“Senhor, quem entrará em tua Casa?” – XXII Domingo do Tempo Comum

Comentando Mc 7,1-8.14-15.21-23

Por Hermes de Abreu Fernandes

O Evangelho de Marcos é o mais antigo dos Evangelhos. É atribuído a João Marcos, filho de Maria (personagem incerto). Há também a informação de que em casa deste, se reunia a comunidade de Jerusalém (cf. At 12,12). Podemos localizar sua origem como judaica. Fora primo de Barnabé, colaborador de Paulo e Pedro, conforme podemos saber em At 12,12; 13,5; 15,36-39; 1Pd 5,13. Pela tradição sabemos que escreveu seu Evangelho em Roma, no tempo do martírio de Pedro (aproximadamente 65 d. C). Esta data pode ser inferida pela descrição do conflito judaico e a destruição de Jerusalém (66-73 d. C), alusão presente em Mc 13.

A característica primeira do Evangelho de Marcos é o Querigma. Nele encontramos a pedagogia do primeiro anúncio à comunidade cristã da morte e ressurreição de Jesus, de acordo com as escrituras (cf. 1Cor 15,3-5). O relato da vida pública de Jesus (Mc 1-13) serve de prelúdio para a Paixão, onde se encerra o Mistério Salvífico. Com narrativa simples, focada, calculadamente suscinta e edificante, Marcos registra este primeiro anúncio para servir de referência à ação evangelizadora. Um texto com fins pedagógicos, missionários. Em suma: querigmático.

A perícope evangélica que nos é apresentada na Liturgia de hoje (Mc 7,1-8.14-15.21-23), nos apresenta as discussões entre Jesus e os escribas a respeito do tema da pureza. Os judeus tinham a Lei de Moisés como ensinamento principal para a organização da vida. Também cumpriam, no tempo de Jesus, diferentes costumes, oriundos das tradições dos antigos (Dt 4,2). Alguns, apegados às normas, seguiam a observância das tradições de forma radical. Jesus, então, vem esclarecer a interpretação da Lei, para ser melhor praticada.

Na Primeira Leitura temos Dt 4,1-2.6-8, onde Moisés nos apresenta mais um dos “Shemá Israel”. Exortações à fidelidade da Lei, dirigidas ao Povo de Deus que se constituía como comunidade de fé e sociedade. Estas exortações serviam de pano de fundo para a comunidade religiosa nos tempos de Jesus. O caráter de preservação do cumprimento da Lei, chocava-se com a novidade apresentada pelo Messias dos Pobres. Ora, a Lei defendida pelos escribas e fariseus – como bem sabemos pela literatura paulina posterior – era de um rigorismo excludente e promotor de privilégios. Algo antagônico com a proposta de Jesus, sobremaneira, presente no anúncio do Evangelho de Marcos. Este evangelista planifica a comunidade religiosa ao nível doméstico. A Casa era o lugar do culto. Onde se abriga o aconchego, a acolhida; deve estar os adoradores do Deus da Vida. É por isso que é em casa que acontece grande parte dos ensinamentos de Jesus, assim como, os mais significativos diálogos e sinais para o querigma.

A querela entre a Lei e o Amor se faz presente em quase todos os embates de Jesus com os Doutores da Lei. O tema divergente da passagem que nos inspira na Liturgia de hoje é sobre as abluções e, extensivamente, o conceito de pureza.

Os fariseus e escribas surpreenderam os discípulos de Jesus comendo pão sem lavar as mãos. Marcos explica à sua comunidade, formada por cristãos oriundos do paganismo, como alguns judeus costumavam lidar com os alimentos e os objetos, a fim de não se contaminarem. “Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre” (Mc 7,3-4).

Oportunamente, em resposta aos escribas e fariseus, Jesus ensina sobre o “puro” e “impuro” e mostra que, sobre isso, a realidade não era aquilo que comumente se pensava. Não é o que entra no ser humano por fora (alimentação, o contato com objetos, etc) que pode torná-lo impuro. O que sai de dentro do ser humano é o que o torna impuro. A distinção judaica de alimentos puros e impuros já não faz sentido (cf. At 15,28-29; Tt 1,15). Jesus apresenta o cerne do ensinamento dos antigos, dando-lhe concomitância ao viver segundo a pedagogia de Deus. A interioridade da vivência da Lei, com o coração, torna-se mais importante do que as observâncias externas sem sentido, dado seus exageros.

Aprofundando seu ensinamento, Jesus lista uma série de sentimentos que fazem o homem e a mulher impuros diante de Deus e de seus irmãos e irmãs (Mc 7,21). Do interior humano podem surgir maus pensamentos, más intenções, prostituições, roubos, homicídios, adultérios, maus desejos, perversidades, etc. O elenco de maus atos pode variar diante do contexto e da pessoa em perspectiva. Importa atentar para que a maldade não surja no interior humano como uma semente, germine e se torne ações desastrosas ao convívio fraterno e comunitário. Portanto, é necessário o cuidado com a interioridade, antes da externalidade.

A pedagogia do querigma de Marcos nos ensina, na Liturgia de hoje, um pouco sobre os costumes judaicos e nos instrui em como bem viver concomitante com a proposta de Jesus. Para Jesus, importava mais a maneira de viver do que o cumprimento de preceitos e costumes. Desta feita, podemos pensar a vida cristã como um compromisso de amor a Deus e ao próximo, mais do que como mera observância de normas.

Ainda na Liturgia, temos o texto da Segunda Leitura (Tg 1,17-18.21b-22.27), que vem aprofundar os ensinamentos que nos são oferecidos hoje. Ao fim do fragmento da Carta de Tiago, temos: “Com efeito, a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27). Com esta palavra, vem nos mostrar qual é o melhor caminho para bem viver a religião: o Caminho da Misericórdia!

Que possamos, escutando o anúncio da Boa Nova por Marcos, fazer um verdadeiro encontro com Jesus. Dando novo sentido às nossas vidas, possamos ir ao encontro dos “órfãos e viúvas” de nossos dias. O que escandaliza a fé cristã não são as impurezas geradas pelos alimentos, objetos, lugares em que nos encontramos. O que macula a vida cristã é calar-se e omitir-se diante de pessoas em situação de indigência, abandonadas à fome, ao desalento. Devemos nos purificar de nossa omissão diante do sofrimento dos que nos cercam. Ser cristão de vida intocada é comprometer-se com a promoção da Vida. Denunciando tudo o que é contrário ao conceito elementar de dignidade humana.

Promovendo a vida, a dignidade humana, lançando-nos em socorro dos empobrecidos; estaremos a viver segundo a vontade de Deus. O que faz um homem e uma mulher puros? A vivência do amor de Deus junto aos seus irmãos e irmãs. Só assim poderemos habitar a Casa de Deus como nos anuncia o Salmo 15/14. “Senhor, quem habitará na tua tenda? Quem repousará em teu Monte Santo? Aquele que caminha sem mancha e pratica a justiça, fala a verdade que está no coração (…), não faz mal ao seu próximo (…). Quem faz estas coisas, jamais será abalado” (Sl 15/14, 1-2.3b.5c). É na justiça e no amor que se constrói o Reino de Deus. O que excede a isso, é acréscimo e desnecessário (cf. Mt, 6,33).

4 comentários Adicione o seu

  1. Frei Camilo Silva disse:

    Texto Rico um dos evangelho mais lindo principalmente pelo modo como Jesus ensina a multidão o que nos torna impuro e nesse sentido aprendemos a amar cada vez mais o nosso próximo pois muitas vezes deixamos de lado esse amor por medo das impurezas do mundo onde na realidade está dentro de cada um de nós e isso nos reflete a ver nossos erros nos outros e quando na realidade está em nós, parabéns irmãos pelo belo texto e a riqueza da tradução.

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    1. Hermes de A. Fernandes disse:

      Muito obrigado pelo gentileza do comentário. Seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo!

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  2. Chris disse:

    Texto muito bom! Atrelado às demandas atuais. Necessário

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    1. Hermes de A. Fernandes disse:

      Muito obrigado pelo apreço! Continuemos unidos na fé e na vida. Seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo!

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