Vocação para a Liberdade – um livro de Pe. José Comblin

Por Genildo Santana

DEDICADO AO MEU PRIMO WAGNER SANTANA, PELA LUTA QUE TRAVA, JUNTO AOS METALÚRGICOS, TAMBÉM POR LIBERDADE.

Em meus últimos anos de seminário, ali por volta de 1998, 1999, chegou-me às mãos o livro Vocação Para a Liberdade, de José Comblin, teólogo bem conhecido de todos nós, pela proximidade e pela presença constante no Seminário da Imaculada Conceição (saudoso Centremar) e nas semanas teológicas que realizávamos no auditório do Colégio das Lourdinas, em João Pessoa.

O livro foi publicado pela editora Paulus, em 1998.

Comblin parte de quatro princípios, explicados na introdução e na contracapa do livro, para tratar sobre a liberdade, quais sejam: A) Na América latina, os movimentos de libertação descobriram a liberdade; B) Desde a década de 80, a Igreja latino-americana anda buscando uma identidade perdida; C) Durante séculos, o evangelho permaneceu muitas vezes recoberto por revestimentos culturais que ocultavam aspectos importantes e D) Muitos católicos estão cada vez mais conscientes de que não se pode anunciar o evangelho da liberdade evangélica a partir de estruturas eclesiásticas arcaicas que parecem totalmente alheias á evolução dos povos e, sobretudo, ao surgimento de um laicato que quer ser tratado como adulto.

Tendo esses princípios basilares, Comblin descorre, em 10 capítulos, sobre a liberdade, com a profundidade teológica e histórica que lhe eram bem peculiares, revelando-a desde a Grécia antiga até os momentos atuais.

Comblin enfatiza a mudança de ares radical no tocante à liberdade que ocorreu a partir da entrada dos Zapatistas em várias cidades de Chiapas (Estado mexicano, que nos lembra afetivamente o Bispo Samuel Ruiz) em 1º de Janeiro de 1994. Sob as ordens do subcomandante Marcos (o mesmo que travou um famoso debate com o advogado de Pinochet em rede de televisão), o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) introduziu algo novo nas lutas de libertação.

Nas palavras de Comblin:

O subcomandante Marcos, líder efetivo e porta-voz do movimento declara: “Aprendemos que não se pode impor um tipo de política às pessoas, porque cedo ou tarde termina-se fazendo o que se criticou”. O exército zapatista abandona o tema da revolução que prevalecera na América Latina desde 1959 com a entrada de Fidel Castro em Havana e com a figura emblemática de Chê Guevara. O subcomandante Marcos suplanta Chê Guevara, sendo reformista e não revolucionário. (COMBLIN, 1998, p. 7).

Essa, uma novidade nos movimentos de libertação. Semelhante exemplo vem do Brasil mesmo, pelo MST (Movimento dos Sem Terra) um grupo que não se encaminhou para a luta armada, como tantos da América Latina e que buscou outras vias de libertação, como a educação, por exemplo.

Tanto no EZLN, como no MST, não há a imposição de uma filosofia, de uma política, de um modo de ser, a outras pessoas. Comblin enxerga nesse movimento dos Movimentos Sociais, uma outra via pela busca da liberdade.

Na segunda pilastra, Comblin afirma que a Igreja perdeu sua identidade, que era bem clara nos tempos de Medellin e de Puebla (aquelas duas Conferências que atualizaram o Concílio vaticano II, na América Latina, Medellin, em 1968 e Puebla, em 1979). Diz o teólogo:

Desde a década de 80, a Igreja latino-americana anda buscando uma identidade perdida. Teve identidade clara nos tempos de Medellin e de Puebla. Logo em seguida, essa identidade foi diluindo-se e, na atualidade, parece ter-se perdido. Consciente ou inconscientemente, muitos trabalham como se quisessem refazer a cristandade, procurando apagar – como parêntese inútil – trinta anos de história. (COMBLIN, 1998, p. 5).

Essa realidade aqui apontada por Comblin justificam as duas outras colunas. O evangelho sendo recoberto por aspectos culturais, sendo o evangelho da liberdade esquecido no segundo milênio, principalmente a partir do século XIV, em nome de uma Igreja triunfante, e a impossibilidade de sua propagação em estruturas arcaicas, que não se abrem ao novo. Uma igreja que ainda não crê na força do laicato, seja por medo ou por força de imposição, embora haja iniciativas aqui e ali, em alguma diocese ou paróquia. Uma Igreja em moldes medievos, em sua estrutura imitando o feudalismo e em sua hierarquia não propicia a liberdade.

Comblin questiona, no decorrer do livro, se em algum momento a liberdade realmente foi viável e pôde existir, na história e, principalmente na história da Igreja Católica ou na história do cristianismo mesmo. Como bem supremo, a liberdade deveria ser o princípio evangélico por excelência. O que infelizmente, não o é. Não o é em uma instituição hierárquica como a Igreja e não o será em qualquer instituição que faça da hierarquia, não dialógica, sua premisssa.

Quando fala sobre Jesus, Comblin assim diz:

Jesus denunciou os fariseus, sacerdotes, escribas e Herodes. Porém essas denúncias não propriamente ações políticas. São ações messiânicas. Jesus queria ser livre e por isso rejeita a submissão às categorias de quem tinha usurpado o poder em Israel. Queria também que seus discípulos e todo o povo de Israel se emancipassem dessa falsa direção. (COMBLIN, 1998, p. 39).

Em todo o livro, Comblin faz um libelo à liberdade, como no 3º capítulo, intitulado DEUS É LIBERDADE. Ora, sendo Deus, Liberdade, os que vão contra ela, põem-se contra o Criador. E a história é plena de exemplos nos quais a Igreja investiu contra a liberdade, inclusive nos dias atuais.

Assim, a liberdade se converte em valor supremo, supra, acima (perdão por tanto pleonasmo) dos valores, sendo o valor máximo da vida e, principalmente, da vida cristã. Mostra-nos Comblin como a liberdade se perdeu na história em nome de um Rei, de um Deus, de uma teoria. Também como a igreja aprisionou a liberdade em leis, decretos, concílios, liturgias intocáveis, na figura infalível do Papa (a infalibilidade papal, do Vaticano I, em 1870).

Também as Instituições Sociais (termo caro a Durkheim) aprisionaram e aprisionam a liberdade, seja em nome da moral, do neoliberalismo, da política, do militarismo, da cultura, do casamento, da tradição.

Vocacionado à liberdade, Comblin nos mostra como o homem foi privado desse bem supremo, seja pela sociedade civil ou pela hierarquia eclesiástica.

Nos dias atuais, já tratados como uma longa noite escura (mas, como toda noite, há de amanhecer um dia claro), falar sobre a liberdade tornou-se rotina e lema dos movimentos organizados, dos estudantes, dos sindicatos, dos professores, dos jornalistas e de toda alma que não se dobra, nem quer, a ideias totalitárias, a regimes ditatoriais, a sistemas que supram a liberdade individual em nome de seja lá o que for ou seja que deus seja.

Mais do que falar sobre a liberdade, cumpre viver a liberdade.

E Comblin, que faleceu em 2011, aos 88 anos, em sua maioria dedicados ao Brasil e á Igreja latino-americana, pode, com seu livro e suas reflexões, ser um ponto de partida para que a liberdade não seja aprisionada, nem na individualidade, nem na vida social, e muitos menos, na vida religiosa, seja de clérigos ou de leigos.

Que ele nos fale, então:

Os que viveram a liberdade não escreveram e morreram. É preciso começar tudo de novo. Ora, nisto justamente consiste a liberdade: poder começar tudo de novo. Como entrar na liberdade? Escolhendo-a e começando tudo de novo. (COMBLIN, 1998, p. 319).

Bibliografia:

Comblin, José. Vocação para a Liberdade. São Paulo. Ed. Paulus. 1998.

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