O fundamentalismo sangra a Igreja

Por Jorge Alexandre Alves

Uma reportagem publicada na página eletrônica do sítio noticioso The Intercept em 18 de agosto revelou que em 2013 um ultraconservador católico espanhol esteve no Brasil para treinar a extrema-direita brasileira. Trazido por um clérigo para uma série de encontros no Brasil, a matéria indica como a necropolítica que se instalou no Brasil esteve sustentada desde os primórdios pelo fundamentalismo religioso.

Quando se fala do extremismo religioso e de sua influência na política brasileira, com frequência logo se fazem associações com o protestantismo e – de forma enfática – com o pentecostalismo. Trata-se de uma generalização equivocada, seja pela pluralidade do campo evangélico no Brasil, seja porque nem todo evangélico (ao contrário!) é intolerante ou extremista.

A reportagem mostra um aspecto que devemos enfrentar, embora muitas vezes parecemos fingir ser algo inexistente: o fundamentalismo católico. E mais grave, a publicação apenas revela a ponta de um “iceberg” que não podemos mais esconder: A decisiva contribuição que setores intolerantes do catolicismo deram à formação da necrorreligião que hoje sustenta o bolsonarismo.

Neste relato jornalístico, há algo que passaria despercebido não fosse o contexto atual. Trata-se de uma fotografia possivelmente tirada, ao que indica o cenário, nas dependências da catedral da uma das maiores dioceses do país.

Na fotografia destacam-se um clérigo conservador, que costuma comentar as viagens papais na televisão, reitor do outeiro mais famoso da cidade. Nesta igreja são rezadas as missas de um grupo de católicos dito tradicionalistas. Acontece que essas pessoas se notabilizaram por invadirem celebrações inculturadas pelo dia da consciência negra e por ataques desferidos contra os principais expoentes da Teologia da Libertação no Brasil.

Ao lado deste sacerdote, posou para foto outro padre. Ele se tornou famoso nas redes socais pelos vídeos em que defende uma versão distorcida do que seria a “Tradição’ da Igreja. Como outros, também procura combater tudo que possa estar relacionado à Teologia da Libertação. 

Oriundo de uma importante diocese da Região Centro-Oeste, mais de 40 padres desta circunscrição eclesiástica assinaram um manifesto contra ele. Em carta, denunciavam suas reiteradas investidas contra o Concílio vaticano II, contra a CNBB e, sobretudo, contra seus irmãos no sacerdócio. Apesar de tudo, frequenta ambientes eclesiásticos na segunda maior diocese do país, realizando preleções aos seminaristas locais com certa regularidade.

Além disso, o clérigo ficou conhecido por uma outra foto em que ele segura um rifle, ao lado de um autoproclamado filósofo que se tornou um ícone da extrema-direita brasileira. Uma figura das mais prestigiadas pelo grupo político que hoje governa o Brasil. 

Mas a rede traçada por uma simples fotografia não para por aí. Ao lado do sacerdote, está um jovem trajando batina – roupa típica de seminarista nesta diocese. Tratava-se de um então pupilo do padre oriundo da região central do país. 

Este rapaz saiu do seminário, mas continuou vinculado ao fundamentalismo católico. Tornou-se jornalista, criou um canal de vídeos em uma rede social. Hoje é investigado por espalhar fake news, pela origem dos financiamentos que sustentavam seu canal e por suas ligações com o chamado “Gabinete do Ódio” do atual presidente da República.

Não colocamos em questão aqui os escolhidos para pregar retiros ou fazer palestras e as opções teológico-pastorais que derivam dessas escolhas, ainda que possamos ser críticos a elas. Mas se tais figuras estão envolvidas em uma rede de ódio e de disseminação de mentiras, isso passa ser um problema sério demais.

A gravidade da a reportagem do The Intercept, reside em outro fato que não pode ser visto como irrelevante. A matéria, em suas linhas gerais, bem como a tal fotografia especificamente, nos permite supor que as articulações entre fundamentalistas católicos e a extrema-direita brasileira podem ter ocorrido em alguns espaços religiosos situados na segunda maior metrópole brasileira.

É inegável que segmentos católicos extremados são parte de uma perspectiva necrosada de religião que apoia a necropolítica que dirige o país atualmente. Contudo, é necessário entender o que se passou nas últimas décadas com a Igreja do Brasil que nos fez chegar a esse ponto.

Há um caldo de cultura eclesial que foi lentamente sendo constituído. E que solapou um projeto de Igreja que foi gestada a partir do Concílio e da Conferência de Medelín. Os anos imediatamente posteriores ao Vaticano II foram marcados por muita inovação pastoral.

Mas infelizmente veio a década de 1980. Apesar dos tempos pós-conciliares que inspiravam mudanças, o velho modelo eclesial centrado na grande paróquia tridentina resistiu, sobretudo nas metrópoles deste país. Então, veio a urbanização desordenada e em larga escala, a expansão das periferias nas grandes cidades. 

Paralelamente, essa Igreja que nascia do povo foi silenciada pelos ventos da restauração vindos de Roma no exato momento em que o catolicismo dava seus primeiros sinais de declínio demográfico. Com efeito, a alternativa adotada para evitar o esvaziamento das cada vez mais engessadas paróquias deu visibilidade na mídia, projetou sacerdotes, instaurou um movimento de padres cantores, penetrou na mídia. Mas não estancou a sangria dos fiéis.

Ao mesmo tempo, algo acontecia nas periferias mais esquecidas ou às margens dos grandes (e cada vez mais vazios) templos nas zonas centrais das megacidades. Quem oferecia apoio e dava sentido para aquela gente oprimida entre a miséria e a violência eram pastores e missionários evangélicos. 

Assim, cresceu o pentecostalismo. Sua pregação dinâmica que apresentava soluções práticas para as pessoas tomou conta das regiões mais pobres das zonas urbanas em todo país. O catolicismo tinha seu próprio pentecostalismo, mas este falava apenas aos convertidos.

Dessa forma, na virada do século muitos cristãos estavam pensando mais nas estatísticas religiosas do que na fidelidade ao Evangelho. Muitas Igrejas agiam em nome de sua própria manutenção. Estar ao lado das lutas populares deixou de ser prioridade.

O deserto eclesial que se produziu foi terreno fértil para a disseminação de um dos grandes males do século XXI: o fundamentalismo religioso. Na incapacidade de entender as mudanças de época pelas quais estamos passando, preferiu-se combater as próprias mudanças.

Mais uma vez, em nome da defesa da fé, procura-se restaurar uma ordem social e religiosa há muito desaparecida. Nela, toda e qualquer diferença é um mal a ser combatido por inquisidores ávidos em queimar reputações na fogueira das redes sociais. 

Os que apelam ao Evangelho, aos valores do Reino ou mesmo ao magistério recente da Igreja são tidos como hereges, inimigos da fé. Nem o Papa escapa dos inquisidores medievais fora de época.

Hoje, uma luta midiaticamente barulhenta e eclesialmente silenciosa é travada. Francisco indica os caminhos de mudança. Contudo, no Brasil muitos resistem em olhar para o futuro, apegando-se a um passado mítico que nunca existiu.

O futuro da Igreja do Brasil está em xeque. A chave para continuar sendo testemunha do Evangelho passa por reconhecer que é necessário de mexer com as estruturas do poder religioso católico. 

Portanto, é necessário ter a humildade em reconhecer que é preciso mudar para permanecer fiel ao Reino de Deus. O que está em jogo para a Igreja? Sua capacidade de se colocar ao lado do Povo de Deus em suas dores e suas lutas. Que o catolicismo se permita conduzir pelo Espírito de Deus.

Fonte: Portal das CEBs

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