Mito da condição humana em Gênesis (2,4b–3,24)

Por Frei Jacir de Freitas Faria, ofm

O segundo e mais antigo relato bíblico da criação, Gênesis 2,4b–3,24, é bem diferente do primeiro. A narrativa javista é mais fluente e agradável. Quase quinhentos anos separam um texto do outro. Portanto, podia-se dizer novamente que não havia nenhum arbusto sobre a terra, nem ser humano para cultivá-la. Deus, então, modela da terra um homem e lhe dá o sopro da vida. Planta um jardim, no Éden. Da costela do homem, faz-lhe uma companheira. Eles viviam nus, com a proibição de não comerem do fruto da árvore do bem e do mal, até que um dia a serpente engana a mulher, que engana o homem, e ambos comem do fruto proibido. O medo apodera-se deles. Todos os três recebem um castigo do Criador e são expulsos do paraíso.

Os vários elementos que aparecem no texto explicam a condição humana no paraíso e sua relação com o sagrado. São eles:

Jardim. Símbolo do paraíso terrestre. Jardim em hebraico é gan, e significa proteger. No Oriente antigo, era muito comum a construção de um jardim cercado. Os jardins podiam ser propriedade exclusiva de um rei. Muitos deles eram ornamentais e serviam para o descanso do rei ou para a sua sepultura (cf. 2Rs 21,18.26). Esses formavam o seleto grupo dos jardins imperiais. No ambiente persa, encontramos vários desses espaços, os quais também simbolizavam o poder real e seu controle sobre a agricultura e as fontes de água. Nesses jardins se cultivavam plantas medicinais e religiosas.1 Havia também jardins com pomares e hortas (cf. Jr 29,5.28).  Os jardins possuíam as próprias fontes de água e eram um paraíso. Paraíso, em persa, se diz pairidaeza. A tradução grega da Bíblia, a Setenta, usa o termo grego paradeisos em Gênesis 2,4b–3,24, para o termo jardim. Assim, paraíso e jardim passam a se equivaler. O jardim é chamado de Éden, substantivo hebraico que significa ‘delícias’. O jardim passa a ser um paraíso celeste. Um paraíso das delícias em um jardim plantado no Éden (v.10), região e lugar da felicidade plena. Deus é o companheiro do ser humano, que vive em plena liberdade sem se preocupar com nada. O mito expressa o desejo humano, que na sua relação com o Sagrado (Vida) foi possível outrora e será novamente. Jardim é sinônimo de esperança, de vida realizada. Não por menos, Isaías 51,3 chama o Éden de ‘Jardim do Senhor’. A escola rabínica judaica, na sua interpretação do texto bíblico, seguindo quatro passos de compreensão e atualização do texto, forma com a letra inicial de cada passo o substantivo paraíso (Pardes) – Peshat, literal; Rèmèz, alusivo; Derash, meditação; Sôd, contemplação.2 Uma boa interpretação bíblica nos leva ao paraíso. O livro de Cântico dos Cânticos tem em seu centro o jardim, um paraíso. A mulher é vista como um jardim aberto para o seu amado (cf. Ct 4,12). Havia um jardim perto do local onde Jesus foi sepultado e, ressuscitado, encontrou-se com Madalena, sua amada (cf. Jo 19,41). Poderíamos citar outros textos do Primeiro e Segundo Testamentos, bem como das literaturas rabínica e apócrifa, para exemplificarmos como o conceito paraíso-jardim ficou associado com a esperança escatológica e messiânica. O paraíso perdido permaneceu no imaginário popular como símbolo de esperança, de saudade de um tempo que, mitologicamente, poderá voltar.

Árvores da vida e do conhecimento. A primeira árvore é o símbolo da imortalidade, a segunda, do conhecimento do bem e do mal. No último livro da Bíblia, o Apocalipse cita a árvore da vida no centro da Nova Jerusalém (cf. Ap 22,2). A nova árvore da vida representa o novo céu e a nova terra. Trata-se de uma inclusão. Sabedor de sua condição mortal, o ser humano almeja a imortalidade. Ele sabe também que essa condição só é possível no Sagrado, em Deus. Por isso, seu desejo será sempre o da imortalidade. Ninguém quer morrer. Exceção para aqueles que perdem o sentido da vida. Na mitologia, a fonte da vida está na divindade, nos deuses, os quais não aceitam repassar esse segredo para o ser humano. No texto em questão, o fato de Deus passear pelo jardim demonstra que a vida humana está, no paraíso, bem próxima d’Ele. Há, no entanto, um contraste: o fruto da árvore da vida confere imortalidade, o da árvore do conhecimento, a morte. Ao ser humano fica expressa a proibição divina de não comer o segundo fruto (cf. Gn 2,17). Adão e Eva comem, mas não conhecem a morte. Trata-se não de uma morte física, mas da capacidade de libertar-se de Deus, tornando-se capaz de conhecer o bem e o mal, o que lhe traria a morte. Ao ser humano, após comer mitologicamente esse fruto, é conferida a faculdade de decidir pelo bem e o mal. Ele terá de pagar com a própria morte a opção feita no paraíso, a de não aceitar a sua condição de criatura. A primeira consequência de tudo isso foi a perda do paraíso. O movimento gnóstico, que ganhou força no judaísmo e no cristianismo posteriores, desenvolveu a teoria de que, quando o ser conhece a sua origem divina, ele encontra a salvação.

Nudez. A nudez percebida pelo ser humano ao encontrar-se com Deus não pode ser considerada na perspectiva moral de vergonha. O texto nem fala disso. No mundo antigo, deuses eram representados nus. A nudez coloca o ser humano na condição de fertilidade, doadores da vida, que somente vem de Deus. Adão e Eva se veem como um deus diante de outro deus mais poderoso, Deus-Javé, e têm medo dele. Nisso está o sentido da nudez. Costela.

Por se tratar de uma parte do corpo que fica ao lado, ela representa o fato de que a mulher foi feita para ser companheira do homem e não sua escrava. Deus faz o homem dormir, tira-lhe uma de suas tantas costelas, recoloca carne no lugar, de modo que ele continue perfeito; e modela uma mulher que será reconhecida como “osso do seu osso e carne da sua carne” (cf. Gn 2,23). Agora, homem e mulher se uniram para constituir família, gerar outros seres humanos à imagem e semelhança de Deus, o criador. Costela representa também a solidez da nova edificação feita por Deus.3 De forma mítica, Gênesis 2,22-23 está reafirmando a igualdade dos seres humanos. Historicamente, homens usaram de forma equivocada o mito para justificar a sua supremacia sobre a mulher. O fato de o homem ser criado primeiro que a mulher não implica superioridade. Interpretações alegóricas, como a Primeira Carta aos Coríntios 11,7-12, de modo equivocado assim interpretou Gênesis 2,21-25, para justificar o machismo judaico. Ainda hoje, algumas culturas, como o islamismo, insistem em subjugar a mulher, em apedrejá-la por um simples ato de adultério. Adão e Eva: Adam e Hevae, o “tirado da terra e a mãe dos viventes”, são termos hebraicos que aparecem em Gênesis 2,16.22.23 e 3,20. Eles representam o ser humano de forma geral. Nunca existiram como personagens. Trata-se de um mito. Interessante, no entanto, é perceber que no próprio texto em questão, o ser humano é chamado de Ish e Isha, isto é, “homem e mulher, macho e fêmea que se unem para gerar outros filhos como esposo e esposa” (cf. Gn 2,23-24). Observe a pouca diferença entre os termos. Isso significa a continuidade expressa por eles. O uso diferenciado de termos hebraicos tem como objetivo nos colocar no patamar de um mito que explica a origem do ser humano homem e mulher.

Serpente. Animal astuto, feito por Deus, e falador, embora se trate de um mito e não de uma fábula (cf. Gn 3,1). Por que a serpente entra em cena? Qual a sua relação com a mulher e Deus? A serpente repete a fala de Deus, faz promessa, mas deixa a responsabilidade para a mulher. Nisso está seu modo astuto de proceder. A serpente no mundo antigo possuía vários simbolismos, sobretudo aqueles relacionados com a vida e poder opressor de um país. Assim ocorria no Egito. O faraó tinha uma serpente sobre a sua cabeça para representar o seu poder, a vida e sua imortalidade. O poder dele passava pela serpente, a imortal. A serpente era símbolo de vida pelo fato de viver sobre a terra, a grande Mãe. Ademais, ela troca de pele todos os anos. Na mitologia grega, a vara do deus da Medicina possui serpentes enroscadas, o que permanece até hoje como símbolo na área médica. Na Babilônia, a divindade principal, Marduk, era representada por uma serpente-dragão. Vários mitos trazem a serpente como símbolo de vida, como no caso de Ningiszida, o deus-serpente que custodia a árvore da Verdade. Em Israel, a partir de Gênesis, a serpente passou a significar a força do mal e expressão religiosa, uma concorrente de Javé, o Deus de Israel. De muitos sentidos simbólicos, a serpente reduz-se a um só. Essa passagem simbólica e mitológica da serpente em Gênesis pode ter ocorrido a partir da influência do zoroastrismo persa, no pós-exílio. Nessa visão, o animal tem seu poder terreno, ligado à terra. Em Canaã e Israel, era conhecido o culto de fertilidade ligado à serpente e ao touro. O símbolo da serpente estava no próprio templo de Jerusalém. Descobertas arqueológicas comprovam a existência de anéis com selos e carimbos com a imagem desse réptil. Nesse contexto, não fica difícil compreender a presença da serpente em Gênesis 2-3, bem como a sua relação com a mulher, aquela que acabou cedendo ao convite tentador da mulher. Depois desse ocorrido, ela passa a ter dores de parto. Assim como a serpente, que representa a fertilidade, a mulher torna-se fecunda, mas com dores. Mulher e serpente são desqualificadas na narrativa mítica.4 Por outro lado, a mulher também, por causa da ação da serpente, torna-se súdita do homem. Ela terá desejo verso ele, que a dominará (cf. Gn 3,16), é a terrível sentença de punição para a mulher. O homem passa a governar a mulher. Se esse era o desejo da serpente, e, considerando a sua relação com os poderes reais do faraó e monarquia israelita, podemos afirmar que há uma transferência de domínios, mantendo a cadeia de dominação. A parceria entre a mulher e a serpente resulta em opressão. O fato de o homem ter aceitado a proposta faz que ele receba a punição do trabalho exaustivo na terra, que se torna maldito por causa da atitude de desobediência humana (cf. Gn 3,17). O poder da serpente leva o homem a viver de suor e fadigas. A serpente, o poder dominador, precisa desse trabalho forçado para sobreviver.5 O homem se torna pó da terra e morre de tanto trabalhar. O mito explica o sofrimento pelo viés da opressão, que o lavrador conhecia. Outro elemento que não podemos desconsiderar nesse relato é o fato de a serpente representar a imortalidade. O ser humano, no contato com a serpente, almeja para a si a imortalidade que dela emana. Serpente, em aramaico jiwya, deriva da raiz JWY, viver ou fazer viver. Jweh é o Deus da Vida que se dá a conhecer.

Fonte de inspiração

Ao longo da história da humanidade, esse clássico texto da literatura bíblica foi fonte de inspiração para tantos outros, para pinturas, discursos poéticos e moralistas. Na teologia cristã, Gênesis 2,4b–3,24 foi interpretado como a queda do ser humano e sua consequente perda do paraíso. A isso Santo Agostinho (390 E.C.) chamou de pecado original, que passa adiante, já desde o nascimento. Depois disso, a Igreja sempre reafirmou essa posição agostiniana. A mulher será culpada pelo ato transgressor do ser humano. No século XIII, o teólogo Tomás de Aquino reforçou a culpa da mulher nesse episódio, dizendo que ela é frágil, pois foi gerada de um espermatozoide constipado.

A esperança de retorno ao paraíso perdido e a saudade dele foram e, continuam sendo, objeto de desejo dos humanos, sejam eles judeus ou cristãos. Na sinagoga judaica, a árvore da vida recebe os nomes dos falecidos. Nas igrejas cristãs, Jesus é o caminho, a verdade e vida de Gênesis 2,4b–3,24. Com Sua morte, Seu sangue derramado na terra outrora maldita, a vida eterna volta a ser condição para o ser humano, que ressuscitará com Ele.

REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA

1 PEREIRA, Nancy Cardoso. Jardim e Poder. Império persa e ideologia, In: REIMER, Haroldo; SILVA, Valmor da (Orgs.). Hermenêuticas bíblicas. Contribuições ao I Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, São Leopoldo: Oikos; Goiânia: UCG, p.123-124.

2 FARIA, Jacir de Freitas. Judaísmo e cristianismo: dois caminhos, duas culturas afins! Estudos Bíblicos, Petrópolis, Vozes, 1999. p. 48-58. v. 61..

3 CROATTO, Severino. Crear y amar en libertad, Buenos Aires: La Aurora, 1986. p. 83.

4 REIMER, Haroldo. A serpente e o monoteísmo. In: Hermenêuticas bíblicas. Contribuições ao I Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, São Leopoldo: Oikos; Goiânia: UCG, p. 119.

5 SCHWANTES, Milton. Projetos de esperança. Meditações sobre Gênesis 1-11. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 80-81.

Fonte: bibliaeapocrifos.com.br

Frei Jacir é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019).

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