Comentário da Liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum

 “Pois reta é a palavra do Senhor, e tudo o que ele faz merece fé. Deus ama o direito e a justiça, transborda em toda a terra a sua graça.” (Sl 32)

Por Karina Moreti

Estamos celebrando o 29º Domingo do Tempo Comum. Neste Domingo, o tema central da Liturgia da Palavra é quem se faz maior no Reino de Deus. Nós já temos de memória a certeza de que a teologia de Marcos prima pelo serviço e pela vida em comunidade. Por vária vezes, podemos verificar que os mais importantes discursos de Jesus se dão enquanto ele estava “em casa”. Isso vem nos significar a primazia da importância da comunidade. Em outros momentos, percebemos que Jesus afirma ser no serviço que se faz a verdadeira vivência do caminhar cristão. Vem ele mesmo dizer, que veio para servir (cf. Mc 10,45). É nesta linha de pensamento que se enquadra o Evangelho de hoje.

Como não poderia deixar de ser, a Liturgia da Igreja organiza seus textos (primeira e segunda leituras), de forma que estas dialoguem entre si. Por isso, quer a primeira leitura do Profeta Isaías, quer a Carta aos Hebreus, vêm reforçar a mensagem evangélica que nos apresenta Marcos. Para bem nos alimentar da Palavra que nos é apresentada, vamos ver texto por texto, inferindo o cerne de sua mensagem. Importa que já saibamos qual a chave de leitura que devemos usar hoje. Ao discípulo de Jesus deve ser ausente qualquer busca de poder. O verdadeiro discipulado se faz pelo serviço ao próximo, pela vivência da humildade, por uma construção de fraternidade universal.

I Leitura: Is 53,10-11

Os dois versículos do capítulo 53 de Isaías que nos são apresentados hoje, trazem a figura do servo – possível personificação do Messias que haveria de vir – como aquele que vivenciaria profundos sofrimentos, para bem cumprir sua missão. “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor” (v. 10). Se entendermos que este versículo se refere a vinda do Messias e à forma pela qual ele irá redimir a humanidade, podemos entender que assim devem ser seus discípulos. Cabe ao discipulado o seguimento do mestre em seu caminho. Se devia o servo ser macerado de sofrimentos, oferecendo sua vida pela humanidade, assim deve viver o discípulo de Jesus: buscando sempre o último lugar, por vezes cheio de sofrimentos, pelo bem de todos. Não seria nas pedagogias de poder que se encerra o sentido pleno da vivência evangélica, mas na construção de uma Igreja a serviço dos pequenos, mesmo que – para isso – seja preciso o sofrimento daquele que se dispõe a servir. E é por isso que o versículo 11 vem enlaçar esta afirmação de que cabe ao servo de Deus buscar o despojamento de toda glória humana, oferecendo-se como vítima em prol daqueles que sofrem. Podemos ver: “Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas” (v. 11). Aqui fica-nos clara a profecia sobre Jesus, o Messias dos Pobres, que deveria ser oferecido em sacrifício de nossas dores. Por seu sofrimento, irá reconciliar a humanidade com o Pai. Não se trata de masoquismo mero e puro, mas de abnegação. Pelo sangue do Cordeiro, todo sangue será justificado. Seremos, a humanidade toda, transcendidos da condição de criatura, à condição de Filho de Deus, pois – o próprio Filho – nos dignificou a essa filiação por seu sangue.

II Leitura: Hb  4,14-16

Na Segunda Leitura, o autor da Carta aos Hebreus vem nos confirmar no ensinamento da Profecia de Isaías e da perícope evangélica que temos hoje. Referindo-se a Jesus como Sumo Sacerdote Verdadeiro, lembra-lhe como aquele que pôde compadecer-se de nossa pequenez, de nossas fraquezas (v. 15). Em seguida, no v. 16, a Carta aos Hebreus nos exorta a aproximarmo-nos do Trono da Graça, seguindo os passos de Jesus, o Sacerdote Verdadeiro. Este sacerdócio de Jesus, na condição de Ministro e Sacrifício, nos impele ao serviço ao outro. Jesus se fez sacerdote e oferenda para nos impelir ao caminho ministerial verdadeiro. É no serviço que se justifica o ser cristão. Tanto mais nos aproximamos do Trono da Graça, quanto mais nos colocamos na condição de servos, consagrando-nos na construção da Vida, em sua plenitude, de nossos irmãos e irmãs.

Evangelho: Mc 10,35-45

No Evangelho de hoje, os filhos de Zebedeu, Tiago e João, vêm fazer um pedido um tanto estranho para Jesus. Podemos dizer estranho, pois – dado o tempo em que o acompanhavam e bebiam de seus ensinamentos – pedir por posições privilegiadas no Reino, poderia significar que não compreenderam nada do que a mensagem de Jesus encerra em si. Será isso? Vejamos!

O contexto do Evangelho de hoje continua a ser o caminho de Jesus com seus discípulos para Jerusalém. Mais do que mero deslocamento físico, esse caminho é um itinerário teológico e catequético, no qual Jesus instrui seus discípulos, com maior clareza, sobre sua identidade e sobre as exigências que seu seguimento comporta. Paradoxalmente, é no caminho que os discípulos demonstram maior incompreensão e resistência ao que Jesus ensina.

A perícope evangélica de hoje é a sequência imediata do terceiro anúncio da paixão (Mc 10,32-34). Trata-se do absurdo pedido dos discípulos irmãos, Tiago e João, para ocuparem os primeiros lugares na glória: um à direita e outro à esquerda de Jesus, numa demonstração clara de ambição e sede de poder (v. 35-37). Esse é um episódio bastante polêmico e comprometedor para a imagem dos primeiros discípulos, registrado dessa maneira somente por um evangelista tão realista como Marcos. Por isso, Lucas preferiu omiti-lo, e Mateus o modificou, apresentando a mãe dos discípulos como a autora do pedido (Mt 20,20-23). Chamados de “filhos do trovão” (Mc 3,17), em alusão ao seu comportamento intolerante e ambicioso, Tiago e João, junto com Pedro, são os discípulos mais evidenciados nos Evangelhos sinóticos, não pelos méritos, mas pelas contradições. Além da ambição, o pedido revela a visão equivocada da messianidade de Jesus. Os discípulos não aceitavam um Messias sofredor; continuavam a alimentar as expectativas por um Messias glorioso e potente, conforme as tradições de Israel.

Os discípulos demostram não entender bem o cerne da mensagem de Jesus, do projeto do Reino. Diante da incompreensão dos discípulos, Jesus aprofunda a catequese. Primeiro, denuncia a ignorância deles (v. 38a); em seguida, provoca-os sobre a disposição de compartilhar a vida, sintetizada pelas imagens do cálice e do batismo (v. 38bc): o batismo alude ao início da missão (Mc 1,8-11), enquanto o cálice antecipa a paixão (Mc 14,23.36). Isso quer dizer que ser discípulo(a) de Jesus exige conformar-se à sua vida em tudo, incluindo a capacidade de dar a vida. A resposta dos discípulos é positiva, mas não suficiente para garantir o que desejam (v. 39-40). A disposição para abraçar o seguimento de Jesus e assumir suas consequências não pode estar atrelada à obtenção de recompensas. O arranjo dos lugares na glória futura é um dom gratuito do Pai, e não conquista pessoal.

Não podemos nos deixar confundir por sentimentos contrários ao projeto do Reino de Deus. A ambição gera rivalidades, causando a divisão da comunidade (v. 41). Na medida em que os projetos individuais são evidenciados, a unidade é quebrada. Por isso, Jesus convoca uma reunião para mostrar seu projeto com maior clareza ainda, procurando deixar claro o quanto este é diferente de qualquer projeto humano de poder (v. 42). Tendo negligenciado os três anúncios da paixão, os discípulos tinham como parâmetro os modelos vigentes de poder, marcados pelo domínio e pela tirania, o que é incompatível com o seguimento de Jesus. Por isso, ele apresenta o modelo a ser seguido pela comunidade dos seus seguidores: o serviço. É necessário passar de um modelo baseado na imposição para novo paradigma, baseado no serviço, tendo em vista a igualdade e o bem de todos (v. 43-44).

Para a comunidade cristã, o exemplo de Jesus deve ser o caminho a se galgar. O referencial não pode ser outro senão o próprio Jesus, o Filho do Homem, que veio para servir e dar a vida em resgate de muitos (v. 45). Ele próprio é o exemplo de que a autoridade autêntica deve ser exercida por meio do serviço incondicional, contemplando a capacidade de dar a própria vida. Qualquer tentativa ou experiência na comunidade que tenham como parâmetro “os reinos deste mundo” fazem essa comunidade deixar de ser cristã.

Caminhando na Estrada de Jesus

Aplicando os ensinamentos da Liturgia da Palavra de hoje, devemos – enquanto Igreja de Jesus – primar por uma Igreja verdadeiramente comprometida com o serviço. Em nossas relações eclesiais não pode haver lugar para pedagogias de poder e os vícios que estas encerram. Sejamos pobres e livres, ternos e fraternos; construindo a Casa Comum, como bem nos exorta o Papa Francisco: uma Igreja pobre com os pobres, e em saída.

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