Contramito da criação em Gênesis (1,1–2,4a) | Por Frei Jacir de Freitas Faria, ofm

Por Frei Jacir de Freitas Faria, ofm

Como vimos no artigo anterior, Gn 1,1–2,4a é um contramito ao mito oficial da Babilônia, Enûma Elîsh. Contramito é o mesmo que oposição, resistência ao mito oficial que os exilados ouviam como explicação da criação.

O mito babilônico fala de duas divindades, Apsû e Tiâmat, que se casaram e geraram filhos,
os quais perturbavam o sono de Apsû, que decide matá-los. Outra divindade, Ea, descobriu o plano e matou Apsû. Com o corpo deste, Ea construiu o mundo subterrâneo. Tiâmat, para vingar a morte do marido, gerou monstros, para aterrorizar as divindades. Marduk, filho de Ea, foi escolhido pelos deuses como o herói deles. Este promoveu um golpe de Estado e tornou-se a divindade maior da Babilônia. Marduk também matou Tiâmat e, com seu corpo, fez o céu, mundo superior. Com o sangue do líder dos deuses vencidos, Quingu, Marduk criou a humanidade. Esta deveria ser submissa a ele. Como gratidão a seus feitos, Marduk recebeu dos deuses uma residência celeste, que levou o nome de Babilônia.

Já o mito bíblico, muito conhecido, relata que, quando ainda tudo era treva, a Terra era vazia e deserta, e o sopro divino pairava sobre esse cenário, Deus criou a luz. Em uma sequência de sete
dias, continua a criar pela ação da Sua palavra e depois descansa.

Ambos os relatos têm o exílio babilônico (587-536 a.E.C.) como contexto. Os israelitas foram parar na Babilônia em duas levas. A primeira, em 597 a.E.C., composta provavelmente da elite pensante de Jerusalém, estabeleceu-se com sucesso, no comércio local. Na deportação de 586 a.E.C., o grupo era mais numeroso e, provavelmente, residiu nos assentamentos agrícolas. Esses povos não eram escravos no sentido exato da palavra. Os dois grupos, no entanto, eram exilados de sua terra e sofriam no contato com a cultura opressora babilônica. Na Babilônia vigorava o sistema tributário. Com relativa autonomia, as famílias podiam se organizar para pagar o tributo. No entanto, a pressão babilônica para receber os impostos não devia ser menor que a exercida sobre as famílias camponesas que permaneceram na Palestina.

Nesse contexto, podemos entender os sinais de resistência, presentes no texto bíblico, os quais passamos a enumerar. Era como se os judeus dissessem, mesmo que mitologicamente: “O nosso Deus é diferente…”

CINCO RESISTÊNCIAS

O texto de Gn 1,1–2,4a aponta cinco oposições, resistências, ao texto babilônico. São elas:

Dia O que foi criado
1º Luz
2º Firmamento
3º Terra seca e plantas
4º Luzeiros: Sol, Lua e estrelas
5º Águas, animais aquáticos e pássaros
6º Animais selvagens e domésticos e o ser humano
7º Consagração do sábado como dia de descanso

1) O nosso Deus é a luz que ilumina o criado, e o Sol, um astro e não um deus

Os judeus pensavam que o Senhor de Israel é um Deus vivo e criador. Ele está sempre conosco, o Seu povo. Não há “nosso Deus” e “os deuses deles”, mas somente o Deus-Javé, criador do Universo, Todo-Poderoso e libertador de Israel. Os demais não são deuses, mas criações. Deus, em seu primeiro ato, criou a luz. E isso não foi por mero capricho. Significa afirmar mitologicamente que Deus mesmo é a luz que ilumina todo o criado.

Marduk era o deus supremo da Babilônia celeste e terrestre. A seu templo deviam ser levados todos os tributos, de modo que a ordem do mundo pudesse ser respeitada. Os babilônios creditavam no Sol como astro dominante. Nele identificavam Marduk, reverenciando-o como presença de Marduk, o astro-deus dominante. O contramito de Gn 1,1–2,4a, ao enumerar os astros criados, não dá destaque para o Sol.

Enûma Elîsh não cita o Sol, mas todos sabiam seu significado. Em Gn 1,1–2,4a, os astros não têm a função de domínio. Eles são servidores, devem viver em harmonia com todas as outras criaturas. Em Gênesis, o Sol é simplesmente um astro entre os demais, não tem lugar de destaque na criação. Ele não foi criado em primeiro lugar, mas no quarto dia e junto aos outros astros. O Sol é simplesmente um astro que ilumina a vida criada por Deus. A luz é mais forte que ele e não se chama Sol.

2) O nosso Deus criou gratuitamente pelo poder da Sua Palavra

No mito babilônico, o mundo e o ser humano foram feitos a partir da morte violenta de deuses. Enûma Elîsh ensina que os babilônios e o mundo existem porque os deuses usaram da violência.
O forte exerce seu poder sobre o mais fraco. Esse modo de ver e interpretar os fatos justificava a atuação dos que detinham o poder na Babilônia terrestre. A ordem da Babilônia celeste era mera
projeção da terrestre. Desse modo, deveria ser a dinâmica da vida. Na contrapartida do mito babilônico, Gn 1,1–2,4a quer ser a manifestação do poder de Deus por meio de sua palavra e de seu gesto gratuito de criar o ser humano. O texto bíblico começa narrando o ato criador de Deus e não a luta fratricida dos deuses. A expressão: “E Deus disse” é carro-chefe da narração bíblica. Ela aparece dez vezes e relembra o Decálogo. A palavra é usada para criar e expressa o poder não violento do Deus de Israel.

3) O nosso Deus criou o Universo para a vida dos seres humanos, não para o bel-prazer dos deuses

Afirma o texto bíblico que Deus dá aos animais, aves e répteis, as ervas como alimento (cf. Gn 1,30). E, ao ser humano, Ele fornece as ervas e as árvores frutíferas que produzem semente, isto é, dá-lhe também o encargo de ter de produzir alimentos para o seu sustento (cf. Gn 1,29). Tal afirmação é profundamente revolucionária: Deus cria o Universo para a vida dos seres humanos, não para o bel-prazer dos deuses, como na mitologia babilônica de Enûma Elîsh.

Deus criou-nos para uma vida de prazer, mesmo que tenhamos de produzir o nosso alimento, ou melhor, fazer que a terra nos dê o “pão de cada dia”. O alimento é para o sustento da vida humana, não para dar lucro aos poderosos. Deus não espera em troca o tributo do ser humano. Com isso, fica descartada a opressão do ser humano sobre o seu semelhante. Em nossos dias, a produção de alimentos está monopolizada por grupos detentores do mercado internacional, o que produz a fome mundial. Sabemos que o Brasil é considerado o celeiro mundial, mas o nosso povo passa fome. Onde está o erro? Assim como nos tempos do Império Babilônico, a globalização atual quer obter o controle de quem produz e consome. Deus tem outros planos. É o que nos mostra o mito de Gênesis.

4) O nosso Deus nos criou também à Sua imagem e semelhança

Deus criou o ser humano, masculino e feminino, à Sua imagem, o que significa que n’Ele encontramos as duas dimensões de forma integrada. Culturalmente somos herdeiros de uma imagem divina masculinizada, a qual necessita ser restabelecida na sua natureza integral: feminino e masculino formam a face de uma mesma moeda. No mundo antigo, tinha-se a concepção de que somente reis e governantes eram criados à imagem e semelhança de Deus. Estes se consideravam a encarnação divina e, portanto, podiam estabelecer a comunicação entre
os deuses e os seres humanos.

O relato da criação de Gn 1,1–2,4a resiste a essa concepção, quando afirma que Deus criou o adam (gênero humano: masculino e feminino) à sua imagem e semelhança e a ambos conferiu a bênção. Gênesis 1,1–2,4a democratiza a imagem e semelhança de Deus. Estamos diante de um texto revolucionário sobre a igualdade entre homem e mulher, o que possui implicações sobre a afirmação teológica da natureza de Deus. Ele é masculino e feminino, não um velho barbudo sentado em seu trono, como a catequese nos ensinou.

O contramito de Gênesis afirma categoricamente: “E Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança, que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. “Façamos” pode ser entendido como plural majestático, princípio relacional: Deus Pai e Mãe, ou como antecipação da visão trinitária. Muitos já quiseram tirar “dominem” do texto, por julgá-lo ecologicamente errado. Não seria melhor traduzir o verbo yrd por reger? Creio que sim.

Rashi, grande sábio judeu da Idade Média, ligou yrd à imagem de semelhança e assim os interpretou: “imagem” significa “segundo o nosso (de Deus) modelo”. Já “semelhança” é o que devo adquirir. Imagem (modelo) de Deus todos nascemos, mas a semelhança deve ser conquistada. Alguém pode morrer sem nunca ter chegado a ser semelhante a Deus, isto é, não buscou ser cocriador com Deus. “Nesse sentido, entende-se também o sentido de “que eles dominem”. O verbo dominar em hebraico (yrd) significa dominar e descer. Se o ser humano, tendo consciência de que é imagem de Deus, lutar para que a semelhança possa tornar-se realidade, ele será um cocriador e dominará as criaturas, isto é, viverá em harmonia com elas; caso contrário, as criaturas o dominarão e ele descerá, tornar-se-á como animal, e será destruído pela natureza. O ser humano recebe a bênção divina para cuidar da criação. Deus não lhe concede o direito de dominar outros seres humanos, tampouco lhe dá os animais como sustento.

Em nossos dias, estamos vivendo um processo rápido de destruição da Terra e do ser humano. Não seria isso reflexo do não entendimento do que seria esse ser “imagem e semelhança de Deus”? Rashi ilumina-nos, quando interpreta Gn 1,27 desse modo. Agrava-se ainda mais a questão quando tomamos consciência da afirmação de cientistas ao constatarem que o ser homem começa a ficar impotente. A cada ano o homem deixa de produzir 2% a menos de espermatozoides. Um homem nascido na década de 1950 produzia 150 milhões de espermatozoides por mililitro, o da década de 1970, 75 milhões por mililitro, e o da década de 1990, somente cinquenta milhões. Quando chegarmos a vinte milhões, a fertilidade humana estará comprometida, então será tarde demais. Pesquisadores chegaram à conclusão de que a causa dessa infertilidade, bem como a de cânceres de mama e de próstata, é a poluição da natureza. As substâncias químicas despejadas nos rios não ficam na água, elas vão para os peixes e os destroem ou os transformam em hermafroditas. O ser humano está sendo contaminado por produtos químicos armazenados nos plásticos, o que lhe causa infertilidade e feminilização. Infertilidade leva ao não cumprimento da ordem divina expressa em Gn 1,28: “Crescei e multiplicai-vos”. Procriar é dever sagrado para o judaísmo. Ninguém pode abster-se de procriar; quem não o faz é um assassino. Multiplicar a imagem significa que o nosso Deus não está preocupado com o domínio do ser criado. Os deuses do mito babilônico impuseram condições aos seres criados. O poder político da Babilônia controlava os dominados.

5) O nosso Deus consagrou para nós um dia de descanso semanal

De acordo com Gn 2,3, Deus abençoou o sétimo dia da criação, santificou-o e nele descansou. O ser humano não é o ápice da criação, mas o dia de descanso. Este sim recebe uma bênção especial. O sábado, em hebraico shabat, da mesma raiz o verbo shûba (sentar-se), é um dia especial. Ele recorda que, não obstante a opressão do Egito, Deus libertou o Seu povo. Durante seis dias, o trabalho é pesado, mas o sétimo dia é a própria libertação. Memória que o povo de Deus não deve esquecer. Semanalmente essa memória é celebrada. No imaginário mitológico da comunidade que produziu Gn 1,1–2,4a, essa ideia tão revolucionária não podia ficar de fora. A humanidade, feita à imagem de Deus, é sagrada. Assim como Ele, ela precisa descansar. Para os dirigentes babilônicos, não era necessário descansar. O povo precisava trabalhar muito para pagar os tributos. E os deuses recebiam simbolicamente esse tributo. Ir ao Santuário de Marduk e deixar ali a sua oferta (tributo) mantinha a estabilidade política e social. O ser humano, no mito babilônico, foi criado para servir aos deuses com o seu trabalho. Desse modo, os deuses tornaram-se livres da árdua tarefa de trabalhar. Ademais, receberam como gratidão uma morada no céu e oferenda na Terra1. A comunidade de Gn 1,1–2,4a sabia de tudo isso, e não foi por menos que levantou a bandeira diante do opressor: “Temos direito ao sagrado dia do descanso semanal!”. E precisa maior resistência que essa? As resistências apresentadas são sinais de esperança que o povo contou em forma de mito, ou melhor, de contramito, em um único refrão: o nosso Deus age completamente diferente dos deuses babilônicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 SEUX, Marie-Joseph et. al. La creacion del mundo y del hombre en los textos del Próximo Oriente Antiguo. Salamanca: Verbo Divino, p. 35.

Fonte: www.bibliaeapocrifos.com.br

Frei Jacir é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019).

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