O que são os fundamentalismos?

Por Ivone Gebara

A palavra fundamentalismo é uma das mais ouvidas tanto no mundo religioso quanto no mundo social e político nesses tempos conturbados que são os nossos. É nessa perspectiva que podemos afirmar que existem muitas formas de fundamentalismo e estas formas abrangem as políticas, as religiões, as formas de educação, enfim toda a produção de conhecimento e das atitudes humanas.

A origem da palavra fundamentalismo vem de fundamento. E quando se fala de fundamento logo se pensa em alicerce, em terreno firme a partir do qual se podem construir casas, edifícios, crenças, saberes e ciência. Mas, no caso que estamos tratando a palavra fundamento, como algumas palavras às quais acrescentamos o sufixo ismo indicam uma espécie de adulteração de seu sentido próprio. O fundamentalismo é assim uma adulteração do fundamento, é colocar outros fundamentos no lugar da sustentação vital de nossas relações, é colocar ideias e leis que favorecem o interesse de minorias privilegiadas. Assim produzem mal-estar social acentuando comportamentos de exclusão de outras pessoas. Por isso, somos convidadas/os a refletir sobre os sentidos que apresentam no mundo das relações sociais, religiosas e políticas. 

Os fundamentalismos só se mantem produzindo formas de violência contra as pessoas e eliminando direitos adquiridos embora na aparência não se mostrem assim. Fazem até pensar na parábola da pessoa que saiu a semear (Marcos 4, 1 a 20) e as sementes caíram em terrenos diversos. Os terrenos fundamentalistas acabam fazendo com que as sementes morram, enquanto o bom fundamento, a terra boa, aquela que produz plantas sadias que se tornam árvores e oferecem seus frutos em abundância. Os frutos podem ser partilhados e comidos com alegria. As árvores podem abrigar a diversidade de pássaros, simbolizando a diversidade de pessoas e manifestando a importância da convivência da diversidade na manutenção da vida.

No mundo inseguro em que vivemos, sobretudo, por conta da pandemia covid-19 e da instabilidade econômica e política mundial, os fundamentalismos têm um terreno fértil. Prometem segurança, prometem ordem, prometem paz. Porém para mantê-las ameaçam, distribuem armas, alienam as pessoas do direito de escolher e pensar sobre os rumos de suas vidas. De maneira especial os fundamentalismos religiosos se aliam aos fundamentalismos políticos e acreditam ser a salvação para o povo de muitas formas de pobreza. Entretanto produzem ilusões, autoritarismos e crescente violência. A história humana pode demonstrar as tragédias múltiplas nascidas dos muitos fundamentalismos que fomos capazes de criar.

Por isso temos que estar alertas para não cair em suas armadilhas, para não nos deixarmos iludir por suas promessas as mais diversas, para não sermos tentados por vantagens individuais que são oferecidas a cada instante. 

Ser capaz de enfrentar a realidade em que vivemos, analisá-la e dar passos em vista do bem coletivo é um caminho para não cair nas redes fundamentalistas que tudo fazem para nos pescar.

Dar-nos as mãos, conversar sobre nossas vidas reais, sobre nossos limites e possibilidades reais dos projetos que nos oferecem é o que chamamos de capacidade de reflexão crítica. Reflexão com critério, com julgamento real, com análise das possibilidades de um caminho que embora difícil, não nos deixará cair nas ilusões e violências dos muitos fundamentalismos.

Fonte: Portal das CEBs

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