O Medo do Inferno e a Arte de Bem Morrer – Indicação de mais um excelente livro de Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Por Hermes de Abreu Fernandes

As questões relacionadas aos Novíssimos, ou seja, quando do terminar da vida nesta concepção de existência; podem parecer difíceis ao entendimento. O que há após a morte? Desde os primeiros filósofos, tal questionamento intriga os pensadores. Como não poderia ser diferente, a teologia também se ocupa destas questões.

Já nos Santos Padres, um esforço de se dar um sentido teológico a tais desafios se fazia presente. Mesmo que de forma elementar, estes grandes Doutores da Igreja desejaram informar as comunidades cristãs e formar uma teologia sistematizada ao desafio de se compreender as promessas bíblicas do pós-morte. A todos estes esforços, devemos bendizer a Deus!

O tempo passou. O homem e a mulher não só progrediram em nível tecnológico e cultural. Concomitante, a teologia avançou em suas pesquisas e deu novas respostas. Neste processo de crescimento, o conhecimento acerca das coisas de Deus reconheceu novas fontes, ousou especular para além do elementar. Entre estas fontes, podemos elencar de real importância os Livros Apócrifos.

Entre os pesquisadores sobre os Apócrifos, Frei Jacir de Freitas Faria é de suma importância. Frei Jacir é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019), do qual, se ocupa nossa atenção especial.

Mais uma vez, as comunidades cristãs devem justo agradecimento a Frei Jacir de Freitas Faria, por suas pesquisas bíblico-teológicas e, sobretudo, seu desejo de sempre partilhá-las com o Povo de Deus, possibilitando crescer na fé e no bem conhecer da mesma. Como bem nos ensinou a dialética proposta pelo pai da escolástica, “devemos crer para entender e entender para crer” (S. Anselmo de Cantuária).

A Frei Jacir de Freitas Faria, nosso muito obrigado! Segue o release acerca do livro O Medo do Inferno e a Arte de Bem Morrer: Da devoção apócrifa à dormição de Maria às Irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte, texto que nos foi disponibilizado pelo autor.

Release

Este livro, tese de Doutorado em Teologia, é fruto de um estudo inovador sobre a temática do medo da morte e do inferno e a sua relação com a devoção à Dormição de Maria e a Nossa Senhora da Boa Morte, no contexto dos evangelhos apócrifos marianos assuncionistas e sua influência na história da Igreja, mais precisamente na composição do pensamento da sociedade da Idade Média e Moderna, de modo específico no Brasil Colônia e Império.

Do medo da morte à arte de morrer, tendo Maria como advogada em favor do moribundo diante do seu Filho e Juiz, à criação de irmandades da Boa Morte na Europa e no Brasil. Os portugueses trouxeram no período colonial a devoção à Dormição de Maria e incentivaram a criação de irmandades da Boa Morte. Essa devoção foi ressignificada por mulheres negras na Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte de Cachoeira, na Bahia a partir do encontro entre o catolicismo português e religiões de matriz africana, o que resultou no sincretismo luso-afro-brasileiro.

A relação de dependência e proximidade com Igreja na Idade Média e Moderna pelo fiel na Europa chegou ao Brasil com os portugueses. A primeira dependência foi estabelecida pelo medo da morte e do Inferno, a segunda pelo desejo de celebrar a devoção a partir de um catolicismo tradicional, o que lhe garantia a relação com o Sagrado.

A Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte de Cachoeira (1820), formada unicamente por mulheres negras, não fugiu desse padrão religioso, mas se apresentou como diferencial quando estabeleceu um sincretismo religioso capaz de compreender o discurso lusitano da devoção à Dormição de Nossa Senhora, mas de fazê-lo a seu modo e a partir de sua visão religiosa de matriz africana. Foi uma resistência religiosa e cultural, assim como fizeram os cristãos dos primeiros séculos, quando exigiram da Igreja um papel de destaque para Maria.                     

A Irmandade negra de Nossa Senhora da Boa Morte de Cachoeira ressignificou a morte de Maria para não perder a essência de sua cultura. Aceitou a catequese portuguesa e manteve viva a sua identidade cultural. Assim, a morte, mais uma vez, como na Europa medieval e moderna, no início da contemporaneidade do século XIX, no Brasil, foi entendida, vivenciada e explicitada nesta irmandade, a partir da religião e, de forma bastante peculiar, integrada na relação social.

Maria entrou no imaginário religioso, no modo de conceber a morte na Idade Média e Moderna, como possibilidade de livramento, por meio de sua intercessão, do fogo eterno do inferno. Sua morte, sua dormição, foi uma boa morte, uma passagem definitiva para o Paraíso. A devoção à Dormição de Maria introduzida no Brasil Colônia pelos portugueses levou as mulheres negras africanas da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte de Cachoeira a celebrar essa devoção como se fosse um ritual africano de passagem do mundo dos vivos para o encontro com os ancestrais.  E também da relação com Maria que surge a arte de bem morrer e o medo do Inferno.

A relação com a morte em todas as culturas será sempre marcada pela certeza de que ela virá para todos. O ser humano vê-se diante dela. Sabe que vai morrer e pergunta-se: o que virá depois? Existe vida após a morte? É possível preparar-se para uma boa morte, um bem morrer? O imaginário em torno da morte sempre deixou o ser humano inquieto. Com ele surgiu o Inferno, lugar temível, mas sempre imaginário.  Ainda temos medo do Inferno e da morte?

O cristianismo, na sua origem, foi influenciado pelos cultos aos mortos realizados em banquetes fúnebres pelos pagãos junto às sepulturas, o que serviu para justificar a crença na união entre vivos e mortos na vida pós-morte. As celebrações litúrgicas pelos mortos no dia dois de novembro foi instituída pelos monges de Cluny, em 1030, significado que os vivos rezam pelos mortos e os mortos intercedem pelos vivos.  

A morte faz parte da condição humana. Quando ela morte chega, os corações dos vivos, daqueles que verdadeiramente amaram quem partiu para nunca mais voltar, dilaceram numa dor sem fim. Uma dor que parece interminável. Bate no peito, a cada segundo, a dor de dias e de sofrimento intermináveis, uma vontade de ver de novo, mesmo sabendo que na vida terrena isso nunca mais será possível. Aquele rosto de mãe, pai, filho, filha nunca mais serão vistos na forma humana, mas somente pela fé para aqueles que dela se nutrem.

Na Idade Média, para incutir o medo da morte, pregadores utilizavam crânios em seus sermões. Medo da morte, do julgamento divino e danação eterna no Inferno formam uma trilogia perfeita nessa época. Imaginava-se uma catástrofe final no dia do advento de Nosso Senhor Jesus Cristo para o julgamento. Haveria fogo vindo do Céu e todos os males saindo do mar, local em relação ao qual havia um medo generalizado, pois nele estavam as potências infernais.

O medo da morte entrou em descrença no século XVIII, época das luzes, da razão, a qual, sendo despertada, colocaria fim aos monstros do medo e do pavor da morte, como retrata a famosa pintura “O sono da razão”, do espanhol Francisco Goya.

Em nossa era, a morte já não amedronta tanto. Vivemos como se a morte não existisse. O sofrimento não mais combina com os viventes dos séculos XXI. O Inferno, um lugar indesejável, também está em desuso, mas continua vivo no imaginário e na pregação de alguns que insistem na volta dessa antiga pedagogia do medo para salvar almas. O que importa é a certeza de que a ressurreição de Jesus nos garante a vida eterna. Para tanto, é preciso ser justo nas relações para que a morte não nos encontres despreparado para o bem morrer, para acolher a irmã morte rumo a vida plena em Deus. O resto é pura fantasia. 

Conhecendo um pouco mais Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Frei Jacir é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019).

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