Quando rezamos Ave Maria

Por Hermes de Abreu Fernandes

“No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria.” (Lc 1,26-27)

Maria: a Bem amada de Deus. Do nome hebraico מרים, Miryam, que significa “senhora, soberana”. Há também traduções que apontam como “a puríssima”. Soberania e pureza cercam o nome daquela que foi a predileta, a amada de Deus; pois esta também pode ser uma possível tradução à Miryam. Traduzido livremente como Maria, do hebraico. Amada, escolhida como o ventre a abrigar seu Mistério. E se é para o Altíssimo tão cara, por que não seria para nós?

Maria se faz grande em sua pequenez. Não estava nos palácios herodianos aquela que seria a Mãe de Jesus. Assim como grande parte dos personagens bíblicos, a Mãe de Jesus veio do meio dos pobres. Em Nazaré da Galileia, Deus encontrou graça em uma jovem de nome Maria (cf. Lc 1,28). Bela e formosa, simples e humilde, encontra em Deus a graça por alimentar fidelidade e amor ao Deus da promessa. A sua participação nas festas (cf. Jo 2,1-10), na comunidade (cf. At 14) e no sofrimento (cf. Jo 19,26) aponta para uma inversão da lógica social do seu tempo. Ela vem “sintetizar” as mulheres profetisas do Antigo Testamento, cuja única honra era educar os filhos para a Lei.

No Evangelho de Lucas, Maria aparece a partir do anúncio. Fala-se de uma virgem que irá receber a visita do Anjo para ser mãe do Messias. Maria tem de compreender o sentido teológico da maternidade. Essa explicação realiza-se a partir de um diálogo entre Maria e o Anjo, deixando evidente a resposta – o fiat. Em um de seus Sermões, Santo Agostinho destaca que Maria fez plenamente a vontade do Pai e, por isso, é mais importante para ela ter sido discípula de Cristo do que mãe de Cristo (cf. Santo Agostinho, Sermões, 5,7). Sua participação na comunidade do seu tempo, conforme narrado em At 1,14, aponta para uma atitude ativa.

Havia muito que o povo de Israel esperava um Messias, mas um Messias que viesse glorioso e com forte exército para dominar o poder romano, o qual explorava e oprimia a maioria pobre e marginalizada. Mas Jesus pede que se traga um jumento, animal usado para o trabalho e não para as guerras, e entra em Jerusalém aclamado como rei. Ele não aceita o poder da terra e vem revestido do amor. Essa experiência do amor de Deus anunciado por Jesus é a grande reviravolta para uma sociedade injusta. Enquanto César e seus servidores o viam como agitador político, Jesus dava o testemunho e sua Palavra anunciava um Reino de justiça e de vida para todos. Jesus vem anunciar que o sinal maior é o amor. Esse amor desinteressado e exigente convoca cada pessoa a cuidar da vida, a cuidar do outro para que a vida prevaleça. O Messias, Servo Sofredor, realiza o Mistério Pascal em sua Vida, Morte e Ressurreição. Anunciando as promessas do Reino, remindo nossas culpas, inspirando os primeiros discípulos para dar continuidade ao seu Mistério: a instauração do Reino de Deus. E a tudo isso, Maria participava, meditava e guardava em seu coração (cf. Lc 2,16-21).

Tanto participou do Ministério de Jesus e do nascer da Igreja que, em Apocalipse, é vista de forma análoga a ela, a Igreja. A mulher é Maria, mãe do Senhor, parturiente da esperança que é Jesus e é a Igreja, parturiente do Reino.

O texto bíblico de Apocalipse 12 faz um apelo de resistência e esperança para os cristãos que sofriam em tempos de perseguição. Apocalipse é um termo grego que significa revelação ou tirar o véu, mostrar o verdadeiro sentido da história e recuperar a esperança. O objetivo do texto é oferecer consolação e esperança na vitória última do Senhor aos crentes provados em sua fé. João, exilado na ilha de Patmos, quer se comunicar e não pode usar uma linguagem clara diante da perseguição do império romano. Por esse motivo, usa uma linguagem simbólica com a comunidade. Esta conhece os elementos que o autor do texto usa. Os protagonistas desse texto são a mulher, o dragão e a criança, a saber: A mulher é a força do ser e da vida; o dragão é o poder do mal, da destruição e da morte; a criança é a inocência, a origem, a possibilidade, a promessa (cf. BOFF, 2006).

De um lado, a mulher, que representa a humanidade, os que acreditam (cf. Lc 1,46). Do outro, o dragão, que tenta perseguir aqueles que acreditam para derrotá-los. O dragão acredita apenas no próprio poder. Quem vai ganhar essa luta? Humanamente falando, a mulher vai perder… Mas Deus intervém, coloca-se ao lado da mulher, e o dragão da maldade e da morte foi derrotado (cf. MESTERS, 1983).

Esses são elementos importantes para serem compreendidos e, a partir daí, tidos como referência para alimentar a mística e a práxis, uma vez que muitos cristãos se encontram cansados e desanimados da sua ação pastoral, permitindo que os “dragões” da sociedade devorem a criança que quer nascer.

Quem hoje sofre as dores do parto ou se sente perseguido por algum dragão da sociedade? Hoje são muitos os “partos” sofridos, interrompidos, descuidados, por conta do descaso das autoridades e da sociedade para com grande parte da população: faltam atendimento médico e escolas, são altos os índices de pobreza, de violência, de corrupção, de maus serviços prestados por certos profissionais de saúde… O dragão revestiu-se da roupagem da modernidade e da globalização, mas quem é o dragão hoje? Talvez muitos não consigam identificá-lo, e esse é o grande empecilho para que seja derrotado. As relações humanas devem estar pautadas nos valores da vida: para nós, cristãos, valores humanos e cristãos. Porém, se os procurarmos na família, nos meios de comunicação, no mundo do trabalho, da educação, da política, da saúde e da economia, sentiremos sua ausência. E é justamente a ausência desses valores nos nossos relacionamentos que corrompe a fraternidade e a solidariedade nos mais diversos ambientes.

Por outro lado, há famílias e comunidades que resistem à força dos dragões da sociedade e pautam sua vida na ótica e modelo de Jesus de Nazaré, cuja memória foi exemplo para as comunidades perseguidas do Apocalipse.

A Igreja no século XXI não sofre aquelas perseguições do período de 81-96 d.C., durante o governo de Domiciano, embora sofra outros tipos de perseguição e violência em diversos lugares. Sofre, também, os males do descaso, da indiferença, do preconceito. O primeiro grande desafio dos nossos tempos é o da fidelidade ao Deus verdadeiro. Nas palavras de Jesus, encontramos o imperativo: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33).

Para ser verdadeira presença de Igreja, ser a “imagem” de Cristo no mundo de hoje, é preciso que nosso comportamento seja semelhante ao de Jesus Cristo, que recusou todas as tentações de dinheiro, prestígio, consumo e poder. Boff afirma: “A Igreja de Cristo tinha algo que o império não tinha. Era uma força inabalável: a fé no Senhor ressuscitado” (BOFF, 2006).

Essa mesma fé da Igreja de Cristo deve ser a fé dos cristãos comprometidos com sua peregrinação neste mundo, para ser presença transformadora. A morte, paixão e ressurreição de Jesus não significam derrota, mas a vitória sobre a imposição e a força do poder que queria destruir a comunidade. Esta se une e, fortalecida no amor, constrói novas relações de respeito e justiça. Nesse sentido, Maria é o modelo, é a mulher forte, a mulher discípula, seguidora de Jesus, aquela que, sem medo, gerou vida. Em primeiro lugar, a vida de Jesus por excelência e, depois, a sua participação e resistência não permitiram a morte da comunidade. Mais que um convite, a vida de Jesus é uma exigência para quem acredita no amor e na vida.

Na Exortação Apostólica Marialis Cultus, Maria é aquela que “aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (cf. Lc 1,38): porque soube acolher a sua Palavra e pô-la em prática, porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço e porque, em suma, ela foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo, o que, naturalmente, tem um valor exemplar universal e permanente”.

Pensando em todas estas questões, não podemos deixar de perceber Maria como íntima partícipe do Mistério da Salvação. Seu exemplo de fé, seu “sim” comprometido, não só nos inspira. Impele-nos. Se com Maria se deu o Mistério da Salvação, devemos nós, com ela, construir o Reino, consequente deste Mistério.

Nestes dias que estamos celebrando a padroeira do Brasil, a Senhora Aparecida, devemos voltar nosso coração à Nazaré. Reviver a história da Virgem e, com ela, sermos todos Bem amados do Pai. Sejamos imitadores de suas virtudes, revestidos de amor filial, companheiros no caminhar desta primeira cristã. Com a fé, a esperança e a coragem da Predileta do Pai; sigamos no caminhar e no ser Igreja. E, neste impulso de profecia, não esqueçamos de rezar: Ave Maria, cheia de graça… É neste rezar que sintetizamos nosso viver eclesial. Em Maria vamos do Presépio à Cruz. Do nascer da Igreja, ao Reino Definitivo.

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Bibliografia

ÁLVAREZ, Carlos G. Maria, discípula de Jesus e mensageira do evangelho. São Paulo: Paulus, 2007.

BOFF, Clodovis. Mariologia social: o significado da Virgem para a sociedade. São Paulo: Paulus, 2006.

BUCKER, Bárbara P.; BOFF, Lina; AVELAR, Maria Carmen. Maria e a Trindade: implicações pastorais – caminhos pedagógicos – vivência da espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2002.

CELAM. Documento de Aparecida (DAp). São Paulo: Paulus: Paulinas; Brasília: CNBB, 2007.

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium (LG). São Paulo: Paulus, 2004.

MESTERS, Carlos. Mariaa mãe de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1983.

PAULO VI. Marialis Cultus (MC). São Paulo: Loyola, 1975.

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