O hino batismal (Gl 3,26-28): Chave para a leitura da Carta aos Gálatas

Por Joel Antônio Ferreira*

Introdução

Gostamos de ler a carta aos Gálatas começando pelo “hino batismal” (Gl 3,26-28).

De forma esquemática, eis os acontecimentos que estão na origem dessa carta:

1) Paulo havia evangelizado a Galácia (região da atual Turquia).

2) As comunidades, por um bom tempo, caminharam muito bem na fidelidade ao Evangelho.

3) Um fato inesperado: alguns judaizantes foram, depois, à Galácia pregar um Evangelho diferente, ou seja, baseado na Lei e nos costumes do judaísmo.

4) Várias pessoas evangelizadas por Paulo aderiram à pregação dos judaizantes.

5) Algumas pessoas fiéis mandaram notícias a Paulo, falando da divisão.

6) O apóstolo ficou indignado.

7) Escreveu a carta, demonstrando sua revolta.

É uma carta bem conflituosa. Para pedir aos gálatas que revissem suas posições, Paulo contou que também em outras experiências cristãs originárias aconteceram muitas tensões. Disse que só existia um Evangelho (1,6-10), para já ir mostrando que os judaizantes não foram leais. Descreveu a revelação e o chamado recebido de Jesus Cristo e revelou que sua vocação era evangelizar os gentios (1,11-17). Narrou o encontro com a igreja de Jerusalém (Pedro, Tiago, João). Apontou as decisões positivas sobre a questão da circuncisão e abertura aos gentios (1,18-2,10), indicando que estes não precisavam ser circuncidados.

Outro conflito (lei do puro/impuro) estava criando barreiras. Em Antioquia (2,11-14) vivenciava-se excelente momento comunitário durante as refeições, nas quais se reuniam gentios (v. 12b), circuncisos (v. 12d) e judeu-cristãos (v. 13a). No entanto, foram para lá, vindos de Jerusalém, da parte de Tiago (v.12a), alguns cristãos que eram contra aquelas experiências. A reação foi forte: Cefas (v. 11), Barnabé (v. 13) e outros judeu-cristãos, com hipocrisia, retraíram-se com medo e agiam com fingimento.

Os gálatas que “pularam” para o lado dos judaizantes precisavam ouvir sobre as tensões. Depois, Paulo desenvolveu, com fundamentações bíblicas, questões sobre a fé, a unidade em Cristo, a abertura de fronteiras para os gentios e a liberdade cristã (Gl 3-4). Apresentou a vida no Espírito e mostrou que o campo de ação do Espírito é a comunidade (5-6,10). Na conclusão (6,11-18), frisou que a mística da liberdade leva à nova criação, ou seja, a viver no espírito do Crucificado.

Apesar dos conflitos, Paulo não perdeu sua mística, o transpirar Jesus Cristo pelos poros: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo. É Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20).

1. Hino batismal como abertura de fronteiras

Eis a chave principal para entrar na carta aos Gálatas (3,26-28):

26Pois todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. 27Pois quantos de vós fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. 28Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem e mulher: pois todos vós sois UM só em Cristo Jesus.

É um hino batismal conhecido no cristianismo originário, anterior a Paulo. Trata-se do fragmento de um credo conhecido pelas comunidades (BETZ, 1988, p. 184-186). Ao citar a fórmula já celebrada por outros grupos cristãos, o apóstolo demonstrou ter entendido a proposta e abraçado a causa na opção pelos gentios, na preocupação com os escravos e na emancipação feminina. No pequeno hino se percebe que as questões étnicas, sociais e de gênero foram bem interligadas (BAUMERT, 1999, p. 10ss).

A confissão batismal apareceu em quatro textos (Gl 3,26-28; 1Cor 12,13; Rm 10,12; Cl 3,11). Há um consenso entre os comentaristas de que em Gálatas está o texto quase original. As diferenças têm sua explicação nos destinatários diferentes, com situações vitais diversas. Eis a sinopse (FERREIRA, 2005, p. 90):

Gl 3,26-281Cor 12,13Rm 10,12Cl 3,11
Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus
Pois todos vós fostes batizados em Cristopois fomos todos batizados num só Espírito, para ser um só corpo
vos vestistes de Cristo
Não há judeu nem grego,judeus e gregosnão há distinção entre judeu e grego.Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita,
não há escravo nem livre,escravos e livresescravo, livre,
não há homem e mulher.
Pois todos vós sois um só em Cristo Jesuse todos bebemos de um só espíritoPois ele é o Senhor de todosmas Cristo é tudo em todos

A reflexão parte de Gl 3,26-28, por ser o texto mais original. É preciso perceber que as três afirmativas se conformam às exigências do batismo e da fé em Jesus Cristo.

ekklesía (Gl 1,2) movia-se no Espírito de Jesus Cristo. O hino foi dirigido a ela (“vós”). Os membros da ekklesía eram “filhos de Deus pela fé”, “batizados” e “revestidos”. Todos podiam superar as divisões: “judeu/grego”, “escravo/livre” e “homem/mulher”, porque todos eram “UM só”. Isso era possível por causa de “Cristo Jesus”, citado quatro vezes. O hino batismal apresenta três prioridades de acordo com as quais os cristãos devem se mover no espírito comunitário.

1.1. “Não há judeu nem grego”: rompimento com nacionalismos radicais e com dogmatismos religiosos e culturais

A proposta do hino batismal, assumida por Paulo, anunciava a abertura de fronteiras no âmbito racial, com extensão para o religioso e o cultural.

O “judeu”: desde o pós-exílio, com a definição do judaísmo como a religião judaica, havia a afirmação de ser um povo escolhido por causa da aliança com Deus. Com Esdras aflorou um nacionalismo que privilegiava os judeus e excluía os estrangeiros da vida da nação (Esd 9-10). Essa linha perpassou a história dos judeus até os tempos de Jesus, porém essa postura nacionalista não era unanimidade.

O “grego”: não se refere à enorme civilização grega, com sua filosofia que penetrou o mundo, nem à cultura e ao modo de viver dos cidadãos gregos. Aliás, os gregos também tinham seus preconceitos, porque muitas vezes consideravam outros povos como bárbaros (Rm 1,14; Cl 3,11). Aqui no hino, “grego” se refere aos gentios espalhados pela civilização grega e pelo Império Romano.

Nas primeiras décadas após o “evento Jesus”, as comunidades cristãs eram judias. Entre as várias tendências dentro do judaísmo, existiam os grupos populares (simples e humildes) ou judeu-cristãos: antigos apóstolos, discípulos, mulheres, os que acompanharam Jesus desde a Galileia, a periferia de Israel. Parece, contudo, que Tiago, irmão do Senhor, era de uma linha que levava a sério a lei do puro/impuro e, por conta disso, evitava os estrangeiros (Gl 2,11-13). Outro grupo, os helenistas (Estêvão, Barnabé, Paulo e outros) partiram para outras regiões (FERREIRA, 2005, p. 104).

1.1.1. Os gentios escutaram o Evangelho

A partir daí, entre 40 e 68 d.C., o Evangelho foi proclamado nas cidades e adentrou muitas partes do império. Os gentios de várias culturas foram aderindo ao seguimento de Jesus Cristo. Antioquia foi se tornando a referência, e foi ali que os seguidores dele foram chamados, pela primeira vez, de “cristãos”.

O grupo helenista abriu-se para os gentios e se inculturou, respeitando os valores, costumes e cultura dos gregos (gentios). O Evangelho estava se encarnando em outras culturas. A evangelização foi avançando pela Ásia Menor e Europa (Gl 2,9). O que, parece, atraiu tantos gentios foi o entendimento de que eles podiam seguir o Evangelho de Jesus Cristo e continuar com suas identidades culturais.

1.1.2. Judaísmo, judeu-cristãos, judaizantes e a unidade

Como o hino batismal afirmou que “não há judeu nem grego”, é preciso clarear alguns conceitos.

O “judaísmo” era e é a religião dos judeus, desde os tempos do pós-exílio da Babilônia. Os helenistas não tiveram problemas com o judaísmo. Paulo estava convencido de que o judaísmo era querido por Deus (Rm 3,1-4a).

Os “judeu-cristãos” eram os fiéis que haviam pertencido à tradição do judaísmo. Sugere-se que os judeu-cristãos eram os de visão mais popular e aberta, na linha dos pobres e humildes de Yahweh. As polêmicas que aparecem na carta aos Gálatas não foram contra os judeu-cristãos. Estes se abriram à evangelização dos gentios (Gl 2,9) e se assentavam à mesa com todos.

Os “judaizantes” surgiram como grupo que provocou muitos conflitos. Eram cristãos que passaram pela tradição do judaísmo (Gl 1,7-22), talvez mais ortodoxo, e agora viviam a experiência cristã. Na sua missão, os judaizantes comportavam-se como se ainda fossem do judaísmo, sustentando que os gentios deviam se circuncidar (Gl 5,2-12) e praticar a lei do puro/impuro (Gl 2,11-14). É por isso que o apóstolo os acusou de estarem pregando um Evangelho diferente (Gl 1,9).

A carta aos Gálatas é bem conflituosa: da parte dos judaizantes, os gentios deveriam se converter ao cristianismo, com a condição de observarem a lei do puro/impuro e praticarem a circuncisão. Da parte de Paulo, os gentios evangelizados deviam viver a fé em Jesus Cristo, não precisando se circuncidar, mas, com liberdade, assentar à mesa para as refeições e para a Eucaristia com todos/as.

Diante das divisões, foi escrita a “carta da unidade em Cristo” (Gl 3,28d), baseada no hino batismal. Com ela, descerraram-se duas portas: a da abertura clara e decidida do Evangelho para as nações e a do papel da fé em Jesus Cristo. O Evangelho único é o de Cristo (Gl 1,6-9). A assembleia de Jerusalém (Gl 2,1-12) clareou a abertura para judeus e gregos e o respeito às diversidades. No projeto de toda a ekklesía, os judeu-cristãos e os gentio-cristãos deveriam conviver como membros vivos da mesma fraternidade, respeitando o que era próprio de cada cultura (Gl 5,13-26).

1.1.3. Intolerância religiosa ontem e hoje

A intolerância religiosa manifestou-se na assembleia de Jerusalém, com os espiões da liberdade (Gl 2,4), repetiu-se em Antioquia (Gl 2,11-14) e efetivou-se na Galácia, com os judaizantes (Gl 1,6-7). Com isso, criou-se um clima de intolerância religiosa (lei do puro/impuro) e racial (gentio não podia comer com judeu-cristão).

Na história, os dogmatismos (aferramentos a ritos e normas) são sempre perigosos, porque conduzem ao fechamento em si mesmo. Tornam-se fundamentalistas e sectários. O clima de intolerância religiosa (lei do puro/impuro) e racial (gentio não pode comer conosco) tantas vezes é repetido com outros rituais religiosos e posturas autoritárias que censuram, provocam medo e insegurança nos grupos subalternos. Os dogmatismos sentenciosos podem matar, até em nome de Deus.

1.2. “Não há escravo nem livre”: rompimento com a escravidão

As sociedades greco-romanas eram organizadas em torno das diferenças entre os livres e os escravos. O Império Romano se mantinha pelo “modo de produção escravagista”. Havia a presença romana civil em todo o império com o “patronato” (CROSSAN; REED, 2007, p. 272-273) e com os contingentes militares atuantes em todas as partes.

Com exceção de antigas famílias ricas, que moravam em terras tomadas pelos romanos e aderiram ao sistema imperialista, a grande maioria da população era escrava. A maior parte dos habitantes cuidava da agricultura, o campo tinha de produzir. Grande parte dos escravos do império era obrigada a trabalhar nas minas subterrâneas (carvão, minério precioso), em péssimas condições. Os escravos das pedreiras despendiam enorme força física para dar suporte às grandes construções. Nas cidades, os escravos mais preparados culturalmente serviam as autoridades e as famílias de elite, exercendo atividades educativas, administrativas, nos banhos públicos, nos aquedutos. Os/as escravos/as domésticos/as dependiam do humor dos seus senhores e das tarefas que lhes eram confiadas (FERREIRA, 2005, p. 110).

O império, em nível administrativo e militar, era completíssimo (STEGEMANN; STEGEMANN, 2004). Cada localidade tinha de garantir e sustentar as forças militares: alimentação dos inumeráveis soldados, limpeza e manutenção dos uniformes, higiene dos quartéis. No nível agrário, a contradição se explicitava no consumo dos milhares de soldados das legiões. As colônias, além de mantê-los, repassavam os excedentes de produção ao sistema romano. Este sugava quase tudo das colônias.

1.2.1. Luta contra a escravidão ontem e hoje

Paulo tomou várias atitudes, em oposição ao sistema escravagista, para trazer os escravos às experiências cristãs da igualdade: em Gálatas, denunciou o desrespeito à liberdade (Gl 2,4) e gritou pela liberdade em Cristo (Gl 5,1.15); toda a carta aos Coríntios é uma opção pelos “fracos, vis e desprezados” (1Cor 1,26-29) e um alerta para que “não vos torneis escravos dos homens” (1Cor 7,22-23); o apóstolo se revoltou com alguns ricos da comunidade que, na celebração da ceia do Senhor, discriminavam os pobres (1Cor 11,17-38), provavelmente escravos (FERREIRA, 2013, p. 135-141); liderou grande coleta nas igrejas para ser destinada aos miseráveis de Jerusalém (2Cor 8,13-14); na libertação do escravo Onésimo, desautorizou o escravagismo romano.

No Brasil, a vergonhosa escravidão análoga sempre existiu, oficiosamente. Ela está na região “urbana” (indústria têxtil/costura e canteiros de obras), na “construção civil” e na “zona rural”. De 1995 a 2016, houve reações jurídicas e religiosas contra a escravidão análoga. Foram criados os Grupos Especiais de Fiscalização Móvel (GEFM) que conseguiram efetuar centenas e centenas de “resgates” de seres humanos em condições escravas. Entidades religiosas (CNBB, CPT, Cimi, Conic) têm gritado pela libertação dos escravos análogos no Brasil. Depois de muitas vitórias libertadoras, no governo Temer (2016-2018), aliado da bancada ruralista, verificou-se o retorno pesado da escravidão no Brasil. Os grupos jurídicos e religiosos, porém, não se acomodaram, baseando-se na Constituição, que assegura a inviolabilidade: “Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante” (art. 5º, inciso III).

1.3. “Não há homem nem mulher”: rompimento com o patriarcalismo

Na língua original do hino não se falou em “homem” e “mulher”. No grego, “homem” se diz aner. O hino falou de ársen, que significa “macho, masculino”. “Mulher”, em grego, é gyné. No hino, porém, foi empregada a palavra thelys, cujo significado é “fêmea, feminina”. O hino batismal, portanto, está dizendo que “não há macho (masculino) nem fêmea (feminina)” (VANHOYE, 1985). Possivelmente, os autores do hino usaram “macho/fêmea” (masculino/feminino) por causa da situação constrangedora em que viviam as mulheres naquele tempo.

Usaremos a expressão “não há homem nem mulher” como todas as traduções em português decidiram usar.

1.3.1. Casa (oikía): origem das comunidades femininas

No mundo hebraico/israelita, na esfera religiosa, as experiências domésticas devem ser salientadas historicamente. No templo e nas sinagogas, as mulheres eram marginalizadas. No entanto, as celebrações domésticas constituíam uma força para o avivamento da família, e aí a mulher tinha seu espaço. Era o momento primário para a transmissão da fé. A família, de manhã, à noite e também nas refeições, tinha o momento de oração. Muitas vezes, isso cabia à mulher. Havia algumas festas realizadas na casa: Sukkot (festa das Tendas no jardim da casa); Shavuot (festa das Semanas); a decoração das casas com flores: Hanukká e Purim; a festa mais significativa, a Péssah (Páscoa), acontecia também na casa de cada família. Na casa, as mulheres tomavam as iniciativas.

Os inícios do cristianismo se deram dentro do judaísmo. Muitas mulheres judias se tornaram cristãs. Com isso, a prática judaica familiar ajudou as experiências cristãs. As igrejas domésticas cristãs deveram muito às experiências
hebreias. A casa é onde quase tudo se inicia.

As mulheres cristãs, no início, rezavam e formavam-se (catequese) dentro da casa. Aqui se podia falar, cantar, louvar a Deus, celebrar a Escritura e chamar as vizinhas para celebrar a vida do povo. Como os cristianismos originários foram se abrindo para os gentios, ampliaram-se as relações sociais e religiosas. Foram surgindo líderes cristãs. Algumas saíram do ambiente doméstico para anunciar o Evangelho fora das casas.

1.3.2. Lideranças femininas no hino batismal

Certamente, quem conseguiu que a asserção “não há homem e mulher” entrasse no hino batismal foram mulheres que já eram protagonistas em algumas comunidades.

Há na Bíblia várias alusões às líderes cristãs, a partir da “casa” (BRANICK, 1994): Júlia, sua irmã (Rm 16,15); Ápia (Fm 1,1-2); Lídia em Filipos (At 16,15). Nas casas, as mulheres iam encontrando seu espaço para exercer as funções de líderes das igrejas.

As mulheres percebiam que podiam participar da vida comunitária, sem nenhuma repreensão contra elas. O salto para a liberdade comunitária em Jesus Cristo as foi levando à clareza sobre a igualdade com os irmãos masculinos. Mulheres e homens caminhavam juntos, com igualdade (FERREIRA, 2015, p. 105-118).

O apóstolo aludia às líderes com muito carinho e afeição. Aos filipenses, referiu-se a duas líderes: Evódia e Síntique, porque elas “lutaram a meu lado pelo Evangelho” (Fl 4,2-3). A Filêmon, fez alusão “à nossa irmã Ápia” (Fm 1,2). Aos coríntios, lembrou-se da casa de Cloé (1Cor 1,11), de Priscila e seu esposo, Áquila (1Cor 16,19). Aos romanos, falou: “Recomendo a vocês Febe, a nossa irmã, diaconisa da comunidade de Cencreia” (Rm 16,1-2). Saudou Priscila e Áquila (Rm 16,3-5). Referiu-se a Maria (Rm 16,6). Aludiu a um casal: “Saudai Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão” (Rm 16,7). Saudou três mulheres: “Trifena e Trifosa, que se afadigaram… Pérside, que muito se afadigou no Senhor” (Rm 16,12). Referiu-se a uma mãe: “Saudai a Rufo, este eleito do Senhor, e sua mãe” (Rm 16,13). Lembrou-se de duas mulheres: “Saudai Filólogo e Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas” (Rm 16,15).

1.3.3. Cristãs da base ontem e hoje

Paulo partiu da base. Se esta era unida em torno do Cristo Jesus, então o hino era Palavra de Deus. Na base ocorria a comunhão entre mulheres e homens. Os cristianismos originários foram se clareando em nível de gênero, porque a declaração batismal forçou as rupturas androcêntricas (FABRIS; GOZZINI, 1986). A experiência de igualdade levou várias mulheres a assumir lideranças de igreja. Como o batismo transforma os membros do povo de Deus, as mulheres (judias e gentias) se tornaram “sujeitos” e “protagonistas”, sendo impulsionadas para a evangelização. Hoje, se olharmos as comunidades eclesiais de base, a maioria dos participantes, quase sempre, são mulheres. O papa Francisco tem lembrado que as mulheres são protagonistas de uma Igreja em saída.

Conclusão: “Todos vós sois UM SÓ em Cristo Jesus” (Gl 3,28d) – ontem e hoje

O hino afirma que “todos” foram “batizados” e “vestidos”. A identidade se inicia, pela fé, com o batismo. Este aproxima gentios, mulheres, escravos, livres, homens, judeus, porque “todos vós sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus”, e “todos vós sois UM só em Cristo Jesus”. Acabaram os privilégios. Na ekklesía se realizam as experiências da liberdade e da igualdade entre os irmãos. Tudo e todos se transformam por causa da “unidade” (UM SÓ) em Jesus Cristo.

As pequenas comunidades cristãs rompiam com as discriminações e intolerâncias. Todos os “filhos de Deus” eram chamados à experiência do amor (Gl 5,13-14). O hino batismal é um apelo à unidade, e toda a carta aos Gálatas é uma conclamação à comunhão.

Olhando o contexto vital atual e o Mês da Bíblia, perguntemo-nos: que barreiras alguns cristãos constroem hoje, provocando a desunião? Seria bom que cada leitor/a olhasse os muitos dados positivos da unidade eclesiológica entre nós.

Referências bibliográficas

BAUMERT, Norbert. Mulher e homem em Paulo. São Paulo: Loyola, 1999.

BETZ, Hans-Dieter. Galatians: a commentary on Paul’s letter to the churches in Galatia. Philadelphia: Fortress Press, 1988.

BRANICK, Vincent. A igreja doméstica nos escritos de Paulo. São Paulo: Paulus, 1994.

CONSTITUIÇÃO da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.

CROSSAN, J. D.; REED, J. L. Em busca de Paulo: como o apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Império Romano. São Paulo: Paulinas, 2007.

FABRIS, Rinaldo; GOZZINI, Vilma. A mulher na Igreja primitiva. São Paulo: Paulinas, 1986.

FERREIRA, Joel Antônio. Gálatas: a epístola da abertura de fronteiras. São Paulo: Loyola, 2005.

______. Primeira epístola aos Coríntios. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

______. Religião e gênero. Paralellus, Recife, v. 6, n. 12, p. 105-118, jan./jun. 2015.

STEGEMANN, Ekkhard W.; STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo: os primórdios do judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Leopoldo: Sinodal, 2004.

VANHOYE, A. La lettera ai Galati. Roma: PIB, 1985. v. 2.

Joel Antônio Ferreira*

é doutor em Sagrada Escritura pela Umesp e pós-doutor pela Georgetown University de Washington D.C. É professor titular em Ciências da Religião na PUC-Goiás e assessor bíblico de comunidades populares. E-mail: joelantonioferreira@hotmail.com

Fonte: Vida Pastoral

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