Judaísmo e Cristianismo – Parte 1: Abraão

A HISTÓRIA DOS HEBREUS: OS PATRIARCAS ABRAÃO, ISAAC E JACÓ

1 – Abraão

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

A história de Israel começa com um pastor nômade que se chamava Abrão filho de Taré. Entre Adão, o primeiro ser humano criado e Noé houve 10 gerações. Entre Noé e Abraão, outras dez gerações. Nascido em Harã, ao nordeste da Mesopotâmia, ali se instala por razões econômicas, com a sua mulher Sarai e seus parentes, em Ur, a antiga capital dos Sumérios. Com seus 300.000 habitantes, Ur alcançou altíssimo nível de civilização desenvolvendo a agricultura, as artes e um comércio importante. Taré era comerciante de ídolos, o qual nessa época, lhe oferecia uma função honrosa e lucrativa.


Mas Abrão não se contentava muito com essas pequenas felicidades terrestres e desse conforto material. Sua fé espiritual lhe provoca questões sobre o sentido da existência e sobre a veracidade dessas divindades que estavam ao lado da sua casa paterna. Homem que adorava imagens (idólatra) no começo da vida, ele termina por rejeitar o paganismo dos Sumérios. Seu ânimo religioso o faz descobrir o Criador dos céus e da terra. Esta revelação foi para ele uma revolução, para ele e para todo o pensamento da humanidade.


A fé de Abrão estava baseada sobre alguns princípios que iriam mudar a percepção do divino e portanto também do ser humano. Existe somente, antes de tudo, um único Deus, Pai de toda a Humanidade. Esse monoteísmo (crença num único Deus) contrastava claramente com o politeísmo (crença em vários deuses) do ambiente ao seu redor. Esse Deus era reconhecido como Pai-Criador e não deveria ser identificado com força alguma da natureza. De forma contrária ao Anu, Mardok ou o Shemesh, as grandes divindades dos caldeus e dos sumérios, ou Rá, o deus solar egípcio, o Deus de Abrão era transcendente. Mas esta desordem provocada pelo filho de Taré não se limitou a essa descoberta do monoteísmo (os homens no livro de Gênesis, Adão, Set era também eles monoteístas segundo a Bíblia), mas ele compreendeu que o monoteísmo era inseparável da moral. Essa nova crença implicava em que os religiosos não deveriam separar a justiça da caridade (Cf. livro do Gênesis na Bíblia, capítulo18, versículo19 : Gn 18,19). E assim podemos falar de um “monoteísmo ético”. Deus é transcendente, mas ao mesmo tempo próximo dos seres humanos. Ele chama as Suas criaturas humanas a dar o “acabamento” na História pela prática e o respeito aos valores morais, valores que tornam Deus presente no mundo.


Depois da destruição da cidade de Ur em meados de 1960 antes de Jesus Cristo (a.J.C.), a família de Taré volta a Harã com o objetivo de se instalar na terra de Canaã, sem dúvida para se afastar da crueldade das invasões (Gn 11,31). Mas a morte de Taré obriga Abrão, sua esposa Sarai, seu sobrinho Ló e toda a sua família a se instalar aí. Esse foi o momento escolhido por Deus para se dirigir ao Patriarca que tinha nesse momento a idade de 75 anos. Em um sonho noturno, o Eterno Senhor lhe pede para deixar “a terra, sua cidade natal e a casa de seu pai” para ir em direção a uma nova terra, que era nada mais que Canaã (Gn 13,1). Esse chamado divino, que pode causar surpresa pelo seu pedido, pois qualquer um que parta, vai afastar-se temporalmente da sua cidade, da sua região, da sua terra… Mas isso significa que nosso herói devia abandonar progressivamente os valores nacionais, depois locais e por fim familiares arraigados, ancorados na sua personalidade profunda, que eram direcionados para a adoração dos muitos ídolos (idolatria). Essa idolatria se traduzia por sua vez na pior das abominações no plano do monoteísmo ético: o sacrifício das crianças. A peregrinação de Abrão deveria ser também uma peregrinação interior.


Tendo cruzado o rio Eufrates e depois o Jordão, nosso personagem foi nomeado como Ivri, “Hebreu”:o que “atravessa”, ou o “passante” ou “aquele que faz a passagem, que cruza”. Eles seriam, o que poderia se aproximar dos chamados “Habirus”, os nômades surgidos apareceram no Oeste da Ásia em torno de 1500 anos antes da era cristã. O termo Ivri é entendido aqui no sentido simbólico, pois o Hebreu era um homem de passagem, sendo, por vezes, solitário, porque se encontrava do outro lado do paganismo. Mas os pastores estavam sempre também próximos, paralelos à, pois implicava também que o Hebreu permanecia vigilante diante da história da humanidade. Essa dialética permanente entre particularismo e universalismo é uma das constantes do monoteísmo ético que, longe de se reduzir somente ao culto de um único Deus, sublinha a verdade de que a humanidade toda ela está colocada sob o olhar divino. Assim sendo, Abrão interpelado por Deus, não tinha uma simples missão espiritual pessoal que o teria ocupado com seus contemporâneos, mas uma vocação sacerdotal única: ser testemunha deste Deus de justiça e de amor afim de que “fossem abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,3).


A vida de Abrão não foi nada fácil, nem tranquila. Ele devia ser submetido a dez provas que haveriam de provar que a escolha divina não era aleatória, feita ao acaso. Por amor de Deus, e compreendendo que o fiel autêntico não deveria esperar milagre algum do céu, Abrão aceita sem o menor espírito de rebeldia esses momentos difíceis. Algumas dúvidas que teve aconteceram por causa da sua modéstia, quando se perguntava por vezes se ele seria mesmo digno das promessas a ele anunciadas.


A maior dor de Abrão e Sarai era o fato de não ter um descendente para continuar a levar a tocha da sua mensagem, pois Sarai era estéril. Na verdade, nosso herói tinha tido um filho, Ismael, de junto da sua serva Agar, mas ele queria muito ter tido um filho de sua querida esposa Sarai. Mas essa expectativa não ficaria desapontada.


Abrão, depois de ter feito a circuncisão sobre si mesmo– o único rito que conheceram os Patriarcas – sobre si Ismael e as pessoas de sua casa, teve o seu nome mudado por Deus, passando de Abrão que significa “Pai elevado” para Abraão que significa “Pai de uma multidão” de nações. Também o nome de Sarai “Minha princesa” foi mudado para Sarah: “Princesa”, (Gn 17). Essa mudança de nome significava que Abraão tinha feito o luto de alguns valores idólatras, que ele tinha abandonado o paganismo. Enquanto ele se restabelecia, ele recebeu a visita de três homens, que tinham sido enviados por Deus para lhe anunciar o nascimento de um filho. Sarah começou a rir se perguntando se ainda suas entranhas secas poderiam pela idade gerar uma vida. Mas um ano depois esse riso de perplexidade se transformou em riso de alegria quando ela apresenta ao seu esposo aquele que será chamado Isaac “Ele riu”.


Alguns anos após esse nascimento milagroso, a última prova chegou para comprovar de modo definitivo o monoteísmo ético: “a amarração de Isaac”. Abraão acreditou que Deus lhe pedisse o sacrifício de seu filho. Na verdade, o Eterno Senhor não pediria algo assim tão horrível, mas Abraão, acostumado aos costumes dos seus vizinhos que faziam tais atos, interpreta desse modo a palavra divina, mesmo tendo sido surpreendido fortemente. Na realidade, Deus lhe pedia simplesmente de subir com seu filho para o caminho, em direção ao Monte Moriah, futura colina do Templo. O teste final ocorreu lá, em certa duplicidade de interpretação, Abraão teve de compreender que Deus não desejou de forma alguma a morte da sua descendência.


“Todo o sentido da sua longa marcha teve uma dimensão luminosa quando dentro de si mesmo ele escuta uma voz do céu lhe dizer: ‘ Não estenda a tua mão contra o menino, pois eu sei que tu temes a Deus'” (Gn 22,12). Abraão não era como o deus da mitologia Cronos, que devorava seus filhos” . O patriarca percebe nesse lugar o maior milagre que o homem pode cumprir aqui em baixo: amar e escolher a vida em nome de Deus. O hebraísmo estava agora sendo fundamentado, e a História podia continuar.

(Continua)

***

[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross, in: www.judaismoecristianismo.org.

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