Entre Coronéis e Ídolos

Por Hermes de Abreu Fernandes

Houve um tempo no Brasil em que os coronéis governavam com pulso forte. Raramente ocupavam cargos públicos, eleitos por legítimo pleito. Todavia, seus poderes totalitários pairavam sobre os pequenos. Nada acontecia sem que o sinhozinho assim o quisesse. Entre muitos desmandos, até mortes foram encomendadas. Os coronéis casavam e não deixavam casar. Elegiam e derrubavam eleitos. Sem contar que seu gado não era meramente bovino ou ovino. Havia o povo que votava em quem coronel mandasse. Análogo ao poder pecuário, as eleições tinham seus currais. Os votos eram como sinhozinho os queria.

Fazia-se o que coronel mandava. Ou perdia-se a terra, o apoio, a vida.

Paradoxalmente aos desmandos e crueldades, grande parte destes coronéis se confessava religiosa. Gente de fé e devoção. De moral e bons costumes. E muitos foram os líderes religiosos que cederam à tentação do apadrinhamento dos coronéis. Também não foram poucos os que perderam a vida por, profeticamente, se opor ao sistema opressor dos sinhozinhos.

Com o tempo, esta prática caiu no desuso. Pelos menos, deixou de ser exercida com tamanha clareza. Ou descaradeza. Chegamos a pensar que estas práticas tinham ficado em nosso passado. Enganamo-nos.

Há alguns anos, vimos coisas acontecer que já nos alarmava. Primeiro, alguns sinais de intolerância se fizeram presentes. Uma mocinha foi apedrejada por jovens evangélicos pelo fato de ser pertencente a uma religião de matriz africana. Jovens espancados por ser homossexuais. Pessoas em situação de rua incendiadas enquanto dormem. Intolerância religiosa, faxina social, LGBTQIAmaisfobia, autoritarismo, setorismo. Tantos “ismos” que não podemos mais contar. Somos obrigados a concluir que os coronéis estão de volta. Ou se vive conforme nos ditam os senhores do capital, ou corremos sérios riscos.

Sim, podemos dizer que os velhos senhores do engenho estão de volta. Mesmo que obtenham seus poderes por outras economias, seu autoritarismo não lhes deixa passar despercebidos. Derrubaram presidente. Elegeram seu fantoche. Já condenaram mais de 600 mil à morte por preferir gado à vidas humanas. Preocupam-se em espoliar terras indígenas para bois e soja, enquanto tudo fizeram para retardar as políticas sanativas de combate à pandemia do covid-19. A reforma da previdência e trabalhista mostrou que direito é propriedade de ricos. Os pobres devem viver das migalhas que caem de suas mesas.

Mais uma vez, devemos confessar que religiosos de nossos tempos, também, se deixam seduzir pelos poderes dos coronéis. Até há quem ateste que os sinhozinhos de nossos tempos, os Bolsonaros históricos, são pessoas de bem. Que estão agindo em defesa da moral e dos bons costumes. Ao serviço da família brasileira. Sim, pela moral e bons costumes tudo é permitido. Mesmo que, para isso, seja preciso denegrir, agredir, matar.

Enquanto na Casa Grande os malvados planejam, entre drinks e charutos, como lucrar mais com a exploração dos empobrecidos, na senzala – as periferias todas – os pobres de Deus clamam por comida, moradia digna, saúde, segurança. Clamam um grito surdo aos ouvidos dos senhores de hoje. Afinal, fuzil é mais importante que feijão. Desesperadas, mães choram a magreza de seus filhos. Filhos choram ao céu os pais que morreram e não voltam mais. Houve um corona maior que a esperança. Levou para o céu quem tanto se amou.

Em nossa história houve coronéis. Houve, também, Dorothy, Josimo, Gabriel. Ressuscitaram a crueldade dos senhores de engenho. Que renasça em nós a coragem da profecia. Estes ídolos vão cair. Molock teve seu fim. Ball foi humilhado por Yahweh, Deus dos pobres. O ídolo de hoje cairá. Tombará diante de Adonay. Por fim, há de se ouvir a canção da vitória. Nossa nênia, dará lugar à uma ode pela liberdade. Não liberdade de algum poder que restrinja a maldade institucional. Liberdade para comer, viver dignamente e, quem sabe, cantar. O que o Brasil precisa é de pão e beleza. Não de mitos, ídolos que matam. Coronéis da covardia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s