Ao Reino de Deus é preciso um coração de pobre

28° Domingo do Tempo Comum

Por Hermes de Abreu Fernandes



Estamos caminhando para o fim do Ano Litúrgico. Mais um mês, e celebraremos a Solenidade de Cristo Rei, encerrando o Ano Litúrgico de 2021. Momento de reflexão, avaliação e sonho. A Palavra de Deus nos acompanhou ao longo deste caminhar. Exortou-nos. Formou, animou. Foi-nos necessários coração humilde e ouvido atento. Quando Deus nos fala, é o coração que se dobra a ouvir. O verdadeiro conhecimento do Evangelho se dá pela adesão radical, total, ao projeto de Jesus. A liturgia deste domingo constitui verdadeiro convite à reflexão e ao discernimento acerca do que é essencial e pode, de fato, dar sentido à existência. Em forma de elogio, o autor da primeira leitura declara a sabedoria superior a todos os bens da terra; comparados a ela, o poder e as riquezas são insignificantes. No Evangelho, Jesus é interpelado por um homem muito rico, obediente aos mandamentos e sedento de vida eterna. Porém, incapaz de renunciar ao que o impede de ganhá-la: as riquezas. Com base no colóquio com aquele homem, Jesus aprofunda a catequese sobre a necessidade do desapego aos bens para um autêntico discipulado. A Segunda Leitura é um elogio à Palavra de Deus e à sabedoria que nela se encerra. Animadora das Comunidades, impulso à construção do Reino de Deus. “Tua Palavra, Senhor, é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho” (Sl 119).




1a. leitura (Sb 7,7-11)



Extraída do Livro da Sabedoria, temos a Primeira Leitura na Liturgia de hoje, cuja autoria foi atribuída a Salomão, mediante o recurso literário da pseudonímia, a fim de conferir prestígio e autoridade ao escrito, uma vez que Salomão era um paradigma de homem sábio em Israel. Cronologicamente, é o último livro do Primeiro (Antigo) Testamento. Foi escrito já no final do século I a.E.C. por um erudito judeu, da cidade de Alexandria do Egito. Teve como objetivo reforçar a fé e as tradições de Israel, que estavam ameaçadas devido à influência exercida pela cultura grega sobre as novas gerações de judeus. Tanto assim que haviam até perseguições: os judeus que não aderiam aos costumes gregos eram publicamente hostilizados. Daí a importância desse livro, com a função de estimular a fidelidade e a resistência do povo. Podemos ver este contexto nos livros Primeiro e Segundo Macabeus.

O fragmento do Livro da Sabedoria, lido neste domingo, pertence à segunda parte do livro (Sb 6-9), conhecida como o “elogio da sabedoria” e considerada o coração da obra. Foi inspirado no clássico episódio do sonho de Gabaon (cf. 1Rs 3,5-15), no qual, o Senhor concedeu a Salomão a oportunidade de pedir qualquer coisa, que lhe seria dada. Assim, em vez de pedir riqueza e glória, o jovem rei pediu sabedoria para governar seu povo com justiça. Em estilo autobiográfico, o Pseudo-Salomão reconta essa experiência. Ele recebeu a prudência e o espírito da sabedoria como frutos da oração e da súplica (v. 7). Trata-se de afirmação muito importante, pois apresenta a sabedoria como dom de Deus, e não como atividade racional, conforme a concepção da filosofia grega. A sabedoria, em um contexto Bíblico, é viver de forma plena. Isso consiste na observância da Lei e na capacidade de discernir entre o bem e o mal, escolhendo sempre o bem, o que conduz à verdadeira felicidade. Por isso, ela é preferível a tudo. Qualquer coisa comparada a ela é insignificante, como o poder, a riqueza, os metais preciosos e até mesmo a saúde e a beleza (cf. Sb 7,8-10).

O elogio à Sabedoria não significa o abandono ou desprezo aos bens materiais. Ao contrário, até lhes elege na condição de benção. Ao invés de opor-se aos bens, a Sabedoria é sua fonte (v. 11). Por isso, deve ser buscada acima de tudo, pois sem ela nada tem sentido. Tudo é efêmero.



2a. leitura (Hb 4,12-13)



Neste domingo continuamos a leitura da carta aos Hebreus, iniciada no domingo passado. O breve fragmento lido nesta liturgia é a conclusão da primeira parte do livro (1,5-4,13). Trata-se de um elogio à Palavra de Deus. Logo, possui um significado muito importante, ainda mais quando se considera a função pastoral da obra: animar comunidades em crise de fé e esperança. Em contextos assim, nada mais justo do que recordar a força vivificante da Palavra de Deus, o que fundamenta e fortalece a fé.

Sob uma pedagogia interpelante, o autor descreve a Palavra de Deus com cinco características que revelam sua força performativa: viva e eficaz, cortante e penetrante, e judicante (v. 12). A Palavra de Deus é viva e eficaz porque comunica vida e realiza os propósitos para os quais é enviada (cf. Is 55,10-11)/ Por meio dela, Deus age falando, desde à criação. Sendo mais cortante do que uma espada de dois gumes, ela penetra no mais íntimo do ser da pessoa a quem é destinada. Isso quer dizer que confronta todas as dimensões da vida e nada escapa ao seu alcance. Não permite neutralidade. Quem a recebe, deve tomar uma posição a favor ou contra. Por isso, ela é também juiz: confrontada aos sentimentos e emoções, denuncia as incoerências e hipocrisia de quem não a acolhe com sinceridade.

Em síntese: para o autor, a Palavra é o próprio agir de Deus na história, cuja expressão máxima é a pessoa de Jesus, o Filho, que é a Palavra definitiva (cf. Hb 1,1-2). Prestar contas a ela, portanto, significa confrontar-se com a vida de Jesus de Nazaré (v. 13), a Palavra encarnada e fonte de sabedoria. Quem acolhe essa Palavra, obviamente, alcança a verdadeira sabedoria.



Evangelho (Mc 10,17-30)



Coroando a Liturgia da Palavra deste domingo, temos o Evangelho. O relato de hoje continua inserido no contexto do caminho de Jesus com os discípulos para Jerusalém. Esse caminho é, antes de tudo, um itinerário teológico e catequético. Por isso, enquanto caminha, Jesus é interrompido diversas vezes por várias categorias de interlocutores, que lhe fazem perguntas relevantes sobre a Lei, o Reino de Deus, as condições para o discipulado e questões do cotidiano.

Vamos ao relato: enquanto Jesus caminhava, alguém correu ao seu encontro (v. 17). A versão de Mateus desse episódio diz que era um jovem (cf. Mt 19,22). Para Marcos, era apenas alguém. E alguém carente de sentido para a existência. Podemos perceber isso pela postura e a pergunta que evidenciam isso. Mesmo que, paradoxalmente, tratar-se de um homem muito rico e fiel aos mandamentos (v. 20; v. 22). Ele ajoelhou-se e perguntou o que fazer para ganhar a vida eterna. Até então, na obra de Marcos, somente um doente de pele tinha se ajoelhado aos pés de Jesus, suplicando-lhe a cura (cf. Mc 1,40). Isso vem significar que esse alguém do episódio deste domingo tinha um mal equivalente à doença que então se denominava lepra (a pior das enfermidades conhecidas na época). Marcos trata como doença, e muito grave, o apego às riquezas. A pergunta revela que o homem buscava sentido para a existência, uma cura ao seu mal. A vida eterna, aqui, mais do que uma vida pós-morte, significa o sentido da vida presente. Quem encontra sentido para a vida aqui, eterniza sua existência. Desposa um ideal e adquire uma riqueza eterna.

Como todo o evangelho se insere na mentalidade judaica, no contexto da narrativa de hoje, a observância dos mandamentos já era suficiente para a vida ter sentido. Jesus, porém, mostra que essa visão está superada. É necessário algo mais: vender tudo, dar aos pobres e segui-lo (v. 21). Ele não diz isso como imposição, mas como proposta de amor. Contudo, aquele homem não estava pronto para isso. Não assimilou o olhar amoroso de Jesus nem sua proposta. Por isso, saiu triste do encontro (v. 22). Assim, o evangelista mostra que é mais fácil a cura da doença então conhecida como lepra, do que o desapego aos bens. Mais um desencontro do amor, nos vários encontros de Jesus.

Imagine o fim deste encontro de Jesus. Ficou um vazio, com o fim daquele diálogo. Infrutífero convite aos projetos do Reino. Ao fim do colóquio com o desconhecido, Jesus se volta para os discípulos (v. 23-24), os mais necessitados de assimilar sua mensagem. Com eles, o discurso já não se limita à vida eterna, mas passa ao Reino de Deus e às exigências para entrar nele. Entrar no Reino é difícil porque exige adesão incondicional. Para os ricos, é ainda mais difícil, tendo em vista a necessidade maior de renúncias, como Jesus expressa com um provérbio tão hiperbólico: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Na exegese bíblica, diversas tentativas de interpretação foram sugeridas para suavizar o impacto dessa afirmação. Chegou-se a afirmar que o “camelo” era um tipo de corda grossa e que o “buraco da agulha” era uma porta estreita num muro de Jerusalém. Ler dessa forma é distorcer a mensagem. Jesus gostava de imagens fortes, deixando seus seguidores perplexos (v. 26). Faz parte de sua pedagogia as hipérboles. Ademais, a história da salvação é marcada por diversos acontecimentos aparentemente impossíveis, mas realizados com a graça de Deus, para quem nada é impossível (v. 27). Logo, não é impossível a entrada dos ricos no Reino de Deus. Contudo, não será possível se não assimilarem a lógica da partilha e do desapego. Com sua radicalidade quase hiperbólica.

Sigamos ao fim do texto. A incompreensão dos discípulos se torna evidente na fala oportunista de Pedro (v. 28). De fato, Jesus os conhecia e sabia o que cada um tinha deixado para o seguir. “Casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos” são imagens do que é caro e essencial na vida. Para seguir Jesus com fidelidade, é necessário desapegar-se do que é mais importante. Quem o segue, porém, não fica sem o essencial. Por isso, Jesus elenca as coisas que devem ser deixadas e a seguir as repete, como as mesmas que serão dadas aos seus seguidores (v. 29-30). Assim, ensina que nada falta a quem deixa tudo por causa sua e do Evangelho. A verdadeira sabedoria consiste na assimilação dessa lógica. É sábio quem põe na Palavra de Deus e no seguimento de Jesus, sua verdadeira riqueza. Neste sentido, com o salmista, podemos cantar “Saciai-nos, ó Senhor, com vosso amor, e exultaremos de alegria!” (Sl 89).

Indicações para aprofundar a reflexão

BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Evangelho de Marcos: Quem é Jesus. São Paulo: Paulus, 1991.
NODARI, Paulo César. & CESCON,  Everaldo. Aprendendo com o evangelho de Marcos: Quem é o Mestre? Quem é o discípulo? São Paulo: Paulus, 2009.
KONINGS, Johan. & GOMES, Rita Maria. Marcos: O evangelho do reinado de Deus – Comentário-paráfrase. São Paulo: Loyola, 2018.

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