Judaísmo e Cristianismo – Partes 13 e 14: Introdução sobre o Profetismo

13 – Introdução ao Profetismo

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Não é possível compreender o pensamento hebraico, sem compreender o profetismo. Esta realidade se encontra nesse fundamento: Deus fala aos homens. Para aquele que crê, esse fenômeno universal aconteceu num período de dois mil anos antes de se extinguir por completo com a destruição do Templo de Salomão. Portanto, os povos em geral e Israel em particular, foram inspirados por uma Palavra em referência a uma transcendência.

Os profetas, os videntes e outros adivinhos ocupavam o centro da vida pública, política e social. Esses homens teciam a existência das pessoas oferecendo um sentido para as suas vidas. Isso muitas vezes para o pensamento moderno parecem mitos ou lendas, algo hermético, fechado, incompreensível. Com certeza, numa época onde os religiosos englobavam a totalidade dos espíritos e onde a ciência ainda estava no estado de engatinhar, era difícil separar o que era da ordem da razão e o que era do campo afetivo, mas fingir que isso não existia, seria falsear a compreensão da época.

Quem eram esses homens inspirados, mencionados na Bíblia um pouco mais em número de vinte pessoas? E que papel exerceram eles em Israel? E em que consistia a sua proposta?


14 – Os homens da memória

Mesmo que o Talmud[ considere os Juízes (entre a morte de Josué até Samuel) como os primeiros profetas, pode-se dizer também que essa função entrou em plena atividade mesmo no momento em que a monarquia foi proclamada em Israel, isto quer dizer a partir da época de Samuel. Com certeza, também Abraão foi reconhecido como profeta (Gn 17,5). Miriam, a irmã de Moisés também foi (Ex 15,20). E Moisés, sem dúvida, foi o maior deles (Livro do Deuteronômio – Dt 34,10), mas nesse período ainda Israel não tinha ainda nascido, ou ao menos não tinha terminado a sua gestação. Ele possuía a Lei, mas não a terra para concretizar a sua missão.

Com a proclamação do Reino de Davi, seguido depois do cisma de Jeroboão, os profetas se tornaram os conselheiros dos soberanos, os sábios que possuíam uma visão pais esclarecida e iluminada da História. Eles se opunham sempre contra os abusos de poder seja dos reis, dos juízes, dos sacerdotes, ou contra o povo mesmo quando cometiam atos imorais. Era o profeta como uma Atalaia, uma Sentinela, sempre atento.

É importante sublinharmos essa característica própria do profetismo hebraico. Os profetas não eram adivinhos ou fazedores de milagres (taumaturgos), mesmo que homens como Elias e Eliseu tivessem utilizado milagres para apoiarem seus discursos. E mesmo quando eles anunciavam as catástrofes que estavam por acontecer imediatamente ou nos finais dos tempos, os profetas eram sempre considerados os homens da memória, da fidelidade à Aliança do Sinai, que lembravam sem trégua a Israel a sua vocação sacerdotal: “Vocês são as minhas testemunhas, oráculo do Eterno” (Is 63,10). Para os profetas essa vocação sacerdotal devia se expressar numa fé inquebrantável em Deus, Criador dos céus e da terra, o Pai da humanidade inteira. Essa fé não era ingênua nem passiva, mas devia se traduzir na prática dos mandamentos, das mitsvot (preceitos) no respeito à ética de Abraão. As nações também eram contempladas por eles, por causa da justiça, da verdade e da paz, que são valores universais e não um projeto exclusivo de Israel (Zacarias 8). Sem serem teólogos, tinham uma concepção de Deus, presente na História que chamava os homens e os povos a completar a sua obra iniciada na Criação por um correto comportamento moral.

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1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross, www.judaismoecristianismo.org

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