Liturgia do 15º Domingo do Tempo Comum: Chamados ao Anúncio e à Profecia

Por Hermes de Abreu Fernandes

Estamos no XV Domingo do Tempo Comum. Neste tempo, mesmo que traga em seu título a palavra Comum, nada há de ordinário, de sem importância. Nele, somos chamados ao aperfeiçoamento de nosso caminhar Cristão. Por isso, há que se estar conectado com o chamado profético de viver sob a Palavra e anunciá-la em nosso cotidiano. É como que se vivêssemos a essência de nossa fé, aprofundando em nossa vida os ensinamentos de Jesus. No Tempo Comum, somos suscitados a fazer do Anúncio do Evangelho nossa vida. Carne em nossa própria carne.

Na Liturgia deste domingo, somos confirmados nessa missão pelo exemplo de Amós, pelas exortações formativas que São Paulo dirige à comunidade de Éfeso e por Jesus, no envio de seus discípulos ao anúncio do Reino de Deus.

Reflitamos sobre as leituras que nos inspiram na Liturgia deste Domingo:

Primeira Leitura: Am 7,12-15

O profeta Amós não se autodenomina profeta. Rejeita este título, dada a força que nele se encerra. Define-se um trabalhador, homem simples, do povo. Se apresenta como um cuidador de gado (cf. Am 1,1; 7,14). Ele viveu no Reino do Norte, no período anterior à dominação dos assírios (aproximadamente 722 a.C.). Neste contexto, Israel vivia um tempo de tranquilidade, outrossim, já se sentiam as ameaças da dominação estrangeira.

A Primeira Leitura relata a expulsão de Amós por Amasias, sacerdote de Betel, porque as palavras do profeta incomodavam ao rei Jeroboão, 976-945 a.C., (cf. Am 7,10). Amós não falava para agradar aos reis e sacerdotes, classes privilegiadas daquela sociedade. Ao contrário, fiel à palavra do Javé, denunciava os desmandos da elite. A verdadeira profecia consiste em falar em nome de Deus. Assim agia Amós.

Em consequência ao incômodo gerado pelas palavras do profeta, Amasias quer Amós em Judá, distante dele e de seu templo. Betel era um santuário edificado para o rei e o sacerdote estava ao seu serviço. Jeroboão o construíra para se opor aos privilégios de Jerusalém, o templo do Reino do Sul (cf. Rs 12,26-33). Portanto, Amós era rejeitado pelo rei e pelo sacerdote. Rejeição motivada por sua fidelidade a Javé.

Em reação à sua expulsão por Amasias, Amós lembra sua vocação para profetizar. Recorda que não era profeta, nem filho de profeta. Não pertencia a um grupo que exercia essa atividade em Israel. Vem do Alto sua missão. Javé o elegeu para profetizar no meio do povo e, em obediência a este chamado, assim o fez.

Em nossos dias, podemos perceber semelhanças entre a experiência de Amós e nossa vida. A missão de todos nós assume semelhanças com a do profeta. Somos escolhidos em meio às nossas tarefas ordinárias, enfrentamos adversidades em relação a pessoas e situações e somos fortalecidos pelo Senhor para continuarmos nossa vocação. Javé, quem nos chama, fortalece-nos para seguir adiante. Sua palavra nos é dirigida constantemente para transmiti-la com alegria aos demais. Somos profetas do Senhor no mundo contemporâneo.

Segunda Leitura: Ef 1,3-14

A carta aos Efésios estará entre as leituras dos próximos domingos na liturgia. Foi dirigida aos cristãos da Ásia Menor (atualmente Turquia); província romana cuja capital era Éfeso (Ἔφεσος). Cidade de forte cultura helenista.

O presente fragmento na segunda leitura é a parte final de um hino de louvor a Deus (Ef 1,3-14). Traz características das orações, em forma de bênção, usadas na liturgia judaica (cf. 2Cor 1,3; 1Pd 1,3). Deus é o sujeito dos verbos e age em Cristo. O autor recorda:

  1. A eleição (v. 4-5),
  2. A libertação (v. 6-7),
  3. A memória da caminhada (v. 8-10),
  4. A herança prometida (v. 11-12),
  5. Os dons do Espírito Santo (v. 13-14).

Os efésios são exortados a recordar o anúncio da Palavra de Deus (palavra da verdade, como Evangelho de salvação – v. 13). Essa mensagem acolhida e acreditada é selada, como que com um sinete (cf. 2Cor 1,22), pelo Espírito Santo. Ela é a garantia de uma herança incomensurável, eterna e prometida. Já experimentada por meio da fé. O texto bíblico se conclui com uma doxologia, completando o hino.

Nessa leitura temos a apresentação do efeito da pregação da Palavra de Deus na vida de uma pessoa. Olhando nossa história de fé em Cristo, como ouvintes de sua Palavra, podemos perceber a realização do que lemos. Contemplamos, também, esses efeitos em outras pessoas e situações transformadas pela força do Evangelho.

Evangelho: Mc 6,7-13

O Evangelho desta liturgia traz o relado do envio dos discípulos para irem dois a dois, conforme o costume judaico (Lc 7,88; Jo 1,37). Trata-se de dois discípulos, pois um apoia o outro. Nesse sentido, todos se comprometem com o anúncio e a prática da mensagem de Jesus: “O Reino de Deus está próximo, convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

A mensagem deste Evangelho nos chama a atenção para a coerência da Palavra com a vida. Para a missão, não bastam discursos, sermões e pregações. Atos comunicam mais do que palavras. Por isso, Jesus dá aos seus enviados poder sobre os espíritos imundos (v. 7), pois portam consigo a presença divina, o Espírito Santo, que repele o mal e torna possível a comunhão do ser humano com Deus. O missionário não transmite nada de si, mas de Deus, quem o inspira para aquela ação.

Em suas instruções, Jesus faz algumas recomendações práticas, apropriadas ao contexto em que viviam. Não permite que eles levem algo pelo caminho, a não ser um bastão para apoio na caminhada e para espantar animais nas estradas. Não podem ter comida, nem bolsa, nem dinheiro; pois o objetivo é caminhar e percorrer os lugares recônditos das redondezas da Galileia. Para isso, ajuda um par de sandálias e uma túnica (duas atrapalham o missionário). O interesse da narrativa é demonstrar a dinâmica itinerante do missionário, que deve estar inquieto para transmitir o Evangelho. Não é uma preocupação virtuosa de se fazer despojado, mas estar livre para anunciar o Evangelho. Bagagens, reservas materiais, inibem o deslocar-se. Para a missão, melhor estar de coração disponível e caminhar disposto.

No cotidiano da missão, é preciso estreitar laços, construir relações. Por isso Jesus exorta que quando chegassem a uma casa e fossem acolhidos, ali deveriam permanecer. Interagir, fazer comunidade. Se não encontrassem acolhida, nem quisessem ouvir sua mensagem, deviam seguir adiante, sacudindo a poeira dos pés contra aquela rejeição (v. 10-11).

Jesus ainda instrui, por fim, que o conteúdo do anúncio dos discípulos deve ser o mesmo dele: a conversão por causa do Reino de Deus (v. 15). Ora, os que continuam a missão de Jesus, assumem seu jeito de ser. Desse modo, tornam Deus presente por meio das suas ações (expulsando os demônios e curando os enfermos – v. 13). Os sinais (milagres) são consequência do anúncio, não a razão dele.

O tema do Evangelho de hoje, o envio e as instruções de Jesus, continuam a valer para nossos tempos. As condições para a missão e o contexto sociocultural são diferentes, porém, a recomendação da primazia da Palavra de Deus e as atitudes que acompanham a pregação, servem de princípios para todas as atividades missionárias. Como os doze primeiros discípulos, somos enviados a evangelizar.

A Palavra em nossa Vida

Com Amós somos chamados a viver plenamente a missão profética. Mesmo que, para isso, precisemos arcar com sérias consequências. Em nossos tempos, não são poucos os que promovem costumes estranhos, contrários à vontade de Deus. A busca incessante pelo lucro, privilegiando algumas camadas mais abastadas da sociedade, tornam pouquíssimos ricos, cada vez mais ricos, às custas de se tornar pobres, cada vez mais pobres. O sofrimento dos empobrecidos não vem de Deus. É contrário ao sonho divino de vida plena para o ser humano. O cristão de hoje que não se compromete com o anúncio do Reino e a denúncia de toda a forma de injustiça, é como Amasias, o sacerdote comprometido com o reinado de Jeroboão. Uma religião subjugada pelos interesses políticos, pelos privilégios das elites. Ao contrário, devemos estar comprometidos com Javé, Deus dos pobres e sofredores e com seu Reino.

Nas palavras de São Paulo aos Efésios, somos lembrados de nossa relação com a intimidade de Deus. Lembremo-nos sempre de sua ação libertadora em nossa vida. Anunciemos esse Deus Liberador. Rendamos graças por seu mistério salvífico.

Enviados por Jesus, somos chamados a ser instrumentos do anúncio da mensagem evangélica. Nela, nenhum discurso de ódio é permitido, nenhuma morte é celebrada. Não há alegria na morte! No Reino de Deus, não pode haver explorados ou exploradores. Injustos ou injustiçados. Oprimidos ou opressores. No Reino de Deus, deve ser exorcizado todo espírito de desumanidade, exclusão, opressão, exploração e que ameace à dignidade humana. Devemos ser curados dos males que nos afastam das realidades do Reino de Deus. Hipocrisia, usura, corrupção, injustiça, desamor. Sejamos livres para anunciar a Boa-Nova aos pobres, curando os corações feridos e libertando dos cativeiros existenciais de nossa história (cf. Is 61,1+ || Lc 4,18+). Sejamos missionários, anunciando Justiça, paz e Alegria. O Reino de Deus.

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