Cardeal Omella: o Papa nos ensina a linguagem do amor

O arcebispo de Barcelona cardeal Juan-Josè Omella Omella, na apresentação do livro: “Francisco, pastor e teólogo”. A teologia não pode ser apenas especulativa, mas é a visão da vida diária de Deus que caminha entre nós. Entrevista

Michele Raviart – Vatican News

Teologia e pastoral, a relação entre o campo da reflexão e o da ação estão na raiz do magistério do Papa Francisco, “um homem cheio do Espírito e, portanto, cheio de intuições que não fazem da pastoral nem algo extemporâneo, nem da teologia um sistema fechado ou completo em si mesmo”. A partir deste ponto, declinado nas dimensões da Igreja e da sociedade contemporânea, iniciam-se as reflexões abordadas no livro “Francisco, pastor e teólogo”, publicado pela Libreria Editrice Vaticana e apresentado na tarde de quarta-feira (22) no Palácio Pio, sede da Rádio Vaticano/Vatican News, que reúne os discursos da conferência sobre este tema, realizada em Barcelona em novembro de 2019 por iniciativa do Ateneo Universitário Sant Pacià.

Pastor e teólogo a serviço da Igreja

Quando o Papa Francisco era ‘apenas’ o Cardeal Bergoglio, em Aparecida no Brasil disse que a presença do povo de Deus no santuário mariano tinha feito os bispos latino-americanos, reunidos em 2007, se sentirem diferentes. Assim como depois a viagem da semana passada à Eslováquia, disse aos jovens de Kosiçe para olhar para o Sacramento da Confissão não como olhar para nossos pecados, mas para Deus que nos acolhe e protege, toda a biografia de Jorge Mario Bergoglio está repleta de exemplos nos quais “a estreita ligação entre teologia e a pastoral caracteriza seu ministério a serviço da Igreja Católica”. São palavras do Cardeal Juan-Josè Omella Omella, arcebispo de Barcelona e presidente da Conferência Episcopal Espanhola, que esteve presente na apresentação do livro, ao explicar ao Vatican News como Francisco consegue combinar o papel de teólogo e pastor.

“Creio que o Papa Francisco nos ensine a abrir os olhos e olhar profundamente a realidade do mundo, porque o teólogo é aquele que de alguma forma coloca os óculos da fé para ver o que estamos vivendo, compreender quão profundo é e nos ajuda a descobrir a presença do Deus que caminha com o homem”. Isto é teologia, não apenas algo especulativo. É dar uma visão da vida diária, dos problemas de nossas vidas, uma visão de fé e ver e descobrir como o Senhor caminha conosco, construindo conosco um mundo novo, um mundo de esperança.

Poderíamos dizer que isso é também um fruto do Concílio Vaticano II, que exige uma teologia mais encarnada e a capacidade de levar a mensagem de Jesus Cristo a situações concretas e aplicá-la para iluminar a realidade contemporânea?

“É óbvio. Por um lado, o documento conciliar Gaudium et Spes nos faz descobrir esta visão positiva do mundo. A criação que Deus ali colocou para desfrutarmos da beleza e trabalhar por ela. Esta visão positiva nos ajuda a olhar o mundo de uma maneira diferente e a nos engajarmos no mundo com uma atitude diferente, sempre baseada na fé, o que nos leva a descobrir o Deus encarnado que caminha com a humanidade. Porque no final é o Evangelho que nos diz: “Ide por todo o mundo e eu estarei convosco até o fim”.

Há pessoas que posicionaram uma dialética entre teologia e pastoral, dizendo que o Papa é mais um pastor do que um teólogo, mas através de seu pontificado o Papa Francisco também se revelou um teólogo. Quais são os pontos de sua teologia que podemos dizer que são mais apropriadamente revelados em sua abordagem pastoral?

“Bem, são muitos. Penso que temos um exemplo na convocação do Sínodo para toda a Igreja, que é um mistério de comunhão, na tensão missionária, como dizia João Paulo II, com a participação de todos, leigos, religiosos, sacerdotes, não só dos grandes especialistas de universidades ou religiosos, mas de todos. E para quê? Para a missão de evangelização. Creio que esta seja a grande teologia, que se encarnada realmente no trabalho pastoral do Papa Francisco. Esta é nossa missão pastoral a partir do Evangelho e da reflexão teológica, é a comunhão entre todos, a participação de todos na missão”.

Uma das palavras que o Papa Francisco usa constantemente é “povo”. Então como o povo pode se beneficiar da graça de Deus e também se colocar a serviço dos outros como sujeitos ativos?

“A teologia aparece nas pessoas simples, quando se abre ao mistério de Deus, quando se vive a partir de Deus. Quando se vive em contato com Deus, se descobre toda a teologia, se descobre toda a presença de Deus, toda a ação de Deus no mundo, que é fundamentalmente teologia e pastoral. Tenho medo de uma teologia que seja apenas especulativa e tenho medo de uma pastoral que seja apenas ação e não seja reflexão e não seja visão em profundidade e que nasça da oração. Acredito que as duas coisas devem estar absolutamente unidas, e o Papa nos ensina isto”.

O senhor disse que o Papa fala a todos, neste sentido, como ele fala à sociedade secularizada?

“Creio que a coisa mais bela que o Papa nos ensine é a linguagem do amor e do amor pelos pequenos, os mais excluídos e os mais abandonados de nossa sociedade, e todos compreendem isto. Lembro-me um dia em Madri de um taxista que me levou da estação para a Conferência Episcopal, eu ainda não era um cardeal, mas lembro que ele se virou – era um homem com cabelos completamente raspados, barba muito comprida e muitas argolas nas orelhas – e me disse: “hoje quero agradecer pelo Papa que vocês elegeram”. Respondi que ele deveria agradecer aos que o elegeram, porque eu não era um cardeal. E ele respondeu. ‘Não me importa, o senhor é um padre, então permita-me felicitá-lo porque este Papa me reconciliou com a Igreja’. Ali eu entendi tudo, um pastor que ama, que acompanha, que vai em frente dizendo para onde ir, mas que não impõe, que vai com as pessoas compartilhando a vida do povo, que é capaz de andar de ônibus, de metrô, e que vai para reunir os mais pobres e os mais simples, acredito que as pessoas sigam esse pastor e o entendam porque esta é a linguagem do amor”.

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