Evangelho de Maria Madalena passo a passo

MM 7, 1-10: a matéria e suas origens espirituais

Por Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

O evangelho de Maria Madalena, a mulher que não foi prostituta, mas apóstola da primeira hora do cristianismo, é, com grande probabilidade, um texto fundador do cristianismo.[2]

Ele foi encontrado em dois papiros escritos em grego, datados nos séculos II e III, e outro traduzido do grego do ano 150 E.C para o dialeto copta saídico, no séc.V. Esse papiro foi descoberto no Alto Egito, em 1945, na biblioteca de Nag-Hammadi. Ele está organizado em forma de páginas, faltando as de números 1 a 6 e 11 a 14. 

O objetivo principal do evangelho de Maria Madalena é o de reagir contra a institucionalização do cristianismo na linha hierárquica e masculina. Jesus esteve sempre próximo das mulheres, dos pecadores e enfermos, conforme atestam os evangelhos canônicos, os quais, por outro lado, minimizaram a liderança de mulheres apóstolas, como Maria Madalena.

As discussões teológicas entre Maria Madalena, Pedro, Levi e André sobre a pessoa de Jesus e as revelações que Ele fez a Maria Madalena, narradas no evangelho de Maria Madalena, são de fundamental importância para compreender as disputas entre as lideranças cristãs sobre o papel das mulheres no cristianismo no fim do século primeiro e durante o segundo.  

Vamos ler e interpretar o Evangelho de Maria Madalena tendo em vista o diálogo com esses textos primitivos com objetivo de beber dessa fonte de espiritualidade a partir da leitura de gênero, isto é, a relação de poder entre o homem e a mulher.

O evangelho gnóstico de Maria Madalena começa com as seguintes palavras: [3]

1(…) “O que é a matéria? 2Ela durará sempre?” 3O Mestre respondeu: 4“Tudo o que nasceu, tudo o que foi criado 5todos os elementos da natureza 6estão estreitamente ligados e unidos entre si. 7Tudo o que é composto se decomporá; 8Tudo retornará às suas raízes: 9A matéria retornará às origens da matéria. 10Que aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça”.

Assim como nessa passagem, em todo o evangelho, Maria Madalena repassa os ensinamentos do Mestre Jesus para os apóstolos.

“O que é a matéria? 2Ela durará sempre?” O texto começa com perguntas. Perguntar é já a arte de aprender. Quem pergunta já sabe a resposta, diz a sabedoria popular. Perguntar pela durabilidade da matéria é afirmar que ela não é eterna. Tudo passa, tudo passará. “Não existe nada de novo debaixo do céu”, escreveu o autor de Eclesiastes (1,9).

mestre respondeu. O mestre é aquele que pergunta e responde, mas que também deixa o aprendiz encontrar a sua resposta. No judaísmo temos o pai espiritual e o carnal. Mais vale o pai espiritual, pois esse conduz o discípulo para a vida em Deus. Ele é o mestre. Jesus aqui é chamado de mestre. Segundo o testemunho da comunidade joanina (Jo 20,16), Maria Madalena chamou Jesus de Rabbuni, que em hebraico quer dizer: meu Mestre. E poderíamos acrescentar: amado, pois Rabbuni era o modo como a mulher chamava o seu marido. Assim, chamar alguém de meu mestre era já afirmar um carinho especial por alguém. No mundo antigo temos escolas em torno a um mestre, os quais, no judaísmo, eram chamados de Rabino. Jesus foi um rabino e ensinava como um deles. Muitos de seus ensinamentos são também encontrados em textos dos mestres do judaísmo, como, por exemplo, Hillel, o qual, possivelmente, Jesus terá conhecido pessoalmente. O mestre, no texto de MM, é aquele que nos tira da ignorância, reconduzindo-nos ao caminho do Sagrado.

Tudo o que nasceu… ligados entre si. O mestre ensina que na natureza tudo está ligado entre si. Nada vive separado. Todos dependemos de todos. Em nossos dias assistimos a uma degradação rápida da natureza. O Papa Francisco alerta-nos que somos todos irmãos, integrando ser humano e cosmos. Ser humano e natureza salvam-se juntos. Urge “reumanizar o humano e reabitar a terra. Isso só será possível quando homens, animais e natureza conseguirem viver em harmonia”.[4] Retornar à origem é voltar para Deus, nossa origem integradora.

Tudo o que é composto se decomporáNada é eterno. Somente Deus permanecerá para sempre. Nada que é composto, matéria, é absoluto. Falando a partir da condição humana, no absolutismo reside a origem de muitos dos nossos sofrimentos. Achamos que as pessoas e seus modos de proceder e pensar são absolutos. Uma opinião será sempre uma opinião, mesmo que ela passe a ser uma decisão. Pode demorar dias e até anos para a conclusão chegar e outra opinião será formada: Não é que eu estava equivocado? Não é que eu estava certo? O mestre, em MM, ensina-nos a não absolutizar o relativo e não relativizar o absoluto. Libertar-se desse modo de agir confere-nos a liberdade do ser.

Tudo retornará a suas raízes: a matéria retornará às origens da matéria. Voltar às raízes significa voltar ao princípio de cada ser, na sua dignidade de filho e filha de Deus. Jesus é raiz no evangelho de MM. Ele tudo integra. Ele, o ressuscitado, é o princípio e o fim de tudo e de todos. Viver nele é o mesmo que encontrar a dignidade perdida.

Que aquele que tem ouvido para ouvir, ouça. A fala do Mestre, como nos evangelhos sinóticos, é enigmática. Quem tem ouvidos para ouvir ouça. E quem tem ouvido, mas não sabe ouvir, que aprenda. Ouvir não é fácil. Tem gente que pensa que ouve, mas não ouve. Ouvir exige uma disposição para tal. A diferença dos judeus cristãos que também precisaram ver o Jesus ressuscitado e seus milagres, Israel se pautou pelo ouvir. Qual israelita não conhece o Shemá Israel (Ouve, ó Israel)? Shemá significa ouvir e ouvir é o mesmo que interpretar a Torá oral e escrita. [5] A Torá sem ser comentada é morta. É um texto de vida. O segredo, ao comentar a Torá escrita, está em ligá-lo com a Torá oral. As homilias, pregações ou sermões em nossas Igrejas deveriam seguir esse princípio judaico de interpretação. Portanto, a homilia bem-feita é a que está em sintonia com a vida. Os judeus chamam homilia de Midraxe. O método usado por Jesus para falar da presença de Deus foi esse. Ele sempre falava a partir da vida em forma de parábolas, comparações com as situações do cotidiano da vida.

O ouvir nessa passagem do evangelho de Maria Madalena consiste em entender que tudo retornará às suas origens. Na continuidade do evangelho, isso ficará mais evidente. 

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Canal no You Tube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos ou https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

[2] LELOUP, Jean-Yves. O Evangelho de Maria: Miriam de MágdalaPetrópolis: Vozes, 1998 p. 9.

[3] FARIA, Jacir de Freitas. As origens apócrifas do cristianismo: comentário aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 47.

[4] FARIA, Jacir de Freitas. O mito do dilúvio contado pelos Maxakalis, israelitas e babilônios – No conto um projeto que salva a terra, água, animais e seres humanos. Petrópolis, Estudos Bíblicos n. 68, 2000, p. 41.

[5] FARIA, Jacir de Freitas. A releitura do Shemá nos Evangelhos e Atos dos Apóstolos. Petrópolis, RIBLAn. 40, 2001.   

Fonte Texto: bibliaeapocrifos.com.br

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