Nem sequer o medo de ter medo

Por Hermes de Abreu Fernandes

Estive pensando sobre a Palavra de Deus presente na Carta aos Efésios 4,30. Diz assim o texto: “Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, com o qual fostes marcados para o dia da redenção”. Este entristecer pode ser encontrado – em outras traduções – como irritar, contristar, etc.

Segundo Is 63,10; esta expressão indica contrariar a Deus. É muito frequente no Primeiro Testamento, o que podemos verificar em Dt 9,16; Jr 7,18; etc. Na Teologia Paulina, o Espírito é um selo que atesta a pertença do cristão à Comunidade de Jesus. Neste sentido, quando o autor da Carta aos Efésios dirige esta exortação aos seus destinatários, tem interesse de fortalecer seus interlocutores na perseverança ao amor original do ser cristão, isto é, viver em espiritualidade Pascal, testemunhando Jesus Cristo, no anúncio da Boa Nova, sempre em comunhão e solidariedade com os mais pobres. Não podemos esquecer de que um dos temas centrais da Carta de São Paulo à Comunidade de Éfeso é a ética para a vida no mundo. Por isso, a fé em Jesus na vida cotidiana, assim como, o manter-se nesta fé em comunhão com a vida, torna-se o cerne da reflexão de Paulo com as comunidades cristãs da Ásia Menor.

Não se pode negar que nosso dia a dia pode nos frustrar o coração. Somos levados ao descendente movimento de desmotivar-se no caminhar cristão. Os opróbrios que nos cercam são como que alarmes a nos lembrar que poderia ser vã utopia nossa fé. Estaríamos como que, de forma quixotesca, a lutar contra moinhos de vento? O Espírito que nos ungiu e enviou (Lc 4,18) seria um sonho que, a todo tempo, somos chamados a despertar? Ou estaríamos, de fato, revestidos do mister divino e, assim, enviados a testemunhar esperança em meio ao desespero? Fé, em meio à dúvida? Levar luz, ante ao breu existencial em que vivemos? Vivemos em tempos de necessária profecia, ou estamos a nos debater em ilusória querela?

“Não entristeçais o Espirito Santo de Deus.” (Ef 4,30). Assim nos exorta Paulo. Este que foi um hercúleo anunciador do Evangelho. Incansável missionário, tenaz construtor de laços e relações pelo Evangelho. Viveremos frustrações. Seremos levados à tentação de desistir. Há quem nos interpelará, deslegitimando nosso ardor e caminho no seguimento de Jesus. Como se portou Paulo, devemos permanecer firmes. Mesmos que soframos. Mesmo que se abata sobre nós as noites escuras da alma. Mantenhamo-nos firmes, sustentados pela exortação de Jesus: “Não tenhais medo” (Jo 16,33).

Em tempos como os nossos, devemos nos lembrar da missão que nos foi descrita pelo profeta Isaías e confirmada por Jesus em Lc 4,18s: “O Espirito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me para levar a Boa Nova aos Pobres, para curar os corações quebrantados (feridos), proclamar aos cativos a libertação, aos encarcerados a liberdade; para proclamar o ano do agrado do Senhor…” (Is 61,1-2a). Como nos ensina o Apóstolo Paulo, trazemos em nós o Espirito Santo como selo que atesta nossa caminhada cristã. Consequentemente, temos a vocação profética inerente a esta unção. É preciso não decepcionar este Espírito. Sendo verdadeiros anunciadores do Evangelho, a Boa Notícia aos Pobres, contrapondo toda forma de injustiça, pelo bem do Reino de Deus. Sem desânimo. Sem medo. Pelo Espírito Santo que nos anima, não admitiremos nem sequer o medo de ter medo. Precisamos ser livres para anunciar o Evangelho (cf. Gl 5,1).

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