A ecumenicidade é convocação à revisão e à abertura constantes

Por Rosemary Fernandes da Costa

Voltemos hoje a um tema extremamente relevante para nossa caminhada como Comunidades Eclesiais de Base, como experiências vivas e que, por isso mesmo, estão sempre dispostas à fecundidade que vem da Ruah divina, que sopra onde quer: o tema da ecumenicidade. 

Este é um dos temas mais lindos e também dos mais desafiadores para todos nós. Sim, quando vamos nos abrindo ao diálogo com as muitas expressões e tradições religiosas, vamos nos encantando com as muitas possibilidades de encontrar o Amor Divino em linguagens e culturas diferentes, desconhecidas para nosso universo cultural e religioso. 

Muitas vezes, quando diferentes expressões religiosas se aproximam, dialogam, rezamos juntas, vivemos experiências diferentes. Algumas dessas experiências são de contemplação, de descoberta e encantamento. Outras podem vir acompanhadas de novas aprendizagens nessa comunicação com o Amor Divino que se abre diante de nós. Outras ainda, podem nos chegar como questionamentos, como busca de significados e de interpretações diante do que é novo, que não entendemos bem, ou que não sentimos da mesma forma. 

Diante de cada uma dessas experiências as reações também são novas. Podem vir reações de abertura e descoberta, como dissemos acima, mas também podem vir reações de preconceitos e de rejeição. 

Nossa reflexão hoje pretende se aproximar dessas tantas reações como experiências possíveis diante do estranhamento cultural e do enraizamento histórico que cada pessoa e comunidade possuem frente às muitas expressões religiosas. Cada expressão religiosa nasce a partir de um enraizamento histórico e seus desdobramentos culturais. Portanto, não há como pensar fora do lugar onde pisamos. É natural que haja estranhamento, não devemos nos assustar com esse dado. Mas, nosso convite é – o que fazemos com esse estranhamento? Damos as costas? Rejeitamos? Olhamos desconfiados? Nos aproximamos e buscamos dialogar? 

O nosso jeito de rezar e compreender o Amor Divino é também herança que recebemos por várias fontes. No entanto, essa herança vai sendo trabalhada ao longo dos anos, e sabemos que nem tudo permanece fiel às fontes originárias. Um dos processos permanentes nas expressões religiosas é a ‘volta às fontes’ para retomar os princípios, os sentidos e significados, para, a partir desse olhar, fazer uma releitura para cada tempo e contexto. 

Pontuamos aqui que especialmente as religiões do livro, as religiões monoteístas, viveram e continuam vivendo processos de retomada de suas fontes, mas também de distanciamentos que até parecem abismos. Não é raro nos defrontarmos com situações, por exemplo, como a contradição entre o que vivem alguns cristãos e o que viveu e orientou o mestre Jesus. 

Não desejamos aqui aprofundar um estudo sobre essas contradições históricas. Muitos autores/autoras vêm se debruçando sobre este tema. Nossa intenção é apenas a de percebermos que cada tradição/expressão religiosa possui formas de inculturação que as distanciaram de suas fontes e que, por isso mesmo, merecem nosso olhar de revisão, avaliação e, principalmente, de humildade e abertura. 

O tema da ecumenicidade é, portanto, não apenas um desejo de abertura, mas uma condição interna para cada tradição/expressão religiosa. É unicamente através dos encontros, das rodas de conversa, das liturgias e vivências ecumênicas, que poderemos caminhar para a compreensão de que Deus é sempre maior do que as linguagens e expressões culturais e, no seu transbordamento amoroso, se oferece incessantemente, fluindo como água, por todos os afluentes de todos os cantos da Mãe Terra, por toda sua história. 

A referência central à experiência cristã e de todas as tradições religiosas de ontem e de hoje é o centramento na dinâmica amorosa. Ela é quem nos convoca, e a partir dela vamos ao encontro de algo que está presente em todas as pessoas e seres, e que nos alinhava dialogicamente.

Estejamos, portanto, vigilantes aos distanciamentos, aos olhares reprovadores, aos pré-conceitos presentes sempre. Estejamos atentos à nossa própria linguagem, observando se ela é preconceituosa, se ela reforça injustiças e separações mesmo sem percebermos. Por exemplo, como nos alerta Ir. Marcelo Barros, em Diálogos com o Amor:

“Em muitos textos e no próprio estilo dos salmos, persiste uma cultura patriarcal. Não basta dizer que, por serem feitos em outra época, devemos aceitá-los como são. Mesmo inconscientemente a linguagem patriarcal continua fazendo mal à sociedade. É responsável por muitos sofrimentos e injustiças. Não pode agradar a Deus que é Amor, Justiça e Inclusão. Mudar essa linguagem não é fácil.”

(BARROS, 2019,18) 

Convidamos a cada uma, a cada um de nós, às nossas comunidades e círculos de oração, reflexão e leitura dos textos sagrados e dos contextos em que vivemos, que nos demos as mãos também nesta ciranda, capaz de abraçar a totalidade dos povos de Deus, se despojando de preconceitos e reconhecendo a originalidade de cada expressão já existente, e ainda todas as possibilidades que podem vir, já que estamos diante de uma compreensão de que Deus é presente, atuante, movimento e assim, também, os povos em suas mais diversas linguagens e expressões. 

Fonte: Portal das CEBs

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