Judaísmo e Cristianismo – Parte 15: Os primeiros Comentadores

15 – Os primeiros Comentadores

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Os profetas também foram os primeiros comentadores da Torah (Cinco primeiros livros da Bíblia). Eles não inovaram em nada no campo dos ritos. Moisés já tinha previsto tudo. E era impensável acrescentar ou retirar o que fosse. Em compensação, eles ofereceram sim um sentido ao rito. Com certeza, todos os mandamentos das cerimônias tinham por função lembrar a saída do Egito, a revelação do Sinai e a proteção milagrosa durante os quarenta anos do deserto. Num sentido mais amplo, o rito devia sim fazer lembrar a consciência religiosa, mas os profetas lembravam sempre que Deus esperava muito mais do que um simples gesto sem alma.

Israel devia, antes de tudo estar sempre à altura do seu nascimento milagroso. Por causa da libertação do país do Egito, ele perdeu seus direitos em dispor livremente de seu destino de agora em diante e devia sempre reconhecer e se submeter aos deveres morais claríssimos que tinham sua origem na vontade suprema do Criador-Libertador. Essa liberdade implicava uma submissão total à lei justa revelada. E isto porque, se o rito não levasse a um engajamento político, se a relação vertical com Deus não favorecia a horizontalidade melhor nas relações humanas, não teria valor algum. Pior ainda, isso seria detestável aos olhos do Altíssimo. Seria muito bom lermos o capítulo 58 do livro do Profeta Isaías para quem o dia do Perdão (Kippour) não tem sentido algum se não conduzir ao serviço do pobre. Em outras palavras, moral e religião eram inseparáveis.

Como o paganismo era marcado pela adoração das forças da natureza e portanto, dos instintos (sexual ou de dominação), os profetas insistiam muito num Deus que tinha criado a natureza, lembrando sempre que o seu culto estava ligado à prática da caridade e da justiça. Firmes nessa concepção esses homens inspirados não poderiam se calar diante da injustiça, da maldade ou da exploração das classes desfavorecidas, mesmo sendo espancados, aprisionados ou mesmo executados. “O Deus Santo é santificado pela justiça” proclama Isaías (Is 5,16), versículo esse retomado mais tarde na liturgia para a celebração do Ano Novo na Sinagoga. Essa concepção de “santidade” era original. A santidade não era mais vista como uma rejeição do mundo, mas um aprimoramento belo do mesmo através de uma conduta ética.[

Podemos até pensar que tais expressões pudessem chocar os que naquela época de Isaías adoravam outros ídolos. De fato para eles, se a natureza era divina, se o instinto cego era traduzido como vontade dos deuses, então seria mais do que “normal” com todas as suas consequências expressar o serviço das divindades através do sacrifício de bebês, a devassidão sexual, tudo seria assim “justificado”!

Mas não, esses homens anunciavam, a quem quisesse escutar, que a natureza devia ser gerada, que o instinto devia ser canalizado, não para anulá-lo, mas para que fosse verdadeiramente colocado a serviço do ser humano.

E a partir do momento onde Deus o Criador dos céus e da terra exigia a justiça, essa exigência não poderia conhecer limites de fronteiras, e devia se estender a todas as famílias da terra, em todos os lugares e em todos os tempos. O “Procurai a justiça, protegei o pobre, defendei o direito do órfão e da viúva” (Isaías 1,17), ou o “Libertai o oprimido do jugo do opressor” (Jeremias 21,12) não se dirigiam somente ao povo de Israel. Para os profetas, o sofrimento era o sofrimento para todos, a injustiça era a injustiça para todos, e a caridade era a caridade para todos. Quando o Eterno Senhor se dirige ao profeta Jonas (Jn 1,2), o manda ir profetizar em Nínive, capital da Assíria, portanto, para profetizar para inimigos declarados de Israel. Ele justifica essa missão pelo fato que a maldade tinha alcançado seu ponto máximo. E quando Deus perdoa, Ele o faz não porque seus habitantes se converteram ao judaísmo, mas muito mais porque eles tinham melhorado a sua conduta, abandonando a violência e o roubo.

Os profetas sabiam que o mundo criado por Deus não era perfeito, que a riqueza, a Inteligência, a força não eram repartidas de modo igual, e que esse desequilíbrio era a verdadeira fonte dos conflitos, da exploração dos mais frágeis. Eles não desanimavam, nem desistiam, pelo contrário, o mundo imperfeito era diante dos seus olhos sempre capaz de se tornar melhor, perfeito. Os profetas, por fim, irão “sempre recordar a Israel, sem cessar, a beleza da aliança, bem como suas exigências”.

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1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Grosswww.judaismoecristianismo.org

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