A liberdade cristã e os conflitos nas comunidades

Por Rafael Rodrigues da Silva*

A carta aos Gálatas apresenta Paulo, com sua franqueza, chamando a atenção das comunidades para os conflitos que estavam enfrentando. Diante da cultura plural das comunidades e dos seus problemas pastorais, o apóstolo as orienta e exorta para a retomada do Evangelho ali anunciado e para que não caiam nas armadilhas do “outro Evangelho”, pautado pela Lei. Temas como a liberdade e o hino batismal – marcas do cristianismo recebido e vivido com entusiasmo quando da passagem de Paulo pela região – são fundamentais no caminho que o apóstolo reconstrói com as igrejas da Galácia.

Introdução

Encontramos diferentes maneiras de ler a carta endereçada às igrejas da Galácia. Podemos lê-la segundo o ponto de vista de quem escreve ou daqueles e daquelas que, na região, a receberam, leram, interpretaram e reagiram ao seu conteúdo. Esses dois caminhos não deixam de ser interessantes e provocantes para a releitura em nossas comunidades, em meio a pandemias, conservadorismos, intolerâncias e opressões. Lê-la na perspectiva da sua recepção na comunidade desafia nossa imaginação e nos provoca a entrar no debate que se criou entre os fiéis e suas lideranças. Nestor Míguez conta a experiência de leitura popular da Bíblia num encontro ecumênico no Uruguai, no qual se propôs a escrita de uma carta a Paulo, demonstrando a reação das comunidades (MÍGUEZ, 2017, p. 158-159). As respostas nos conduzem às suspeitas de como as igrejas da Galácia reagiram e conseguiram resolver seus conflitos e problemas cotidianos.

O caminho que propomos para a leitura da carta é o dos conflitos. Se fizermos rápida incursão nos ambientes das comunidades cristãs ou da prática cristã que emergiu na primeira geração de cristãos, iremos deparar com confrontos e brigas recorrentes, seja entre judeus e cristãos, seja entre cristãos vindos do judaísmo e cristãos vindos de fora dessa tradição. Podemos perceber, no relato de Atos 15 sobre a assembleia (Concílio) de Jerusalém, quanto foi acirrada a discussão entre o grupo de Jerusalém e o grupo de Antioquia (os de fora da Palestina).

Os cristianismos que se espalharam e as comunidades da Galácia enfrentaram a dura realidade de opressão naquele sistema de guerras, empobrecimento e escravização.

A percepção dos conflitos presentes no cotidiano da comunidade e nas entrelinhas da carta nos revela o rosto da comunidade, suas escolhas, erros, tentativas de diálogo e de acerto nos passos para solucionar os problemas.

1. As comunidades da Galácia

A Galácia compreendia, naqueles tempos, a região onde foram assentadas tribos gálicas desde o século III a.C., um território que, no período da dominação romana, serviu como ponto estratégico para dominar Pérgamo. Assim, ao redor de 40 a.C., Pisídia, Frígia, Licaônia e Isauria passaram a pertencer à Galácia e tornaram-se importante província romana. Não adentraremos na discussão sobre o que representa, na carta, a expressão “Galácia” em 1,2 e a referência “gálatas” em 3,1, pois há alguns estudiosos que argumentam que se trata de referência a toda a região, enquanto outros veem uma menção à província romana da Galácia.

O nome geográfico e político Galácia é usado em dois sentidos. O primeiro significado designa o Planalto da Anatólia Central entre o Ponto, a Bitínia e a Licaônia. O nome deriva dos gauleses que invadiram a Macedônia, Grécia e Ásia Menor em 279 a.C. e anos seguintes; finalmente eles se estabeleceram na Anatólia, onde formaram um reino. Em 64 a.C. a Galácia tornou-se um estado dependente de Roma, e nos anos seguintes o território do reino foi ampliado pelas regiões vizinhas. No segundo sentido, Galácia designa a província romana da Galácia, estabelecida em 24 a.C., depois da morte do último rei, Amintas; incluía a região da Galácia e as regiões da Pisídia, Panfília, e parte da Licaônia. Depois desta data, o nome Galácia foi usado para designar a província (MACKENZIE, 1993, p. 309).

Trata-se de grupos étnicos que estão na origem dos habitantes da província romana da Galácia – certamente, grupos bem heterogêneos, entre os quais encontramos gálatas, gregos, galo-gregos, romanos e judeus. Os gálatas não gozavam de muita simpatia entre os gregos e eram considerados raça misturada, simplórios, imprevisíveis, cruéis, sem perseverança e fáceis de ser enganados (O’CONNOR, 2000, p. 199).

 Conforme Atos 13, a comunidade de judeus da Galácia já estava assentada ali e bem organizada antes da chegada de Paulo e Barnabé. É importante lembrar que, no ambiente das viagens de Paulo e de outros missionários para a região da Galácia, não se apresentava um “cristianismo” separado do “judaísmo”; tampouco Paulo e aqueles que se opunham a ele sabiam que eram “cristãos”, embora tivessem a certeza comum de pertença a Israel e a suas tradições e interpretassem as mesmas Escrituras (KOESTER, 2005, p. 132).

As comunidades da Galácia são marcadas pela pluralidade cultural, e a identidade cristã se constrói num lento processo, desde a recepção do Evangelho anunciado por Paulo, em meio às tradições judaicas que já se encontravam na região, passando por outras propostas e discursos de judeu-cristãos. Entre as comunidades da região da Galácia, deparamos com os conflitos entre judaísmos e judaísmos, ou seja, entre judeus de fato em oposição aos judeus que se tornaram cristãos. Contudo, também encontramos conflitos entre cristianismos e cristianismos. É patente a presença de um cristianismo que se abre para o mundo helênico bem como de outro que se fecha nas tradições judaicas, além de um cristianismo que relê as tradições em defesa dos empobrecidos. Nessas comunidades há um misto de confluência cultural e tentativas de diálogo e unidade.

Os diferentes grupos cristãos nos primórdios do cristianismo se formaram e configuraram a partir dos diversos contextos judaico-helenísticos e inseridos no mundo greco-romano; atuavam com reciprocidade, reinterpretavam os elementos religiosos e socioculturais e as diversas formas de pensamentos ali encontrados. Tal realidade aponta para diferentes compreensões dos mesmos acontecimentos e, com isso, possibilita atribuir-se ao cristianismo um significado flexível e plural, que supera a compreensão monolítica (IZIDORO, 2017, p. 14).

A heterogeneidade demográfica e cultural que marca a região da Galácia nos leva a efetuar a leitura de que uma comunidade de judeus da Galácia se agregou à comunidade paulina e a interpretação que faziam do Evangelho de Jesus Cristo produziu reações em Paulo, que então lhes escreve uma carta com linguagem franca. Deixa transparecer que os inimigos que atacavam o Evangelho paulino representam grupos judaizantes, que podem ser judeus tentando fazer com que os cristãos voltem a seguir as práticas judaicas ou cristãos de origem não judaica que procuravam fielmente obedecer à Torá. Este conflito ao redor dos costumes e da prática da Lei está presente no Concílio de Jerusalém (At 15 e Gl 2) e aponta para a seguinte constatação:

Os oponentes gálatas são os primeiros apóstolos ambulantes conhecidos que invadiram uma igreja paulina. Sua mensagem recomendava que os novos convertidos gentios fossem circuncidados e observassem a lei ritual para usufruir de todos os benefícios de sua condição recém-obtida como membros do povo de Deus (KOESTER, 2005, p. 133).

Da leitura da carta de Paulo às igrejas da Galácia infere-se que os opositores estão dentro das comunidades e conduzindo-as em outra direção, a ponto de atacarem o Evangelho paulino e serem apresentados como representantes do “outro” Evangelho, com a exigência da circuncisão e a obediência aos rituais e costumes judaicos. Para Paulo, a comunidade tinha recebido o Evangelho como dom gratuito do Espírito e agora corre o risco de ficar dependente das “obras” da Lei – traduzidas na circuncisão e em normas cultuais sobre comida e tempos, conforme lemos em Gl 3,2; 4,8-10; 5,2; 6,12-13 (SAMPLEY, 2008, p. 291). Paulo escreve para que as igrejas da Galácia não consintam em seguir a pregação dos “perturbadores” que estão apresentando o Evangelho de tendência judaica (Gl 1,7 e 5,10).

Se lemos o hino em Gl 3,26-28 junto com a primeira questão levantada na carta acerca do “outro Evangelho” que está sendo anunciado na comunidade (1,6-10), percebemos o conflito entre dois modelos: de um lado, o Evangelho anunciado por Paulo naquela região, conhecido pela comunidade como “Evangelho de Cristo”; de outro, o Evangelho baseado na Lei judaica ou mosaica. A confusão aludida no início da carta e o apelo à unidade no hino apontam para o conflito instaurado na comunidade, que corre o risco de perder a dimensão da liberdade e se tornar prisioneira da Lei. O apelo à unidade no hino representa uma tentativa de enfrentamento do conflito.

Com base nesse contexto, logo somos levados a ler a carta para as comunidades da Galácia como uma “carta indignada” e carregada da decepção de Paulo com a comunidade. No entanto, não podemos assumir somente essa perspectiva de leitura. Temos de levar em conta a ternura e o apreço que o apóstolo nutre pelas comunidades. Por exemplo, ele os chama de “irmãos” (adelphoi) nove vezes: 1,11; 3,15; 4,12.28.31; 5,11.13; 6,1.18.

2. Conflito eclesial ao redor do Evangelho anunciado e sua prática

Depois que Paulo passou pela Galácia anunciando o Evangelho, outros pregadores andaram por aquelas comunidades, defendendo a prática da Lei mosaica como fundamental para que os gentios pudessem ser cristãos. Eles representam judeu-cristãos que buscam fazer dos gentios “novos” cristãos por meio do Evangelho da Lei. A identidade cristã passa pela herança abraâmica: Jesus, filho de Abraão. A memória de Abraão era fundamental, pois, conforme Gn 17, ele era praticante da lei da circuncisão. Justamente a releitura das tradições ao redor de Abraão, Sara e Agar é parte dos argumentos de Paulo para as igrejas da Galácia.

Certamente os influenciadores nas igrejas da Galácia utilizaram a figura de Abraão para ilustrar como deve ser o cristão praticante da Lei mosaica. Em Gl 3, Paulo procura situar Abraão e seus descendentes como praticantes do bem pela fé, indicando que aqueles que caminham pela Lei estão na linha da maldição (cf. v. 6-9, em oposição aos v. 10-14). Com o tema da justificação pela fé, Paulo não nega a Lei, mas afirma que ela “tornou-se nosso pedagogo até Cristo” (3,24). Aspecto fundamental no argumento de Paulo é o da unidade e eliminação das distinções, presente no hino batismal de Gl 3:

De fato, todos vocês são filhos de Deus, por meio da fé em Cristo Jesus. Pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vocês são um só em Cristo Jesus (3,26-28).

Esse hino batismal que conclui o capítulo 3 já era conhecido nas comunidades, e Paulo não só faz uso dele, como também o insere no centro de sua carta. Vale lembrar que encontramos esse hino em outras cartas: 1Cor 12,13; Cl 3,11; Rm 10,12. Comparando esses textos, podemos concluir que Paulo deve ter procurado um texto mais completo para argumentar sobre seu propósito da unidade nas comunidades. O batismo e a pertença à comunidade estavam presentes nas liturgias e na organização dos diferentes cristianismos originários. É interessante que somente na carta aos Gálatas aparece a referência “não há homem nem mulher”, o que demonstra a forte presença das mulheres nas igrejas da Galácia. O hino tem, na abertura, a expressão: “todos vocês são filhos de Deus” e conclui em paralelo com a expressão: “todos vocês são um só em Cristo Jesus”. Assim, conduz as comunidades a entender que a proposta cristã é inclusiva e abre fronteiras, ao passo que o Evangelho pregado pelos opositores é excludente e tem como critério de pertença a observância da Lei e dos costumes. As igrejas cristãs têm de se abrir em termos econômicos, sociais (não há escravo nem livre), étnicos (não há judeu nem grego) e de gênero (não há homem nem mulher). Em outras palavras, o conflito presente nas igrejas da Galácia necessita de um projeto além-fronteiras, que aprofunde na comunidade o espírito de igualdade, liberdade e justiça, capaz de derrubar as barreiras da indiferença, da marginalização e da escravidão.

Na organização das comunidades, Paulo recorda o Evangelho que anunciou quando esteve na região da Galácia e o quanto é motivo de alegria a perseverança e o entusiasmo com que viviam a nova vida em Cristo. Depois de sua partida, porém, as igrejas da Galácia receberam missionários judeu-cristãos que não só anunciaram um Evangelho diferente, como também impuseram a Lei mosaica como critério. A carta revela, nas entrelinhas, que muitas pessoas nas igrejas aceitaram essas propostas e foi instalada a divisão das igrejas da Galácia.

O discurso da unidade e o resgate do elemento fundamental da identidade e da existência da comunidade cristã são apresentados por Paulo numa mistura entre indignação e ternura para com a comunidade. Por isso, na primeira parte da carta, o apóstolo se pauta pelos exemplos e testemunhos: como se comportava antes no judaísmo, como perseguidor e com extremo zelo pelas leis e tradições, e como Deus o separou e o chamou pela graça para anunciar a Boa Notícia entre as nações (1,11-16); suas viagens missionárias (1,17-24); o período do Concílio em Jerusalém (2,1-10); como manteve sua posição contra Pedro e em favor do Evangelho (2,11-14). Na carta, Paulo apontou fatos conflituosos na história dos cristianismos originários e seu intento de denunciar os grupos missionários que estavam gerando divisão e destruindo o trabalho que fora realizado. A lembrança do concílio demonstra à comunidade o quanto os missionários que se infiltraram nas igrejas da Galácia estavam indo contra as determinações e acordos estabelecidos em Jerusalém.

Paulo e outros helenistas missionários estavam abrindo as fronteiras na direção dos gentios, anunciando o Evangelho (1,15; 2,2.8-9; 3,8.14). Nessa proclamação, era pregado que também os gentios eram justificados pela fé. O apóstolo sugeriu que era na vida da comunidade livre e igualitária, que vivia no e pelo Espírito, portanto, unida e dinâmica, que estava a saída. Então, se comunidades de outros cristianismos originários elaboraram e emprestaram o texto batismal a Paulo, agora os gálatas precisavam interrogar suas vidas, espelhando-se no mesmo hino de Gl 3,26-28 (FERREIRA, 2017, p. 111).

O conflito eclesial, teológico e missionário que aparece nas igrejas da Galácia está espelhado no conflito entre o Evangelho da cruz, anunciado por Paulo, o Evangelho das ritualizações judaicas e o Evangelho itinerante entre as comunidades, defendido pela comunidade de Jerusalém. A postura radical de Paulo, em sua carta às igrejas da Galácia, nega a relação do Evangelho de Cristo com qualquer variante que implique pertença a grupos de poder (“Cristo e a Lei”, “Cristo e a circuncisão”, “Cristo e a raça”, “Cristo e o imperador”). Essas variantes negam o Evangelho (ah, quantas variantes hoje, no Brasil, negam o princípio cristão e o Evangelho!) e, certamente,

a cruz desqualifica qualquer “e…” que se queira acrescentar ao Evangelho ou qualquer distinção que se queira introduzir entre os seres humanos. A cruz não traz nem admite prestígio, nem sabedoria, nem riqueza, nem orgulhos raciais. A cruz era o modo de morte dos escravos e rebeldes, a mais denigridora das condenações, a condenação própria dos malditos. Portanto, é incompatível com qualquer pretensão de poder, com qualquer sinal de mérito (MÍGUEZ, 1995, p. 25).

3. Escravidão x liberdade

Refletimos até aqui sobre um primeiro ponto de conflito: os diferentes e divergentes Evangelhos anunciados nas comunidades. Estas se encontram diante da escolha entre o Evangelho anunciado com base nos ensinamentos e na memória de Jesus crucificado e ressuscitado e o Evangelho da glorificação, imposta pelas alianças de poder naquela região, tão marcada pela realidade de escravidão e opressão e pela liberdade daqueles que têm garantida a cidadania aos olhos do império. Para a imposição de um Evangelho adequado aos propósitos imperialistas e à lógica do poder, colaboram os mecanismos de “pureza e santidade” advindos da tradição judaica. Essa questão produziu grande divisão não só entre as comunidades de Jerusalém e de Antioquia, mas também (e sobretudo) nas comunidades na região da Galácia. Na leitura da carta, percebemos a defesa apaixonada dos princípios da liberdade e da vivência da unidade nos espaços cotidianos da comunidade, aspectos que sabemos não serem tão fáceis de encontrar na caminhada das comunidades, marcadas por uma herança hierárquica e patriarcal. Comunidades que estão caminhando segundo uma proposta que exclui mulheres, pobres, crianças, impuros, estrangeiros e escravos. Ou seja, todos aqueles e aquelas que eram impedidos de estar na comunidade e de conviver como irmãos.

É notório que a liberdade tem grande importância na carta aos Gálatas, escrito que nos deixa entrever que os trabalhadores e os empobrecidos naquela região estavam privados dela e dos mínimos direitos para viver dignamente. Também estavam marcados na esfera religiosa por uma escravização da Lei, com seus rigorismos e a lógica da santidade e pureza, a qual aumentava ainda mais a distância entre ser escravo e viver uma vida livre, conforme a proposta do Reino e sua justiça. O trecho de Gl 5,1-6 representa belo texto para a comunidade, pois apresenta a liberdade na dimensão da graça e do espírito. Paulo argumenta com base no Evangelho de Jesus, recusando uma leitura alicerçada na Lei mosaica. Para os pobres que se encontravam na escravidão, os preceitos e leis judaicas reforçavam a manutenção daquelas condições. A liberdade vista somente pelo prisma religioso não era garantia que os empobrecidos viriam a ser livres na esfera econômica e social.

Havia uma distância muito grande entre ser escravo e ser livre na sociedade greco-romana (vale lembrar que o Império Romano vivia da escravidão). O sujeito que era livre tinha cidadania e estava na mesma classificação de senhor. Participava da organização social e tinha direitos e deveres naquela sociedade. Já o escravo não tinha nenhum direito. Pensando na conjuntura das igrejas da Galácia, recordemos como as pessoas se tornavam escravas naqueles tempos. Se a pessoa havia praticado algum crime, a escravidão era uma forma de castigo e punição. Também a pessoa que já nascia numa família de escravos tinha na escravidão sua herança. A forma mais promovida pelos romanos era a escravidão por dívidas e guerras. Determinada cidade, ao perder uma guerra, via seus habitantes serem transformados em prisioneiros e escravos, ou a pessoa vendia seus filhos como forma de pagar dívidas. Imaginemos o quanto essa realidade estava presente na região da Galácia, com as inúmeras conquistas e ações do Império Romano.

Havia escravos destinados aos serviços na agricultura, nas minas e nas pedreiras. Na expansão econômica romana, foi fundamental a utilização de escravos nas construções de estradas. Também havia contingente de escravos nos serviços administrativos e nos trabalhos domésticos. A vida das igrejas da Galácia era marcada pelo grande número de escravos na região, e estes figuravam entre os pobres que deviam ser lembrados no projeto da comunhão e partilha comunitária (Gl 2,10 e a coleta dos pobres). As admoestações da carta aos Gálatas apresentam, em linhas gerais, uma reflexão sobre as divisões produzidas nas igrejas pelo outro Evangelho, baseado nas leis judaicas. É, porém, intrigante e questionador que Paulo utilize expressões como escravidão e liberdade e ressoem como alegorias as imagens de Sara e Agar. Cumpre ter presente que a afirmação em Gl 5,1 (“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Fiquem firmes, portanto, e não se deixem prender de novo ao jugo da escravidão”), que abre o conjunto dos capítulos 5-6, é, no mínimo, provocativa. Evoca, por trás das palavras, a dura realidade da região marcada pela escravidão. O projeto de liberdade é importante para a militância e para a luta por transformação social nas comunidades. A comunidade não pode caminhar, celebrar, viver o Evangelho e a comunhão entre irmãos e irmãs sem enfrentar as desigualdades sociais, o empobrecimento e a escravidão.

Uma palavra final

A leitura pastoral da carta aos Gálatas nos desafia a enfrentar os problemas e conflitos em nossas comunidades nos mais variados aspectos e lançar as apostas no compromisso da comunidade com a defesa da vida fragilizada pelos modelos e esquemas deste mundo, que escravizam e destroem tudo e todos. Quase no final da carta, a certeza que Paulo queria que as igrejas da Galácia transmitissem: “Nem a circuncisão nem a incircuncisão valem nada, e sim a nova criatura” (Gl 6,15). Essa certeza teremos de construir para nossos dias, na luta contra o sistema econômico, político, social e religioso que está matando a todos e destruindo tudo. O poder religioso, o capital, o poder político, os projetos e alianças dos governos nos parlamentos não valem nada, e sim a nova criatura. Seguindo essa regra, construiremos um mundo diferente.

Referências bibliográficas

FERREIRA, Joel Antônio. Abertura de fronteiras: a universalidade do Evangelho (Gl 3,26-28). Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, São Bernardo do Campo: Metodista, v. 76, n. 3, p. 105-123, 2017.

IZIDORO, José Luiz. Introdução às cartas de Paulo aos Gálatas. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, São Bernardo do Campo: Metodista, v. 76, n. 3, p. 13-22, 2017.

KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus, 2005. v. 2.

MACKENZIE, J. L. Dicionário bíblico. São Paulo: Paulus, 1993.

MÍGUEZ, Nestor. Paulo, o compromisso da fé. Para uma “vida de Paulo”. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis: Vozes, São Leopoldo: Sinodal, p. 7-29, 1995.

______. Conflito e liberdade: Gálatas 2,11-14 e as lutas intraeclesiásticas. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, São Bernardo do Campo: Metodista, v. 76, n. 3, p. 149-161, 2017.

O’CONNOR, J. M. Paulo: biografia crítica. São Paulo: Loyola, 2000.

SAMPLEY, J. Paul (Org.). Paulo no mundo greco-romano: um compêndio. São Paulo: Paulus, 2008.

Rafael Rodrigues da Silva*

*biblista, integrante da direção nacional do Cebi, professor da Universidade Federal de Alagoas, campus Arapiraca. E-mail: raphaelli.puc@caminheirodoreino

Vida Pastoral

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