A Vocação à Família e o Pão que vem do céu

Por Karina Moreti

Neste domingo, temos em nossa Liturgia vários motivos para celebrar. O segundo domingo do mês de agosto é o dia dos pais. É neste domingo, em um viés vocacional, que se celebra a vocação matrimonial, isto é, à família. A Igreja tem se revestido de especial preocupação no que se refere às famílias. Recentemente, nosso amado Papa Francisco – na exportação apostólica Pós-sinodal AMORIS LÆTITIA, brindou-nos com magistral reflexão sobre o amor na família. A Igreja deve se valer da família como primeiro lugar para a evangelização.

A Alegria do Amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio – como foi observado pelos Padres sinodais – «o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja».  Como resposta a este anseio, «o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia». (AL, 1)

Neste sentido, trazemos para o Altar do Senhor súplica e louvor por todas as famílias, entendendo que não só de desafios se vive a construção da Igreja doméstica, mas de muitas vitórias ao longo da história. É de esperança nosso canto. Por uma Igreja comprometida com a vocação de anunciar o Evangelho com a própria vida, sendo – enquanto família – sinal de Cristo, amor que nunca morre.

Na Liturgia da Palavra, acompanhamos nestes domingos o discurso sobre “o pão da vida” (Jo 6). Este se faz uma catequese eucarística, em Cafarnaum (Jo 6,24-25). Como pano de fundo inspirador a esta catequese temos a multiplicação dos pães (Jo 6,1-14).

A perícope do Evangelho deste dia se inicia com a “murmuração” dos judeus (v. 41), porque Jesus se proclama um pão descido do céu. Podemos perceber certa proximidade do agir deles com as reclamações por alimento na saída do Egito (Ex 16,2). Atitude considerada, na tradição judaica, como falta de fé. Neste sentido, o texto evangélico nos apresenta uma oposição desses interlocutores contra Jesus, por causa da identidade dele. Só conseguem ver a partir da luz humana: “Este não é Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe?” (v. 42). Desconhecem e, assim, desconsideram a natureza divina de Jesus.

As palavras de Jesus não têm como objetivo advertir os judeus para que mudem sua postura. Não repete os acontecimentos posteriores ao Êxodo (cf. Nm 14). Ensina que as pessoas que vão até ele são atraídas pelo Pai, a quem os judeus chamam de Deus. Jesus ressuscitará esses fiéis no último dia (v. 44). Esta é a promessa. Por não acolher a mensagem dele não conhecem o Pai, não estão em comunhão com ele.

Uma vez que alguém acredita na mensagem de Jesus, revela-se o sentido pleno da palavra da Escritura: “Todos serão discípulos de Deus” (v. 45; cf. Is 54,13; Jr 31,33-34). Quem ouve a voz de Deus e dele aprende vai a Jesus, pois ele foi enviado pelo Pai. A propósito, os judeus queriam muito ver a Deus. Ninguém jamais o viu. Só Jesus, que vem de junto do Pai, é quem o viu e o revelou àqueles que creem (Jo 1,18).

O fragmento do texto evangélico de hoje conclui com a afirmação de Jesus de que quem nele crê tem a vida eterna (Jo 3,15.16.36). Jesus é o pão da vida! Os antepassados dos interlocutores dele comeram o maná no deserto e morreram por lá. O maná saciava apenas a matéria, que se deteriora com o tempo. Jesus é um alimento que vem de Deus (desce do céu) para gerar vida eterna em quem dele se aproxima. Ele não apenas dá a vida, mas possui a vida em si mesmo (Jo 1,4; 5,26). Ele é a própria vida (cf. Jo 14,6).

Jesus conclui de forma específica e sintética seu ensinamento, explicitando qual alimento oferece. O pão vivo que desceu do céu é sua carne para a vida do mundo (v. 51). A palavra “carne”, preciosa para João (1,14), designa a realidade humana com suas possibilidades e fraquezas (Jo 3,6; 8,15). A humanidade de Jesus, sua existência terrena e o mistério de sua vida são oferecidos para que quem nele crê possua a vida eterna.

Teologicamente, podemos compreender que a Eucaristia dada por Jesus e celebrada por nós é o memorial dessa entrega que culminou na cruz. Cada vez que comungamos do pão “eucaristizado”, estamos acolhendo o dom de sua vida, entregue por amor a cada um de nós. Esse alimento gera a vida eterna em nós e nos conduz à eternidade definitiva para a qual fomos criados.

Nossa existência é marcada por momentos bons. Outros, nem tanto. A dinâmica da vida nos exige sabedoria para lidar com as variações e as surpresas que nos vêm. No cotidiano de nossos pegues e pagues da vida, somos chamados a ser sinal deste Pão do Céu que é Jesus. Vivendo em nossas comunidades, devemos comungar do Pão Eucarístico e da vida de nossos irmãos e irmãs. Com Cristo e em Cristo, sejamos Igreja do Pão. “Do Pão repartido e do abraço e da paz.”

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