Judaísmo e Cristianismo – Introdução: “O Judaísmo”

Judaísmo

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Como o Judaísmo nasceu? Como o Judaísmo se desenvolveu? A Criação, Sem, Cam, Jafté, Os filhos de Noé

Introdução


Mas o que seria o judaísmo? Seria uma história? Uma religião? Uma identidade, uma etiqueta, uma memória? Seria um povo, seria uma lei? Seria o judaísmo um livro? O que seria compreender todos esses elementos descritos numa identidade “judaica”? O que seria “ser judeu?” Existiria afinal um conteúdo confessional, de compreensão de uma cultura, de uma ética, algo jurídico estabelecido através dos séculos? Mas depois que os judeus entraram em diversos países, judeus e não judeus partilham eles também um desconhecimento sobre o que é o judaísmo…

O que se entendia por judaísmo na época dos reis em Israel não é a mesma compreensão que temos nos nossos dias, quando se sabe ser politicamente correto falar de um judaísmo ‘plural’, de diversas expressões. Afinal, falar sobre judaísmo não deixa ninguém indiferente. Nem mesmo os próprios judeus, curiosos ou inquietos sobre o que se dirá sobre eles.


Existe para certo fascínio também sobre os judeus, um ar de “mistério” que envolve o mundo judaico. Ele é tão específico e particular no seu modo de vida e de pensamento e tão presente nos campos literário, científico, artístico… O judaísmo tem muito mais do que desafios, ele tem utopias. Poderia ser comparado o judaísmo a uma senhora bem anciã de 3500 anos que conheceu muitas aventuras e também muitas desventuras espirituais, muitos perigos históricos, muitos exílios, muitas dores e muitas alegrias, que ofereceu muitas interpretações, muitos livros, sábios e alguns nem tanto, muitas definições de identidade, várias correntes de pensamentos que torna hoje em dia difícil afirmar com toda a certeza: ah, isso é o judaísmo!


Se um judeu afirmasse tal definição, você encontraria imediatamente outro judeu que com a mesma fé, a mesma convicção, os mesmos textos de referência, os mesmos raciocínios lógicos, demonstrariam o contrário. Não importa, a diversidade de opiniões faz parte do debate à procura da verdade. São muitas opiniões sinceras e de fé, muitas pessoas, muitíssimas visões de mundo. Serão sempre opiniões de homens e mulheres que vivendo numa comunidade de fé judaica receberam de seus mestres os ensinamentos do judaísmo. E então exporemos nesse curso um judaísmo apresentado em diferentes aspectos e que poderá responder ao leitor judeu ou não judeu interessado pela questão judaica.


Esse curso será dividido ao longo das 06 unidades, em três partes: A História, a Religião e os Desafios. A primeira parte será histórica. Mas não pretendemos mergulhar na erudição. Escolhemos alguns fatos, a nossos olhos importantes, para oferecer algumas pinceladas desta fé milenar. Tentaremos mostrar como sempre o judaísmo permaneceu um organismo vivo, que articulou sempre sua fidelidade religiosa em meio à adaptação das condições sociológicas e filosóficas em que viviam. Não seria sábio entrar nos pormenores de certas tendências, ou na diversidade das opiniões e a complexidade desse organismo, pois como já foi dito não é o judaísmo uma molécula única, mas complexa. E nem haveria tempo suficiente para isso. Começará essa parte pelos Hebreus até chegar aos tempos contemporâneos.


Em seguida, abordaremos na segunda parte os aspectos religiosos propriamente ditos: os livros, os mestres, os métodos, bem como os ritos aplicados para que lhe dessem sentido e significado. É possível que um mesmo assunto apareça em ambas as partes, isso significará que o assunto é igualmente importante no plano histórico e no plano religioso. E trataremos evidentemente o assunto de um ângulo que convenha no devido momento.


E por fim, na terceira parte, abordaremos os desafios da modernidade, isto é, o encontro dessa história singular e desta fidelidade religiosa com as questões do presente. Tarefa difícil, mas importante no mais profundo do nosso desejo de apresentar o judaísmo em toda a sua riqueza e beleza. Tentaremos igualmente nessa parte tentar identificar pontos de conexão desse pluralismo judaico em vista do futuro.


É sabido que numa Sinagoga, dizia o Rabino francês Philippe Haddad, existe em cada judeu um rabino e um presidente, um racionalista e um místico, um historiador e um psicanalista, um homem de fé e um contestador.


Que esse judaísmo aqui apresentado lhe ajude objetivamente a conhecê-lo melhor.


O Judaísmo, portanto, é essa crença monoteísta dos Judeus. Exprime ao mesmo tempo uma dimensão de fé e também uma dimensão nacional. Esse status de Judeu, religioso ou nação, ou as duas dimensões ao mesmo tempo – sempre foi tema ao longo de muitos séculos de vários debates. Ele irá sempre revelar ser um conceito global que não leva em consideração somente os aspectos rituais.


Muitos consideram o Judaísmo como um bloco monolítico, mas na verdade ele é múltiplo. “O cristianismo por séculos reduz o judaísmo somente ao Antigo Testamento. Como um “fóssil”, como um respeito duvidoso a um ancestral longínquo. O racionalismo gostaria de ver o Judaísmo como uma lei, sem ser um pensamento. E o anti-semitismo desejaria que ele fosse nem um nem outro, mas somente um fato social ou racial sem conteúdo espiritual”.


O Judaísmo foi a primeira religião puramente monoteísmo (a crença em um único Deus).


A História Judaica considera como o seu ponto de partida o homem Abraão, que foi o primeiro a chegar por suas próprias razões à idéia do monoteísmo. Mas e a “pré-História” judaica, e sobre a Criação, sobre Sem e Cam e os filhos de Noé?


Sobre a Criação o judaísmo entende como a origem do universo descrito na narrativa bíblica dos dois primeiros capítulos do Gênesis (Bereshit, em hebraico – a língua na qual foi escrita a Bíblia Hebraica). A Criação acabou se tornando um dos pilares ideológicos que muito influenciou a interpretação dos rabinos, dos místicos e dos filósofos. Deus criou o universo em seis dias e no sétimo dia descansou (Gn 1,1 – 2,24).


“Diferente de outras narrações a Torah assume a existência e ilimitado poder de Deus. Não se encontra na Bíblia nenhum mito ou lenda do nascimento de Deus como existem em outras culturas, somente a descrição da ação de Deus. Essa é a primeira coisa que o judaísmo parece afirmar: Deus criou o mundo, abençoou este mundo, de renovar-se e de reproduzir-se e viu que tudo isso era bom. Todas as genealogias depois de Cain que matou seu irmão Abel (Gn 4,8), o nascimento de outro filho de Adão, Set (Gn 4,25), e as posteriores gerações pareceram que foram se distanciando de Deus, chamando a obra de suas próprias mãos de “deus”. Rambam ou Maimônides pensava que aqui nesse período da Criação, até Abraão que se encontra “a origem dos adoradores dos ídolos nesse estágio do humano desenvolvimento”.


A partir de Noé (Gn 6 – 9) e sua descendência como Sem, Cam e Jafé viviam num mundo que se deteriorou em 10 gerações após a Criação (Gn 6,11-12) até aos dias de Noé. Noé resolve fazer frente à corrupção moral do seu tempo. Noé torna-se junto com sua família os heróis do dilúvio. A ordem de construir uma Arca era para servir de aviso aos homens. Mas ninguém prestou atenção. E o dilúvio veio e somente os animais que estavam na arca sobreviveram. Seu papel na história da salvação encontra-se entre Adão e Abraão. Deus irá após o dilúvio, abençoar Noé e seus filhos e ordenar: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra (Gn 9,1).

(Continua)

***

[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross, in: www.judaismoecristianismo.org.

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