O Pão da Vida, a Vida do Povo

Por Hermes de Abreu Fernandes

Iniciamos o mês de agosto. Tempo forte para a Igreja, no qual, rezamos, celebramos e refletimos sobre as vocações. O chamado de Deus nos é dirigido a todos. Em uma Igreja de espiritualidade Pascal, os ministérios todos se fazem fecundos e necessários para o caminhar da comunidade cristã. Todos unidos em grau de essencial importância para o anúncio do Reino de Deus.

O tema central de nossa Liturgia hoje é o Pão da Vida. Jesus se faz alimento para a caminhada cristã. Este caminhar, sustentado pelo Pão e inspirado pela palavra, anuncia e preconiza o Reino. Como nos anima o cancioneiro cristão, “Somos a Igreja do Pão, do Pão repartido e do abraço e da paz”. Uma Igreja que vive pelo Pão da Vida, enraizada na Vida do Povo.

I leitura: Ex 16,2-4.12-15

Animados pela confiança na promessa de Yahweh, o Povo de Deus se encontrava no deserto, rumo à Terra Prometida, após a libertação do cativeiro Egípcio. Depois de longo caminhar, a carestia que viviam em sua jornada leva à murmuração contra Moisés e Aarão. Já sentiam falta dos alimentos do Egito. Mesmo como escravos, não lhes faltavam. Chegam à ingrata palavra de que preferiam morrer escravos no Egito do que padecer livres no deserto (cf. Ex 16,2-3). Nas palavras do povo fica-nos a certeza de que este era ingrato. A ação divina perde seu brilho, face à nostalgia da estabilidade anterior. Mesmo como escravos. Não haveria preço para a Liberdade? Este processo de ingratidão face ao bem que se nos é feito não é incomum, mesmo em nossos dias. Yahweh abandonou seu povo? Era infundada sua esperança?

Em reposta ao clamor, o Senhor lhes promete um pão que viria dele mesmo, do céu. Não obstante a ingratidão, as murmurações, Yahweh vem em socorro. Reforçando sinais de sua aliança. O Deus que os libertou, não lhes deixará faltar o alimento. Não só a liberdade lhes foi oferecida. Coube, ainda, atenção às súplicas e cuidado. Quão grandioso é o Deus de Israel, Yahweh!

Veio o Maná (cf. Ex 16,4). Vieram codornizes. Sem se saber como, ou de onde. Assim o foi (cf. Ex 16,12). Claro que a exegese tem alguns postulados sobre estes sinais, todavia, não se retira a forte presença da ação divina. Aqui cabe lembrar que o Maná será citado em outros textos bíblicos como alimento maravilhoso, fruto da solicitude de Deus (cf. Sl 105,40; 78,24-25; Ne 9,15; 9,20; Sb 16,20-21). As codornizes simbolizam o deleite. O Povo de Deus estava saciado de sua fome. Havia o maná, o pão. Outrossim, para que se cumprisse um sinal total da benevolência de Yahweh, o povo também teve a tão sentida ausência das carnes do Egito acalentada. Foi-lhe dado não só Pão, mas delícias. Bendito seja o nome de Yahweh!

 II leitura: Ef 4,17.20-24

Paulo continua suas orientações práticas da segunda parte da carta aos Efésios (Ef 4,1-6,20). Os costumes pagãos anteriores à adesão aos ensinamentos de Cristo ainda se fazem presentes. Influenciam a comunidade de Éfeso. Paulo exorta a uma nova vida, segundo o chamado de seguimento de Jesus.

A carta de São Paulo aos Efésios, no texto presente nesta liturgia, apresenta uma catequese batismal semelhante a Cl 3,1-17, motivada pelo distanciamento dos ensinamentos do início da comunidade cristã. Paulo deseja confirmar que a Verdade está em Jesus (cf. Ef 4,21). Qualquer ensinamento contrário ao que advém do Cristo deve ser ignorado. É instrumento de divisão e afasta do Verdadeiro Evangelho.

Em sintonia com esse ideal, Paulo exorta aos Efésios a renunciar as coisas antigas (cf. Ef 4,23) e orienta-os a revestir-se da novidade que vem do Evangelho (cf. Ef 4,24). Um verdadeiro itinerário para o caminhar cristão.

Evangelho: Jo 6,24-35

A Liturgia de hoje nos apresenta pela proclamação do Evangelho o célebre discurso do “Pão da Vida”. Faz-se necessário lembrar que a perícope evangélica de hoje é precedida pelo relato de que Jesus caminha sobre as águas (cf, Jo 6,16-21). Retrocedendo um pouco mais, temos a multiplicação dos pães (cf. Jo 6,1-15). Agora, Jesus aprofunda o “sinal do Pão” (cf. Jo 6,1-15), dando sentido à sua identidade de Filho, enviado pelo Pai.

O primeiro versículo do Evangelho de hoje nos fala que a multidão dera falta de Jesus e seus discípulos. Foram, assim, em busca deles em Cafarnaum (v. 24). Como mostramos acima, os versículos anteriores relatavam dois sinais marcantes. A multiplicação dos pães e Jesus a andar sobre as águas. Os versículos seguintes (Vs. 22-25) nos servem para mudança de cenário. Da região oriental do lago, à ocidental. Neste sentido, se justifica a pergunta que nos soa um tanto estranha: “Rabi, quando chegaste aqui?” (Jo 6,25b). Ao entender a pergunta por uma ótica geográfica, pode não parecer lógica. Por isso, somos chamados a entender de uma forma mais oblíqua. Entendendo com um olhar transcendente.

Nos versículos seguintes, Jesus procederá o discurso sobre o “Pão da Vida”. Neste há uma afirmação de sua identidade como Filho de Deus. Daí podemos concluir que o “chegar aqui” (v. 25b) vem nos significar mais do que um deslocamento geográfico. De uma margem à outra do lago. É a afirmação de que ele, Jesus, vem do alto. Filho de Deus Altíssimo. Postulados e estilo peculiares de se expressar próprios da literatura joanina. A vinda de Jesus é transcendente. Nesse sentido, a pergunta se enquadra.

A reposta de Jesus também pode parecer despropositada, ou mesmo, lamuriosa; se vista de forma diferente à uma leitura espiritual, transcendente. Estaria Jesus se lamentando dos sinais realizados? De ter alimentado aquela multidão, quando da multiplicação dos pães? Mais uma vez, a literatura joanina imprime sua característica peculiar ao anunciar a Boa Nova de Jesus. O pão que mantem a vida cotidianamente não é insignificante. Todavia, Jesus vem nos apresentar um pão que dará uma vida eterna. Este Pão é ele mesmo, o Filho de Deus que veio como sinal de salvação ao mundo. Por isso, conclama que devem todos acreditar em sua identidade divina, pois é o Filho de Deus, assim como, em sua messianidade (v. 29). Jesus é o Pão vivo que veio do céu. Quem crê nele, não terá mais fome, ou sede (cf. Jo 6, 35).

Esta fome e sede deve ser entendida de uma forma transcendente. Não se trata meramente de necessidades fisiológicas. Aos seres humanos haverá sempre fome, sempre sede. Outrossim, Jesus vem falar de uma fome de esperança, alegria, amor, paz, fraternidade. Fome e sede de virtudes próprias do coração de Deus e que ele, mais uma vez, vem nos oferecer por meio de Jesus. A Nova aliança, com seu Filho, vem retomar a Primeira Aliança, que nos é relatada no Primeiro Testamento pelos livros de Gênesis e Êxodo. Yahweh que animou e constituiu como seu povo os patriarcas, conduzindo-os à Terra que corre leite e mel. Ensinou seus preceitos por Moisés e seus sucessores, quando da libertação do cativeiro Egípcio. Animou no caminho da Verdade pelos muitos profetas e agora, com Jesus, vem fazer uma Aliança Definitiva: a Vida Eterna. Não mais a Terra Prometida em sentido geográfico, mas a Jerusalém Celeste. Para tanto, basta reconhecê-lo como Filho de Deus. E mais: fazer parte de sua família. Ele mesmo nos disse que quem ouve sua voz e segue seus ensinamentos lhe será como uma mãe, uma irmã, um irmão. A família de Jesus (cf. Mc 3, 35). Assim, a mensagem do Pão da Vida se casa, definitivamente, com a Vida do Povo.

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