O Livro de Ester

Por Hermes de Abreu Fernandes

O Livro de Ester traz a história de uma judia, jovem deportada entre os deportados, que veio a se tornar rainha da Pérsia, casando-se com o rei Xerxes I. Traduzindo latinamente do manuscrito hebraico, encontramo-no sob o nome de Assuero (486-424 a.C.). No manuscrito grego há a sugestão de que foi Artaxerxes, seu sucessor, (465-424 a.C.).

A contextualização história deste livro se dá nos primeiros anos após o fim do exílio da Babilônia. Uma parte do povo de Judá se fizera disperso por muitos países e regiões, ao fim dos tempos deste exílio. Outra se manteve no território babilônico. Uma terceira, retorna para Judá, no desejo de reconstruir o Templo e restaurar os costumes.

Quanto à autoria do texto, nada se sabe ao certo. Há fortes sinais de que seja um judeu de origem persa. Isto percebe-se, dado seu nacionalismo intenso. Podemos adicionar a este postulado a clara intenção de relatar o apogeu judeu sobre seus opressores. Mesmo o livro tendo o nome de Ester em seu título, tratando de sua graça, beleza e coragem; é Mardoqueu o eixo central dos acontecimentos. Ele descobre a conspiração dos Eunucos contra o rei. É ele quem envia Ester para se candidatar à esposa do rei. Ele intercede pelo povo judeu junto a Ester. É ele o objeto da inveja e perseguição de Haman (Amã). Neste sentido, muitos estudiosos se sentem tentados a atribuir a autoria deste livro ao próprio protagonista, por vezes, personagem principal – isto é – Mardoqueu.

No que se refere ao ano em que foi escrito, os estudiosos situam a composição deste livro entre os séculos IV e I a.C. A maioria dos teólogos prefere uma data no final do século V ou no século IV devido a determinadas características da linguagem utilizada e à atitude favorável em relação ao rei persa. Outrossim, as adições em grego surgiram em meados do século II a.C. O tradutor da TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), tende a situar sua autoria em épocas posteriores ao Séc. II a.C. Neste sentido, podemos concluir: Existem duas versões. A hebraica que data provavelmente de meados do séc. IV a.C. e outra versão, em grego e consideravelmente ampliada, que surgiu em meados do séc. II a.C. As traduções bíblicas em português que geralmente encontramos se baseiam no texto hebraico. Podemos encontrar algumas traduções que mesclam textos da tradução hebraica e grega. Outrossim, a tradução grega integral só podemos encontrar na TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), Edição de 2020. Nesta tradução da Bíblia, o Livro de Ester vem nas duas versões: grega e hebraica.

Podemos identificar o Livro de Ester como gênero novelístico. O livro de Ester não é uma narrativa histórica propriamente dita. É uma espécie de conto que analisa a situação da comunidade judaica espalhada entre as nações estrangeiras. Embora o livro reflita o conhecimento da topografia, da cronologia e da administração de Susa; o relato não pode ser entendido como histórico no sentido moderno. Exceto o rei, outros personagens são desconhecidos. Há alguma menção ao personagem Mardoqueu no Segundo Livro dos Macabeus, onde se relata que os judeus celebraram o “Dia de Mardoqueu” (cf. 2Mc 15,36) – podendo concluir que na primeira metade do Séc. I a.C., a festa já existia. Entretanto, nada há que se assegure a confirmação histórica dos demais personagens. Há que se reconhecer certa influência helênica na redação do texto. Na forma de construção dos diálogos, nas conspirações de Haman (Amã), percebe-se certa proximidade em relação às intrigas palacianas presentes no Livro de Daniel (cf. Dn 1,6). O que podemos confirmar sua proximidade, em nível de gênero literário, de outros livros sapienciais.

Podemos entender que a inspiração fundamental do livro é o fato do êxodo babilônico, aqui revisto em clima de resistência dos judeus na Palestina (cf. livros dos Macabeus) e no esforço de preservar a sobrevivência da comunidade judaica espalhada pelo mundo. Há certo paralelo entre o Êxodo Egípcio (aproximadamente 1250 a/ C.) e o Êxodo Babilônico (+ ou – 424 a.C.). A narração do êxodo exige transformações radicais de estrutura possíveis naquelas circunstâncias, enquanto o livro de Ester busca criar condições de sobrevivência e espaços no sistema vigente, já que as circunstâncias históricas não permitem transformações mais profundas. Neste livro, não se pensa em tomar, mas apenas influenciar o poder, desmascarando o abuso dos privilegiados, reformulando em favor do povo a legislação e valorizando as celebrações populares.

Em uma atualização do Livro de Ester podemos entender que este nos ajuda a pensar numa política que une transformações locais e nacionalistas a uma política global e mundial, na qual a luta pela justiça ganhe espaços e os oprimidos da terra recuperem a esperança de viver. É assim que se torna possível, pouco a pouco, uma sociedade solidária, na qual reinem a justiça, a liberdade e a partilha. Predicados que podemos inferir, também, dos Evangelhos.

Referências:
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2013.
BÍBLIA DO PEREGRINO. Trad. Comentários e Notas de Luís Afonso Schökel. São Paulo: Paulus, 1997.
MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.
SCHÖKEL, Luís Afonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 2008.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Livro de Ester: o Poder a Serviço da Justiça. São Paulo: Paulus, 1997.
TEB. Tradução Ecumênica da BíbliaNova Edição Revista e Atualizada. São Paulo: Edições Loyola, 2020.

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