Releitura da Torá: a pregação e o caminho de Jesus

Releitura da Torá: a pregação e o caminho de Jesus

Por Frei Jacir de Freitas Faria, ofm

Dando continuidade à reflexão iniciada sobre a releitura da Torá em Jesus (cf. MSA, abril/2011), vejamos outros acontecimentos na sua vida, pregação D e caminho para a morte.

NEM UM I, UM YOD, SERÁ TIRADO DA TORÁ

A Torá é fundamentalmente o caminho da esperança. É isso o que Jesus queria dizer quando afirmou: “Nem um só i será tirado da Torá” (Mt 5,18). O i mencionado corresponde à letra hebraica chamada yod (y), a menor entre as consoantes do alfabeto hebraico. O yod é o símbolo da esperança. E são vários os motivos que levam a conferir-lhe esse significado tão especial, a saber:

Ele faz parte do nome de Deus (Iahweh).

Ele condicionou o alinhamento do alfabeto hebraico na parte superior.

Na conjugação dos verbos hebraicos, ele é imprescindível no futuro (rmaiy) e, mediante a letra wav (w), o futuro transforma-se em passado (rmayw), que significa um passado com germes de esperança e um futuro sempre promissor. Ademais, o futuro, em hebraico chamado de imperfeito (rmaiy), pode ser traduzido como presente, passado e futuro. Para nós, que não temos o hebraico como língua-mãe, fica difícil compreender essa lógica de raciocínio. Os compatriotas de Jesus, no entanto, compreenderam muito bem o que ele queria dizer.

O número quatro em hebraico é simbolizado pela quarta letra do alfabeto hebraico dálet, a qual se escreve com duas linhas sobrepostas, uma vertical e outra horizontal (d). Esse número representa o universo com seus pontos cardeais. O número cinco em hebraico é simbolizado pela letra he, a qual é formada pelo dálet (d) e um yod (y), o que resulta h. A presença do yod no cinco mostra que o tempo cronológico sempre espera voltar ao tempo cósmico. O yod será sempre essa esperança de voltar ao tempo de Deus. Ele é Deus mesmo no tempo cronológico que cada um de nós, com as nossas mãos, podemos abarcar.

Com o yod, escreve-se o substantivo mão (yad), a qual, com o polegar em riste, aponta sempre para o além, a esperança.

O yod, no substantivo Ierushalaim, simboliza Deus, esperança de um povo que sonha com a paz. Não obstante a guerra interminável entre Israel e a Palestina, Jerusalém será sempre a cidade (Ieru) da paz (Shalom), da esperança.

Não tirar o yod é não abolir da Torá a esperança de um povo que caminha. A Torá é eterna. E eternos são os que a seguem sem abolir sequer um i, um yod, a esperança de, após seu cumprimento, voltar ao tempo cósmico, tempo de Deus e, por isso, eterno, infinito e ilimitado.

E JESUS-TORÁ SUOU/CHOROU LÁGRIMAS DE SANGUE

A comunidade lucana (cf. Lc 22,44) conservou-nos a memória do fato que Jesus, angustiado no Monte das Oliveiras, rezava, e o seu suor se tornou semelhante às espessas gotas de sangue que caíam por terra. O que isso tem a ver com releitura da Torá em Jesus? Não é difícil compreender. Basta recordarmos alguns fatos relacionados a esse tema no Primeiro Testamento e na Torá oral – ensinamentos dos sábios judeus. Adão, o ser humano, ao perder a sua situação paradisíaca, recebe de Deus a tarefa de “retirar com o suor de seu rosto o pão da terra” (cf. Gn 3,17b). Diz a Torá oral que Moisés escreveu com lágrimas o último capítulo da Torá escrita.

Mas qual é o significado de “lágrimas de sangue”? Lágrima, em hebraico, escreve-se demah. Sangue é dam. Olho é hayin. Lágrima é também ‘sangue do olho’. Não por menos dizemos: encontrei um “olho d’água”. Por isso, pode-se dizer que a lágrima, isto é, o sangue do olho, é sinal de vida. Quem já não chorou por uma vida perdida?

Após as lágrimas, a vida continua em outras vidas. Mas foi preciso chorar para entender o mistério da morte- -vida. “As lágrimas por alguém que morreu se cristalizam nas flores de túmulo” (Cf. FARIA, Jacir de Freitas. As origens apócrifas do cristianismo: comentário aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 39). Flores não murcham. Lágrimas não se esgotam. Elas ficam no mais profundo de quem as oferece. O outro que se foi permanece no eu eternamente, em forma de vida que não morre, mas que renasce em um eterno vaivém da vida-morte-vida. E nisso está o simbolismo do suor de Jesus, das suas lágrimas de sangue derramadas no Monte das Oliveiras. Jesus, qual um novo Adão e novo Moisés legislador, derramou lágrimas de sangue sobre a terra. Terra que fora amaldiçoada por Deus por causa da transgressão de Adão (ser humano).

O Segundo Testamento quis reler esse fato mostrando que a terra do monte da Torá-Oliveira recebe o suor de Jesus-Torá, o que gera a vida a vida e reconduz a todos, judeus e cristãos, ao paraíso perdido por Adão (ser humano). As lágrimas de Jesus produzem vida em plenitude. E assim também sucedeu, algum tempo mais tarde, com Maria Madalena, aquela que tanto chorou por Jesus, o seu amado que partira. As lágrimas nela só esgotaram quando ela compreendeu que Jesus morava dentro dela eternamente. Não mais importa o túmulo vazio. Os discípulos de Emaús, ao partir o pão, perceberam que Jesus vive dentro deles. Tomé vira o Senhor. O Espírito Santo de Pentecostes confere a todos(as) uma mesma língua que evangeliza e gera, com o suor do árduo trabalho apostólico, lágrimas de vida eterna.

A TORÁ-FIGUEIRA-PALMEIRA NA ENTRADA DE JESUS EM JERUSALÉM

Assim como a pomba, a oliveira e o vinho, figueira e palmeira representavam metaforicamente a Torá. A palmeira simbolizava o justo (cf. Sl 92[91],13). Ela era também sinal de vitória e invencibilidade. Também é símbolo do justo que venceu, pois seguiu os preceitos da Torá. E palmeira recorda a Torá. Por sua vez, figueira, planta que cresce e dá frutos mesmo em terreno não muito fértil, simboliza a paz e a fertilidade advindas do cumprimento da Torá. Uma figueira não podia ser jamais estéril. Na passagem de Marcos 11,12-26, Jesus amaldiçoa uma figueira sem frutos. Mais tarde, os discípulos compreenderam que a figueira sem frutos simbolizava aqueles que não praticavam as boas obras requeridas pela Torá, aqueles que não possuíam fé suficiente.

Quando o texto diz que a figueira não tinha frutos porque não era tempo de frutos, poderia ser um acréscimo de alguém que não compreendeu a lógica da ironia do pensamento semita de Jesus. A figueira brota desde muito cedo. A literatura judaica diz: “Em que aspecto as palavras da Torá são comparáveis aos figos? Quando um homem vai colher figos, sempre encontra frutos. O mesmo acontece com as palavras da Torá. Independentemente do número de vezes que um homem solicitar significados e sabores, há de encontrá-los sempre” (Tratado Eruvin 54b). Esse testemunho nos confirma que a comunidade de Marcos estava querendo dizer que Jesus é a Torá- -Figueira que sempre dá frutos. Quem não produz frutos é como uma figueira seca, estéril, uma Torá sem fruto. E essa foi a denúncia feita por Jesus. Toda a vida é um chamado de Deus a dar frutos. Jesus convoca os seus a alimentarem-se da Torá e a darem bons frutos, assumindo a vida com responsabilidade diante de Deus e dos outros. Aquele que se recusa a dar frutos fez a opção livre pela maldição, esterilidade e morte. Não foi responsável diante da tarefa que Deus lhe confiara. E ele se torna uma figueira estéril e seca. Quem assume a Torá sempre será uma figueira carregada de figos novos.

Jesus-Figueira de bons frutos pôde, então, entrar como Messias em Jerusalém. Os evangelhos conservam a memória dessa entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11; Mc 11,1-11; Lc 19,28-38; Jo 12,12- -16). É significativo que Jesus parte de Betfagé para entrar em Jerusalém. Em Jerusalém ele é recebido com ramos de palmeira (cf. Jo 12,13). Betfagé significa ’casa da figueira’ (cf. Mc 11,1-2). Bet significa casa e fag, figo. Onde está nisso a releitura? É fácil vê-la. Jesus-Torá e também Torá-figueira, que sempre deu frutos, entra em Jerusalém e é recebido com ramos de Torá-Palmeira. Em outras palavras: a Torá é recebida com a Torá. A figueira é o fruto da ação missionária de Jesus e a palmeira, o prêmio da vitória do judeu chamado Jesus, que em tudo viveu a Torá.

JESUS-TORÁ: O ADMIRADOR DOS FARISEUS

Ainda hoje, alguns insistem em dizer que Jesus era contra os fariseus. Esse não parece não ser um caminho saudável para o diálogo inter-religioso. O famoso texto de Mateus 23, no qual os fariseus são chamados de hipócritas, é, na verdade, posterior a Jesus. O conteúdo reflete problemas internos da comunidade de Mateus com a sinagoga. Essas palavras foram colocadas na boca de Jesus para justificar a ação dos primeiros judeus cristãos com a sinagoga. Ele, ao contrário, teve amigos fariseus. Sua prática era muito parecida com a dos fariseus. Assim como os fariseus, Jesus aceitava a Torá oral e escrita, gostava de contar parábolas, interpretava-a de modo progressista e popular, era criativo, tinha inimigos, seguia os preceitos da Torá, vivia de modo simples, era um missionário dela e acreditava na ressurreição dos mortos.

Os rabinos identificaram sete tipos de fariseus conservadores. Tinha, por exemplo, o fariseu “que sangra”: aquele que, para desprezar uma mulher, anda sempre com a cabeça para baixo, por isso se machuca trombando nos muros. Na verdade, esses fariseus tradicionais podiam, por amor a Torá, até praticar os atos apontados em Mateus 23; o que não pode, por outro lado, nos levar a dizer que Jesus não gostava dos fariseus, bem como afirmar que fariseu é simplesmente sinônimo de hipócrita. Urge reparar uma injustiça cometida contra os fariseus (Cf. MIRANDA, Evaristo E. de.; MALCA, José M. Schorr. Sábios fariseus: reparar uma injustiça. São Paulo: Loyola, 2001).

Ser fariseu é ser sábio, um fiel seguidor da Torá, assim como o fora Jesus de Nazaré. Por ele ser fariseu, o cristianismo firmou-se no meio do povo da Torá. Por causa dos fariseus, como Rabbi Akiba e seus seguidores, o judaísmo manteve-se em pé, após a guerra de 70 E.C., até os nossos dias.

JESUS NÃO VEIO PARA ABOLIR A TORÁ

Jesus não veio para abolir a Torá (cf. Mt 5,17). Ele veio para cumpri-la em plenitude. A famosa frase dos evangelhos: “Os antigos disseram…, eu, porém, vos digo…” (cf. Mt 5,33-34), melhor seria traduzida segundo o pensamento dialético judaico: “Os antigos interpretaram assim e o fizeram corretamente; eu, porém, interpreto assim, e também o faço corretamente”. Ambos podem e devem interpretar. Um não invalida o outro. A Torá revelada, ouvida de geração em geração, transmitida e interpretada, será sempre eterna, quando atualizada. Um texto é sempre morto, mas ganha vida na boca e na pena de um intérprete. Esse modo pensar judaico foi o de Jesus.

Infelizmente muitas de nossas igrejas e sinagogas perderam o sagrado respeito pelas diferentes interpretações de um mesmo texto. Felizmente, muitas de nossas escolas populares de leitura bíblica e círculos bíblicos ressuscitam esse modo de interpretar a Palavra de Deus. E toda interpretação tem o seu valor, seja a do estudioso da Bíblia, seja a da dona Maria da escola bíblica.

A Torá escrita só terá sentido se for constantemente iluminada pela Torá oral. Compreender isso é entender o mistério profundo da encarnação de Jesus que nasceu judeu, continua judeu e se fez cristão para continuar judeu. O judaísmo há de continuar o seu caminho de santificação. O cristianismo há continuar o seu caminho de salvação. Ambos os trajetos serão sempre diferentes e tais diferenças devem ser mantidas; no entanto, Deus é o mesmo que se revelou a nós todos no Primeiro e no Segundo Testamentos. Basta compreender a releitura. O restante vem por acréscimo. O que será de tudo isso deixemos ao encargo do Santo, o Eterno, o Deus de Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Raquel, Jesus e Maria Madalena…

Fonte: bibliaeapocrifos.com.br

Frei Jacir é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019).

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