CEBs, um jeito de ser Igreja

Em tempos de Assembleia Eclesial, somos impelidos a fomentar reflexões sobre o caminhar da Igreja face ao presente contexto histórico em que vivemos. Os sinais que se nos apresentam não são animadores. Em tempos de pandemia, de discursos de ódio sobre as minorias, de apologia à violência, de marginalização dos movimentos sociais; fica-nos clara a necessidade de uma Igreja comprometida com tais desafios. Sobremaneira, buscar reflexões sobre medidas sanativas concomitantes com as propostas do Evangelho.

Desde os primeiros anos posteriores ao Concilio Vaticano II, seguido das Conferências do Episcopado Latino-Americano de Medellin (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992), Aparecida (2007); a Igreja Católica busca para si um rosto mais sinodal, missionário e comprometido com a realidade em que vivem seus crentes. Nesta inspiração, nascem e se fortalecem as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).

Desta feita, no presente ano de 2021, o Papa Francisco nos convida para a Assembleia Eclesial. Nova oportunidade de se sentar, refletir, sonhar, planejar e celebrar o caminhar da Igreja. Ouvindo a todos, a partir da pedagogia da sinodalidade, desejamos pensar uma Igreja inspirada na missionaridade, à luz da Evangélica Opção Preferencial pelos Pobres. Toda a Igreja, bebendo das fontes da espiritualidade das CEBs.

Neste sentido, para maturar nosso caminhar, apresentamos o presente artigo de Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN. Texto publicado originalmente no site Dom Total em fevereiro de 2018, faz-se ainda atual.

Sem mais delongas, vamos ao texto!

Hermes de Abreu Fernandes

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CEBs, um jeito de ser Igreja

Por Rodrigo Ferreira da Costa,SDN*

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), células iniciais de estruturação eclesial, buscam ser comunidades enraizadas na prática histórica de Jesus de Nazaré e bebem do testemunho das primeiras comunidades cristãs (At 2, 42-47; 4, 32-35). Como Jesus, assumem a opção pelos pobres e a partir deles anunciam o evangelho do Reino a todos.

Com uma espiritualidade encarnada na história do seu povo, as CEBs procuram ser comunidades proféticas e místicas. Pois a cruz e a ressurreição de Jesus são experimentadas palpavelmente no cotidiano da vida.  Dom Pedro Casaldáliga, ao se referir às CEBs, diz: “não são associação, não são um movimento, são uma movimentação, um espírito, uma atitude, uma lógica, uma coerência. As CEBs é um modo novo de ser Igreja, é um modo novo de toda a Igreja ser”. Este jeito de ser Igreja tem enfrentado desafios diversos, dentro e fora da Igreja. Procuremos elencar esses desafios em quatro níveis, a saber, antropológico, sociológico, pedagógico e teológico.

No nível antropológico vivemos uma cultura do subjetivismo na qual predomina indivíduo sobre a comunidade. A busca do bem-estar pessoal se tornou parâmetro para as relações. E sendo assim, ir à missa, ao psicólogo, ao culto evangélico, ao shopping… têm o mesmo objetivo: sentir-se bem. Com isso, o compromisso com o outro, a ética, o bem comum ficaram em segundo plano.

Essa cultura individualista e do bem-estar pessoal influencia diretamente no modo de nossa organização social. O cidadão de direito e deveres com sua singularidade e responsabilidade foi consumido pela cultura de massa, na qual as ideologias das grandes mídias acabam por ditarem a moda, os costumes e até mesmo o rumo da política.  Pois nessa sociedade de indivíduos houve uma inversão do público pelo privado, a pessoa não vai mais para a “praça pública” para discutir sobre o bem da cidade, mas vai levando os seus interesses pessoais. Talvez aqui temos a raiz da corrupção que invadiu a nossa política. Nossas relações tecnologizadas também contribuíram para a perda das raízes, da memória, criando a cultura do descartável, do imediato, do consumo desenfreado. Como as CEBs têm por definição o ser comunidade, igualdade fraterna, corresponsabilidade, partilha, mesa eucarística do Pão e da Palavra, etc. elas se tornam um sinal profético contra o egoísmo e o consumismo do capitalismo neoliberal.

No nível pedagógico, a cultura de massa e individualista também contribui para não reflexão. Pensar dá trabalho. Por isso é melhor viver como “sonâmbulos”, sem refletir as próprias ações. “Diante da falta de horizonte, da desilusão e do medo, parece que a solução é não pensar no sentido da própria existência. Por isso diz: ‘dê-me televisão e hambúrguer e não me venha com sermões de liberdade e responsabilidade’” (Aldaus Huxley – poeta italiano do século XX).

Numa cultura do bem estar pessoal que exalta o individualismo e a concorrência, aprender a ser com o outro e para o outro se tornou um grande desafio. Não somos uma sociedade, e sim uma massa atomizada dominada pelo consumo, pelo trabalho, pela técnica, etc. O homem da massa se caracteriza pelo seu isolamento e sua falta de relações sociais. Os homens da massa são marionetes nas mãos dos meios de comunicação, da ideologia consumista, etc. Como dizia Hannah Arendt, “uma pessoa que não pensa é como um sonâmbulo”. Logo, o que percebemos em nossa sociedade é uma multidão de sonâmbulos, que não são capazes de lutar por seus direitos, de exercer sua liberdade política, de ocupar o espaço público da ação e da palavra. Por isso, são capazes de fazer ou sofrer o mal banalmente, não por um uso desordenado da liberdade, mas, sim, por não exercerem a sua espontaneidade e a sua liberdade política. Neste contexto, os homens perdem o seu poder político, a sua capacidade de agir conjuntamente, a capacidade de criar algo novo, perdendo, assim, a sua própria humanidade.

O individualismo do homem moderno invadiu as igrejas. A escolha de qual religião seguir não passa mais pelo critério doutrinal e, sim, pelo sentir-se bem, pela promessa de milagres, etcO ideal de conversão ao evangelho já não desponta mais no horizonte da maioria das religiões. O processo agora é o inverso: ao invés da pessoa converter-se às exigências da fé, é a religião que se converte ao desejo das pessoas. A gratuidade, o dar sem esperar nada em troca, que sustenta todo edifício ético e religioso está cada vez mais distante do discurso e da práxis de muitos que se dizem crentes.

As CEBs, com uma espiritualidade profética e encarnada, procuram manter a intriga entre ética e religião, espiritualidade e compromisso com a justiça social. Por isso, este deus introduzido na economia, torna-se um grande desafio para as CEBs e para toda a Igreja. Já que a sabedoria profética de Israel apresenta um Deus que se humilha para “estar junto com o contrito e o humilde” (Is 57,15), um Deus “do apátrida, da viúva e do órfão”, um Deus que se manifesta no mundo por sua aliança com os excluídos do mundo. Um Deus que tem “entranhas de misericórdia” (Os 11, 8), que se deixa afectar pela dor e o sofrimento do estrangeiro, da viúva e do órfão. Um Deus preocupado em libertar o seu povo, que vê a sua miséria, ouve seu grito por justiça, conhece as suas angústias e desce para libertá-lo (cf. Ex 3, 7-8).

O profetismo das CEBs não é ideologia política, e sim fruto da mística do seguimento a Jesus Cristo, o crucificado-ressuscitado, que se fez solidário com os pobres e sofredores. Como afirma a conferência de Puebla, “vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, a brecha crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos converte-se em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador e à honra que lhe é devida. Nesta angústia e dor, a Igreja discerne uma situação de pecado social, cuja gravidade é maior quanto se dá em países que se dizem católicos e que têm a capacidade de mudar” (Puebla, n. 28).

 Como nos alerta o Papa Francisco, “às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros” (EG, 270). Isso nos faz acreditar que este modo de ser igreja das CEBs é autêntico e atual, porém, exige dos seus membros a coragem profética de morrer como o seu Mestre o fez.

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*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, Missionário Sacramentino de Nossa Senhora, Licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em teologia (FAJE), com Especialização para Formadores em Seminários e Casas de Formação (Faculdade Dehoniana). Publicou pela Editora O Lutador (2015) o livro ‘Equipes Missionárias: rosto de uma Igreja em missão’. Trabalha atualmente na Paróquia Santa Cruz, Alta Floresta-MT.

In: Dom Total

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