O Espírito de Deus é Inclusão, Partilha, Participação

Liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum

“A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração.” (Sl 18)

Por Hermes de Abreu Fernandes

Neste 26º Domingo do Tempo Comum, a Igreja aprofunda sua relação com a Palavra de Deus. O livro que temos hoje – em verdade, uma coleção de livrinhos – é expressão da caminhada do Povo de Deus. Antes de ser escrito, cada livro presente na Bíblia foi vivido. É resultado de vivência, de inter-relação. Deus e os homens construindo comunidade. Um conhecer e deixar-se conhecer. Um amar e deixar-se amar. Da midrash da Criação, às escatologias e promessas do Apocalipse, temos a história de um povo que conhece seu Deus, Javé (YHWH), por ele deixa-se enamorar, por ele é libertado de várias situações de opressão e diáspora, e tem sua condição de criatura transformada em filiação divina, pelo Mistério da Encarnação. E ainda: pela Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus; participa da promessa definitiva: o Reino de Deus. Não se pode negar: a Bíblia é a declaração do amor de um Deus apaixonado e apaixonante.

Na Liturgia de hoje temos três textos provocativos. A Primeira Leitura e o Evangelho nos apresentam a liberdade do agir de Deus.  Ele concede seus dons como quer e a quem seu desejo compete. É um Deus que não permite ser monopolizado por ninguém. Logo, nenhum grupo ou instituição pode determinar seu agir. Isso indica que a fé no Deus bíblico é incompatível com qualquer tipo de exclusivismo ou meritocracia. A denúncia aos ricos gananciosos e exploradores, na segunda leitura, também recorda outra característica de Deus: a opção preferencial pelos pobres e a intolerância com a injustiça. Dentro destas perspectivas deve se orientar o caminhar cristão.

Primeira Leitura (Nm 11,25-29)

Naqueles dias, o Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e deu aos setenta anciãos. Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram.

Dois homens, porém, tinham ficado no acampamento. Um chamava-se Eldad e o outro Medad. O espírito repousou igualmente sobre os dois, que estavam na lista mas não tinham ido à Tenda, e eles profetizavam no acampamento.

Um jovem correu a avisar Moisés que Eldad e Medad estavam profetizando no acampamento.

Josué, filho de Num, ajudante de Moisés desde a juventude, disse: “Moisés, meu Senhor, manda que eles se calem!” Moisés respondeu: “Tens ciúmes de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!”

O cenário que nos apresenta a leitura é a caminhada pelo deserto, após o êxodo. O Livro de Números é uma obra composta de textos narrativos e legislativos, provenientes de tradições e épocas diversas. O fio condutor do livro é a estadia de Israel no deserto, desde o Sinai até a chegada às planícies de Moab, a última etapa antes da entrada na terra. Apesar da dificuldade de estabelecer uma estrutura da obra, devido à complexidade literária e teológica, atualmente é consensual sua divisão em três partes (1,1-10,10; 10,11-20,13; 20,14-36,13). O trecho lido nesta liturgia pertence à segunda parte. Para compreendê-lo, é necessário recordar o contexto, como fizemos, citando-o acima.

Primeiramente, precisamos entender como se aplica o sentido da palavra profetizar. No presente texto, tem o sentido primitivo de “entrar em transe”, cair em êxtase (cf. 1Sm 10,10ss). Essas manifestações, que caracterizavam a profecia em suas origens, não são senão um elemento acessório e transitório da presença do Espírito dado pelo Senhor. A profecia vai além deste fenômeno aparente. Resulta de uma relação íntima com Deus. Neste sentido, o profeta é antes de mais nada, alguém que goza do amor e da confiança de Javé.

Os dois homens que permaneceram no acampamento, Eldad e Medad, não nos parece – pela forma com que o texto nos apresenta – estar falseando esta relação com Deus. Mesmo com a indignação que provoca em alguns dos que presenciavam os fatos apresentados na narrativa de Números, não se pode dizer que estavam a confundir o povo de forma proposital. Para participar da liderança do povo, ou seja, para profetizar, é necessário ser portador do Espírito de Deus. Até então, o Espírito estava concentrado todo em Moisés. A retirada de uma porção dele significava a descentralização das responsabilidades e da liderança. O que é provocativo e notório no texto é o fato de dois homens que estavam na lista de presença, não compareceram à reunião, porém, também receberam o Espírito e começaram a profetizar no acampamento. Aliás, com maior perseverança do que os outros que tinham participado da reunião (v. 26). Aqui se encontra a mensagem central da leitura: o Espírito de Deus é livre no seu agir, sua atuação transcende os espaços e as prescrições determinadas por qualquer grupo ou instituição. Moisés entendeu assim. Compreende que não lhe cabia uma predileção de Deus. Que a outros poderia ser dado amor, confiança, dons. Importa que o povo seja cuidado, amado, conduzido pelas promessa de Javé. Para tanto, é preciso que seu Espírito habite em seus líderes. entre seus profetas. Neste sentido, o profeta está para além da condição ou função de vidente. É alguém que, em nome de Javé, anuncia o caminho de se bem viver em comunidade, na partilha e na verdade.

Segunda Leitura (Tg 5,1-6)

E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós.

Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós e devorar vossas carnes, como fogo! Amontoastes tesouros nos últimos dias.

Vede: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso. Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida, cevando os vossos corações para o dia da matança. Condenastes o justo e o assassinastes; ele não resiste a vós.

A Carta de Tiago pode ter duas prováveis datas. A primeira, por volta do ano 48 E.C., o que se conclui pela ausência de qualquer alusão à questão discutida no Concílio de Jerusalém, no Ano 50 E.C. (cf. At 15,1-20). Seria esta carta, portanto, um dos primeiros escritos canônicos do Segundo Testamento. Outra possibilidade de data para sua escrita é por volta do ano 60 E.C. Pouco antes da morte de Tiago, que se deu pelo ano 62 E.C. Podemos entender que seja de comum acordo dos estudiosos que a primeira data, anterior ao Concilio de Jerusalém, seja a mais assertiva.

No trecho presente na Segunda Leitura da Liturgia de hoje, Tiago exorta aos ricos. A opressão aos pobres, o enriquecimento às custas do sofrimentos destes, não agrada a Deus, quanto menos, é atitude compatível com o discipulado de Jesus. A opção que deve ter a Igreja de Jesus pelos menos favorecidos é tema central na escrita de Tiago. A solidariedade com eles abriga em si o caminho mais efetivo para o bem viver do Evangelho. O exercício da fé, transformado em obras de solidariedade e justiça, é tema exaustivo desta epístola. Neste sentido, Tiago interpela aos ricos à necessidade de agir com justiça. De não vilipendiar o direitos dos trabalhadores. De não se afastar da Justiça, sobretudo, aos pobres, dos pequeninos. Com estes estão as chaves do Reino dos Céus.

Com essa postura, Tiago repete o grito dos profetas (cf. Is 5,8-10; Jr 5,26-30; Am 8,4-8; 2,6-7). Já reduzido a nada pelos vermes e pela ferrugem (cf. Mt 6,18), o tesouro dos ricos vai testemunhar contra eles no dia do juízo final.  

Evangelho (Mc 9,38-43.45.47-48)

Naquele tempo, João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”.

Jesus disse: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor.

Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa.

E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço.

Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na Vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga.

Se teu pé te leva a pecar, corta-o! É melhor entrar na Vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno.

Se teu olho te leva a pecar, arranca-o! É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, ‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga’”.

O Evangelho de hoje é continuação do que nos foi apresentado pela Liturgia no domingo passado. Em concomitância com a Primeira Leitura, a questão primeira apresentada é a incoerência dos discípulo no que se refere a sentimentos exclusivistas, monopolizadores. Como podemos verificar no v. 38, João expressa a tentação dos discípulos de monopolizar os dons do Espírito e o Evangelho, proibindo um homem de agir em nome de Jesus, somente por não os seguir. Em verdade, a atividade de expulsar demônios significa a promoção da liberdade e da dignidade das pessoas. É o rompimento com as estruturas de morte e opressão vigentes em qualquer sistema. Quem faz isso está em sintonia e comunhão com Jesus, mesmo que não pertença a determinado grupo ou comunidade eclesial. Por isso, a reação do Mestre é de total reprovação à mesquinhez dos discípulos (v. 39-40). Ninguém deve ser impedido de fazer o bem nem de identificar-se com Jesus apenas por não pertencer a um grupo. Dos discípulos exige-se abertura, tolerância e consciência de que a mensagem do Evangelho não é propriedade de ninguém. Jesus fecha a questão com um simples e profundo provérbio (v. 40): “Quem não é contra nós é a nosso favor”, portanto, apto a agir em nome de Jesus, independentemente de pertença a algum grupo ou instituição religiosa.

Aprofundando seu ensinamento, sua catequese, Jesus apresenta exemplos simples e concretos. Dar um copo de água é gesto que significa acolhida, criação de vínculos, consolidação de comunidade (v. 41). Quem faz isso é recompensado. Esta recompensa, porém, não é um prêmio, mas a comunhão com Jesus. Em seguida, ele apresenta exigências cada vez mais radicais para o discipulado, como o cuidado em não escandalizar os pequeninos que creem nele (v. 42a). Escandalizar significa criar obstáculo, fazer o outro tropeçar, tornando a vida mais difícil. Os pequeninos são todas as categorias de pessoas vulneráveis e historicamente excluídas. Jesus reprova e adverte severamente quem dificulta a vida dessas pessoas, e aqui o Evangelho vai de encontro com a Segunda Leitura, da carta de Tiago. É preciso ser instrumento de justiça, sem oprimir ou dificultar a vida de seus irmãos e irmãs. Isso justifica a ênfase de Jesus em mostrar que o ser humano se autocondena quando se torna obstáculo na vida dos pequeninos. Vale pensar!

Nos versículos seguintes, Jesus fala em cortar os membros que nos levam ao pecado. É claro que sua palavra é uma metáfora! Revestida de radicalidade para se bem compreender a profundidade do problema. O “cortar a mão” (v. 43), deve ser entendido em sua totalidade.

As mãos podem ser instrumentos usados para o bem e o mal. São elas que agem quando se exercita a partilha. Oferece-se pão, afeto, socorro, bênção – geralmente – usando as mãos. O contrário: pelas mãos podem vir violência, roubo, usurpação.

Os pés (v. 45), nos ajudam a percorrer caminhos. Nos levam ao outro. Aproximam distâncias. Constroem laços fraternos. Paradoxalmente, podem ser usados para pisar nos pequenos, oprimir, sobrepor-se pelo orgulho, pelo totalitarismo.  

Os olhos (v. 47), nos fazem olhar ao outro. Dão sentido à beleza, ao sentimento de proximidade. É pelo olhar, como nos ensina a sabedoria popular, que se acessa à janela da alma. O reverso também pode acontecer. O olhar pode refletir toda escuridão que habita nosso ser. Vemos o mundo, as pessoas, a partir do conteúdo de nosso coração. Consequentemente, nosso olhar pode ser de juízo. Refletindo a dureza de nossos sentimentos, condenando nossos irmãos e irmãs. Daí advém preconceito, marginalização, misoginia, homofobia, racismo. Tudo depende de como enxergamos o outro.

Cortar esses membros, não significa um ato literal de mutilação. Vai além. Importa romper com comportamentos contraditórios ao discipulado de Jesus. Dar uso evangélico a estes membros de nosso corpo. Aqui se encerra a catequese desta palavra de Jesus. É melhor sofrer de deficiência física, por ausência de algum membro, do que ser instrumento de opressão, roubo, exploração, preconceito, injustiça.

O Evangelho da Liturgia de hoje nos exorta a bem viver a partilha, a solidariedade, o acolhimento. Dar um verdadeiro testemunho de vida cristã.

A Palavra de Deus em nossa Vida

Neste domingo, reforcemos nossa relação, enquanto comunidade de Jesus, com a Palavra que nos foi apresentada. Importa compreender o sentido da acolhida, da partilha e da solidariedade. Não nos esquecendo da justiça necessária para se bem viver as relações pessoais e institucionais. A comunidade de Jesus não se constrói pelas relações de poder, por vezes, mesquinhas e totalitárias. Ao contrário, o discipulado de Jesus só se faz genuíno quando vivido a partir da dinâmica do serviço (cf. Mc 10,45).

Seja nosso testemunho cristão reflexo do próprio Cristo. Amando sempre, perdoando incondicionalmente, e colocando-nos, sempre, ao lado dos pequeninos e marginalizados. Os pobres nos abrirão as portas do Reino dos Céus, pois a eles pertence (cf. Mt 5,3).

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