Israel. Tudo isso era também uma abominação, e consequentemente, a causa do declínio moral do povo.

Os profetas teriam proposto então uma fuga junto com algumas pessoas iniciadas, como mais tarde apareceram os Essênios. Tratava-se de salvar a mensagem de Abraão, salvar o projeto de Deus, salvar a utopia de Deus que tinha olhado para a coletividade de Israel para através de um povo tornar-se conhecido aos olhos das outras nações. Por isso, parece-nos pouco apresentar os profetas como homens místicos somente, fugitivos das cidades com as suas depravações, mesmo sentindo as dores do mundo. Foram mais do que gurus que desviavam a juventude dos seus deveres de cidadãos.

Os profetas viveram no centro da cidade, testemunhas vigilantes e homens engajados. Certamente, eles queriam viver uma existência conforme a Torah para aprimorar seu espírito, e poder assim compreender melhor o fluxo da palavra divina, mas dificilmente a tradição escrita poderia conseguir traduzir todo o caminho espiritual percorrido por eles. Cita somente alguns textos, oráculos, ações muitas vezes duras, concretas, realistas, mas que não revelam muito sobre a essência de Deus. Na verdade, suas palavras lembravam sem cessar a responsabilidade do ser humano diante da edificação de uma sociedade fundada sobre a justiça, a verdade e a paz. Deste ponto de vista a sua mensagem permanece ainda hoje com uma atualidade fortíssima.

É preciso reconhecer que a visão que eles apresentaram de Deus é a de punição (profeta Naum) ou de discussões, mas era a sua maneira de tentar acordar as consciências adormecidas, era a sua pedagogia quando percebiam que o povo se desinteressava da sua vocação. Mas logo após eles sabiam igualmente revelar o Deus de amor, o Deus misericordioso, de entranhas maternais, o Deus que iria muitíssimo longe implorar a seu povo, como um Pai entristecido em ver seu filho abandoná-lo (Profeta Oséias). Falarão eles sempre desse refrão: “o do amor de Deus para com o seu povo, que vive através de períodos de fidelidade, simbolizado pelo deserto, e as traições de Israel que se voltam para os falsos deuses”.

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1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Grosswww.judaismoecristianismo.org

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