A mensagem teológica do Livro de Ester

Por Hermes de Abreu Fernandes

Em nosso artigo anterior (para ver o artigo clique aqui), dissemos que o Livro de Ester não é um livro histórico. Podemos agora pensar sobre o aspecto teológico do livro. Apesar de que este livro não seja uma tese especificamente teológica, é possível colher alguns ensinamentos neste sentido de seu conteúdo. Trata-se de um relato de salvação em forma de juízo, no qual, o culpado Haman (Amã) é condenado e o inocente Mardoqueu, e consequentemente todo o povo judeu, é absolvido e exaltado. A trama fictícia quer refletir sobre uma realidade histórica dura, cruel, tortuosa: a história do povo judeu, tanto em seu país, como na diáspora; repetida ao longo do tempo. O juiz invisível, único e supremo de todo esse processo é o Senhor Yahweh, Deus de Israel e de todos os povos. A mensagem do Livro de Ester é que Deus não abandona seu povo, ao contrário: sempre o ajuda nos momentos de angústia.

O Livro de Ester apresenta uma teologia dialética que une a presença escondida do Senhor Yahweh no mundo e a participação humana no processo de sua transformação. Faz um conclame para a participação da comunidade humana na transformação da história. Deus age na humanidade, mas é preciso que esta se comprometa para o êxito dos acontecimentos. Em Ester as ações humanas têm sua importância, precisamente porque o controle do Senhor na história é escondido. Deus está na essência de nossa história. Não de forma acidental. É uma relação transcendente e não imanente. Ele atende ao clamor de seu povo, dando-lhe sabedoria e coragem na caminhada de transformação. Está próximo, mas distante. Presente e ausente. Cabe ao homem trazê-lo para sua história, ou não. Agir por ele, amá-lo, fazê-lo razão de sua existência. Ester clamou ao Senhor por misericórdia do Povo Judeu e, fortalecida nele, teve coragem, ousadia e fé para enfrentar sua missão. É Deus e os homens, lada a lado, no processo de libertação.

Há inegavelmente no texto de Ester uma condenação ao poder corrompido. Aquele que usa de influência, privilégios e condição social para oprimir, matar e sobrepor-se acima os humildes; será humilhado, espoliado e terá mal termo em sua vida. Seria como que uma plenificação do Magnificat de Maria de Nazaré. Mesmo que os textos distem mais de séculos um do outro, Ester e Lucas, a teologia é bem semelhante. Apresenta um Deus que humilha os poderosos e eleva dos humildes, pois Santo é seu nome (cf. Lc 1,46-55). A arrogância do poder que se julga onipotente naufraga ridiculamente por intervenção libertadora de Deus.

No Livro de Ester temos a lição dada aos israelitas de que é possível o convívio com pessoas estrangeiras, aprendendo e partilhando dos valores deles, sem perder a própria identidade. Ensina ainda que a resposta para situações de risco da identidade ética e religiosa não é necessariamente a radicalização nacionalista. Há sempre outras saídas mais pacíficas.

A vida de Ester, assim como a de Mardoqueu, nos ensina que não podemos esperar que as circunstâncias da vida nos sejam favoráveis. É preciso ter coragem para transformar a história. A vida, na sua complexidade, comporta momentos difíceis que exigem decisões livres e responsáveis como aquela em que faz a Rainha Ester em favor dos outros, em favor de seu povo, da sua identidade religiosa; ainda que arriscando a própria vida e seu prestígio pessoal. Ester é ícone, arquétipo, de uma pessoa que vive sua própria história com fé e esperança. Ester recebe muito do Senhor, porque dele muito esperou. Muito recebe, quem muito ama.

Referências:
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2013.
BÍBLIA DO PEREGRINO. Trad. Comentários e Notas de Luís Afonso Schökel. São Paulo: Paulus, 1997.
MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.
SCHÖKEL, Luís Afonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 2008.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Livro de Ester: o Poder a Serviço da Justiça. São Paulo: Paulus, 1997.
TEB. Tradução Ecumênica da BíbliaNova Edição Revista e Atualizada. São Paulo: Edições Loyola, 2020.

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